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Dia dos Namorados: estar apaixonado pode pesar no bolso? Datas comemorativas impulsionam consumo e deixam rastro de inadimplência no varejo
Datas afetivas estimulam compras impulsivas e reforçam relação entre consumo, emoções e crédito
São Paulo, junho de 2026 – O avanço do endividamento às vésperas do Dia dos Namorados acende um alerta sobre a relação cada vez mais emocional entre consumo, bem-estar e crédito. Em um cenário de orçamento pressionado, inflação persistente e renda comprometida, especialistas apontam que datas comemorativas acabam funcionando como gatilhos para compras impulsivas, motivadas não apenas pelo desejo de consumir, mas também pela busca de satisfação emocional, validação afetiva e sensação momentânea de felicidade.
Em março deste ano, o percentual de famílias endividadas no Brasil ultrapassou 71%, enquanto a inadimplência se aproximou do maior nível desde 2012, segundo o Serasa. Entre as famílias de menor renda, o endividamento já atinge 74,5%. Já dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo indicam que o cartão de crédito segue como principal modalidade de dívida, presente em 79,3% dos casos, consolidando-se não apenas como ferramenta de compra parcelada, mas como recurso recorrente para cobrir despesas do cotidiano.
O contexto ajuda a explicar por que períodos como o Dia dos Namorados podem representar um risco ainda maior para o equilíbrio financeiro. Impulsionados por campanhas publicitárias, redes sociais e pela pressão simbólica de transformar afeto em consumo, muitos brasileiros acabam recorrendo ao crédito para manter experiências, presentes e demonstrações materiais que, muitas vezes, fogem da realidade financeira do momento.
“Datas comemorativas mexem diretamente com emoções, expectativas e pertencimento social. O consumo passa a funcionar como uma forma de demonstrar afeto, viver experiências e até buscar bem-estar emocional. Em muitos casos, gastar gera uma sensação imediata de felicidade e validação, principalmente em períodos ligados a relacionamentos e celebrações”, afirma Thiago Oliveira, CEO da Monest.
Segundo o executivo, existe uma relação direta entre emoções positivas e aumento da propensão ao consumo. Estar apaixonado, por exemplo, pode levar a decisões financeiras mais impulsivas, justamente porque o cérebro tende a priorizar recompensas imediatas e minimizar a percepção de risco financeiro. “Quando a pessoa está emocionalmente envolvida, ela tende a relativizar limites financeiros. O parcelamento cria uma falsa sensação de controle, porque a decisão é baseada no valor da parcela e não no impacto total daquela compra no orçamento dos próximos meses. Quando a parcela cabe no bolso, a mente prefere não saber do valor total. É assim que o crédito rotativo captura”, diz.
A pressão financeira se torna ainda mais preocupante diante da redução histórica da renda disponível das famílias. Dados da Tendência Consultoria mostram que, em fevereiro deste ano, a parcela da renda que sobra após gastos essenciais, impostos e dívidas caiu para apenas 21%, o menor patamar desde o início da série histórica, em 2011. Na prática, sobra menos dinheiro para consumo, lazer e imprevistos, justamente em um momento em que o varejo intensifica campanhas promocionais e incentivos ao parcelamento.
“Hoje existe uma conexão muito forte entre consumo e sensação de bem-estar. Muitas pessoas compram para aliviar ansiedade, compensar frustrações ou atender expectativas sociais. Em datas como o Dia dos Namorados, isso se potencializa porque existe uma construção cultural muito forte de que amar também significa presentear, proporcionar experiências e demonstrar financeiramente esse afeto”, afirma Oliveira.
Os números da inadimplência reforçam o cenário de deterioração financeira. Em março, o Brasil atingiu 82,8 milhões de pessoas negativadas, segundo dados do Serasa, acumulando 15 meses consecutivos de alta. A maior concentração está entre consumidores de 41 a 60 anos, que representam 35,5% dos inadimplentes, seguidos pela faixa de 26 a 40 anos, com 33,5%. O valor médio dos acordos fechados no período foi de R$ 756, enquanto os descontos concedidos ultrapassaram R$ 18,4 bilhões. Atualmente, o volume total de dívidas disponíveis para negociação supera R$ 1 trilhão.
Para a Monest, o cenário mostra que o problema do endividamento está principalmente na forma como o consumo passou a ocupar um espaço emocional na vida das pessoas. “O crédito é uma ferramenta importante, mas quando ele começa a ser utilizado como extensão do bem-estar emocional, existe um risco muito grande de perda de controle financeiro. Iniciativas de educação financeira ajudam a interromper o ciclo de endividamento e inadimplência, mas são ações preventivas. Afinal, você não ensina a nadar quem já está afogando. O desafio hoje não é deixar de consumir, mas construir uma relação mais saudável entre dinheiro, autoestima, afeto e qualidade de vida”, conclui o CEO da Monest.
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