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Perda de renda com consignado acende alerta nas construtoras
Endividamento recorde das famílias e oferta maior de crédito consignado preocupam setor da construção civil, especialmente empresas do Minha Casa Minha Vida.
A rápida expansão do crédito consignado no Brasil, aliada ao já elevado endividamento das famílias, acendeu o sinal de alerta entre as construtoras. O setor teme que uma possível piora na capacidade de pagamento da população prejudica tanto as vendas de imóveis quanto os financiamentos aos consumidores.
O risco é maior para construtoras que atuam no segmento de moradias populares, especialmente no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). Nesses casos, é comum que os clientes não tenham poupança suficiente para arcar com 20% a 30% do valor do imóvel exigido como entrada.
Para viabilizar as vendas, as construtoras parcelam esse valor, em uma modalidade conhecida no setor como pro soluto . Apesar de facilitar o acesso à própria casa, esse formato não oferece garantia em caso de inadimplência, já que o imóvel serve de garantia apenas para o banco que financia a maior parte do valor.
Com o endividamento das famílias em alta, impulsionado pelo consignado, o risco de inadimplência cresce. "O valor líquido do salário recebido pelos trabalhadores vem sendo reduzido pelo consignado privado. O risco da carteira de pro soluto está se ampliando", afirma José Urbano Duarte, consultor de negócios imobiliários e ex-diretor de habitação da Caixa Econômica Federal.
Segundo levantamento de Urbano, a concessão de crédito consignado girou em torno de R$ 1,6 bilhão ao mês até março de 2025. Com o lançamento do programa federal “Crédito do Trabalhador”, que utiliza o FGTS como garantia e permite juros menores, o volume saltou para mais de R$ 6 bilhões mensais, atingindo o pico de R$ 10,9 bilhões em março de 2026.
A consequência desse crescimento acelerado é a chamada “perda de renda” da população nos meses seguintes, já que as parcelas do consignado são descontadas diretamente do contracheque, priorizando o pagamento aos bancos. Isso aumenta o risco de inadimplência em outros compromissos, como o próprio pro soluto, aluguel e faturas de cartão de crédito.
“A consequência dessa dinâmica é o menor risco do consignado para os bancos e o aumento da oferta dessas linhas, porém com uma captura crescente da renda, e ampliação do risco, aumentando a inadimplência nas demais linhas de crédito”, destaca Urbano.
Ricardo Paixão, diretor financeiro da MRV, concorda que o cenário merece atenção das construtoras e de outros setores produtivos. "Isso atrapalha tudo, não só a carteira pro soluto. Afeta desde o aluguel até os gastos nos supermercados", ressalta. "O banco é como um credor sênior do consumidor. A vantagem é ser uma dívida mais barata, mas o problema é a população ficar cada vez mais individualizada. Pode ser um fator de pressão". Segundo Paixão, a MRV ainda não registrou aumento na inadimplência de clientes, mas o tema segue sob monitoramento.
Na Cury, o cenário também é acompanhado de perto. "A inadimplência requer um monitoramento de perto. Impactou nossa carteira? Ainda não. Ela ainda está sob controle, mas estamos realmente muito atentos, devido às famílias serem mais individualizadas", afirma João Carlos Mazzuco, diretor financeiro da empresa. Já Leonardo Mesquita, copresidente da Cury, aponta que o endividamento crescente já impacta as vendas. "Há muitas pessoas que deixam de comprar um imóvel pelo nome negativado. Nos estandes, dizemos muito mais 'não' do que 'sim'. O endividamento nos atrapalha", comenta.
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