Geral
Investimento global em ouro ganha força com desdolarização e incerteza geopolítica
Relatório aponta que quase 90% dos bancos centrais esperam aumento das reservas do metal, enquanto 45% planejam novas compras
Bancos centrais intensificam a corrida pelo ouro em meio à desdolarização e à instabilidade global. Segundo levantamento do Conselho Mundial do Ouro, o metal passou a ser visto cada vez mais como proteção estratégica diante de riscos geopolíticos e econômicos.
A expectativa de que os bancos centrais ampliem suas reservas de ouro ganhou força, impulsionada pela instabilidade internacional e pela tendência de redução da dependência do dólar.
De acordo com a pesquisa anual do Conselho Mundial do Ouro, publicada nesta terça-feira (16), cerca de nove em cada dez autoridades monetárias acreditam que as reservas globais do metal continuarão crescendo no próximo ano. Ao mesmo tempo, a dominância do dólar deve diminuir nos próximos cinco anos, em um movimento que reflete uma estratégia mais ativa de proteção contra choques geopolíticos e econômicos.
O levantamento mostra ainda que 45% dos bancos centrais planejam aumentar suas reservas de ouro, índice recorde e superior aos 43% registrados no ano anterior.
Recentemente, o metal ultrapassou os papéis do Tesouro norte-americano como principal ativo de reserva, segundo respostas de 76 bancos centrais consultados entre fevereiro e maio — a maioria após o início do conflito no Oriente Médio. Em contraste, 74% dos entrevistados esperam que a participação do dólar nas reservas globais encolha, reforçando a percepção de perda gradual de hegemonia da moeda norte-americana.
O apelo do ouro segue fortemente associado ao seu desempenho em períodos de crise: 90% dos entrevistados citaram essa característica como razão central para mantê-lo. Outros 84% destacaram seu papel como reserva de valor de longo prazo, enquanto 82% apontaram a diversificação de portfólio.
Entre os mercados emergentes, o metal é visto sobretudo como proteção geopolítica, fator mencionado por 85% dos bancos centrais desse grupo. Parte das futuras compras deve ser financiada por programas domésticos em moeda local, embora 38% considerem vender reservas já existentes.
Nos últimos quatro anos, a acumulação média anual de ouro pelos bancos centrais chegou a 1.000 toneladas, o dobro da média registrada na década anterior, em meio à crescente incerteza global. A percepção de que o metal ganhará ainda mais espaço nas reservas é amplamente compartilhada: para 83% dos entrevistados, sua participação deve aumentar nos próximos cinco anos, expectativa 17% superior à observada no levantamento anterior.
A pesquisa também identificou mudanças nos padrões de armazenamento. Cerca de 9% dos bancos centrais aumentaram o volume de ouro mantido em seus próprios países no último ano, enquanto 10% diversificaram os locais de custódia no exterior.
“Menos bancos centrais veem isso como um investimento legado; mais o veem como uma alocação ativa e estratégica em um ambiente definido pela incerteza geopolítica e pela diversificação de reservas”, afirmou Shaokai Fan, do Conselho Mundial do Ouro, segundo o South China Morning Post.
O interesse crescente também aparece em mercados específicos. A China registrou o 19º mês consecutivo de aumento nas reservas, alcançando 74,96 milhões de onças troy em maio. Em Hong Kong, o Standard Chartered planeja construir sua primeira instalação de armazenamento de ouro para atender à demanda de bancos centrais e clientes de alta renda. A instituição projeta que o preço do metal chegue a US$ 5.150, cerca de R$ 27.810, por onça até o fim do ano.
Por Sputnik Brasil
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