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'Não se mata só com bala', diz filha do 1º líder indígena reconhecido vítima da ditadura no Brasil

Sputinik Brasil 20/05/2026
'Não se mata só com bala', diz filha do 1º líder indígena reconhecido vítima da ditadura no Brasil
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Marcado para morrer: essa era situação de Marçal de Souza Tupã'I, líder indígena Guarani-Ñandeva, há 43 anos, antes de ser baleado cinco vezes em Mato Grosso do Sul por fazendeiros da região. Neste ano, ele se tornou o primeiro indígena reconhecido pelo Estado brasileiro como vítima da ditadura militar.

Sua filha, Edna Silva de Souza, professora aposentada e historiadora, recebeu a notícia na aldeia de Dourados, onde vive, na mesma região onde o pai passou parte da vida. Em entrevista à Sputnik Brasil, ela elogiou a anistia, mas lamentou o apagamento das tradições de diferentes povos originários brasileiros. "Não se mata só com bala."

Em novembro de 1983, Marçal de Souza Tupã'I foi morto a tiros em uma emboscada armada por fazendeiros nos arredores do município douradense. Liderança dos Guarani-Kaiowá, ele havia passado anos defendendo a demarcação de terras indígenas e denunciando a perseguição do regime militar.

Vítima da ditadura

"Nós, depois de 42 anos, recebemos a notícia com muita surpresa", disse Edna sobre o reconhecimento. Ela elogiou a atuação de Marco Antônio Delfino, do Ministério Público Federal (MPF) em Dourados, que "teve essa sensibilidade de sentir" o sofrimento indígena e "como grande autoridade, pelos caminhos que ele tinha, lutou pelos meios não indígenas para provar que meu pai foi vítima da ditadura".

Para a professora, o reconhecimento foi possível também graças ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo ela, "tem sensibilidade". Ainda assim, diz, há um "cerne ruim" dentro do governo, que impossibilita mudanças mais significativas na proteção de povos indígenas.

Edna formou-se em história, mas começou sua carreira aos 16 anos como assistente de uma professora não indígena, servindo de intérprete para alunos falantes de guarani. "Na época, o presidente da Funai era militar, e o administrador também era coronel", lembra, ao comentar sobre quando foi impedida, anos depois, de ensinar sua língua materna para estudantes.

O episódio aconteceu em 1972, na aldeia de Carapó. Edna tentava montar um projeto de ensino pelo método fonético, em guarani, para crianças que mal falavam português.

"A supervisora chegou, viu o que eu estava fazendo com as crianças e falou: 'O que que é isso? Pode apagar tudo. A senhora está proibida de ensinar na língua. Se a senhora insistir nesse projeto, nós vamos transferir a senhora para o Amazonas.' Mas eu nunca deixei de realizar o meu sonho."

Ao contar que seu nome de batismo em guarani, Kunhã Apyka Rendy’i, significa "aquela que leva a luz do saber", ela defende que língua é mais que instrumento de comunicação: sustenta a "cosmovisão" guarani.

"Para um povo se fortalecer em todos os aspectos de luta, é [necessário] o domínio da língua", explica. "Ele que nos dá segurança para continuar lutando pelos territórios. A nossa cosmologia, a nossa crença, é que as coisas estão todas conectadas uma com a outra. Natureza, terra, fogo, universo. Está tudo conectado."

Ela relata que passou décadas tentando mudar o sistema educacional para abrir espaço para pedagogias mais inclusivas e horizontais. As escolas terem alunos enfileirados, por exemplo, sugere uma herança deixada pela ditadura militar.

Para ela, fato de diversos povos indígenas reunirem-se em círculos é um dos vários exemplos capazes de tornar o processo educacional mais adequado à realidade. É um dos pilares que os professores indígenas formados na Faculdade Intercultural Indígena (Faind) tentam implementar, mas esbarram na estrutura vigente.

"Quando se organiza uma sala de aula em semicírculo, vai haver uma troca de conhecimento entre as crianças e o diálogo com o canto na língua. E isso é muito complicado para começar, porque esbarra nessa forma de 500 anos que vem sendo introduzida nas escolas não indígenas."

Demarcação

Para a cosmologia guarani, língua e terra são "tentáculos" de um mesmo ser vivo. "Cada árvore que morre é como se o ponteiro do relógio adiantasse cada vez mais para as catástrofes que vêm acontecendo no mundo."

"Mas a frieza, a maneira como os não indígenas enxergam o mundo, essa frieza que não se sente pertencente à natureza, com a destruição da natureza pela ganância do agronegócio. A tendência é realmente o desequilíbrio."

Para ela, muitos não-indígenas utilizam seus próprios conceitos para tentar entender o que é o modo de pensar indígena, tentando adequar a vida à sua própria forma de ver o mundo. Um exemplo é a ideia de que os povos originários do Brasil "adoram" o Sol e Lua como entidades religiosas, quando na verdade há uma relação de respeito e equilíbrio.

"Quando o povo indígena foi violentamente tirado dos seus territórios, aquele elo cultural, aquele elo de crença foi rompido. Um desses tentáculos importantes da vida do povo indígena foi cortado. A retomada do território é unir de novo esse elo de crença, de vida, para continuar como povo."

O Mato Grosso do Sul concentra hoje o segundo maior número de assassinatos de indígenas do Brasil, com 33 mortes registradas em 2024, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

O epicentro tem sido as disputas pelas terras dos Guarani Kaiowá, na região sul do estado, povo ao qual pertencia Marçal, que enfrenta ataques armados de fazendeiros e processos de demarcação paralisados há décadas. A Terra Indígena Iguatemipeguá I, por exemplo, foi delimitada em 2013 e segue sem regularização.

Em novembro de 2025, um indígena de 36 anos foi morto com tiro na cabeça durante um ataque noturno à retomada Pyelito Kue, em Iguatemi (MS), por um grupo de cerca de 20 homens armados. A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o episódio, classificando-o como parte de um padrão histórico de violência para aterrorizar comunidades.

Para Edna, a anistia de Marçal, seu reconhecimento como perseguido não só pelo fazendeiros, mas também pelo Estado, tem peso além do simbólico pois cria um precedente e diz, oficialmente, que o Estado errou. "Dá força à luta do povo Guarani Kaiowá na retomada dos seus territórios".

O grande ensinamento que Marçal deixou, segundo a filha, foi de não esquecer as raízes ancestrais e não deixar de lutar pelo direito do outro.

"Uma coisa grande que ele deixou para nós é a questão da honestidade. Ele tirava a roupa do corpo para dar para aquele que não tinha. Compartilhar e ser honesto. Porque tudo que a gente possui, não nos pertence. Nós somos um povo, nós somos irmãos, somos sangue e temos que caminhar juntos nas lutas e nas dificuldades do povo."

Em 1978, ainda sob a ditadura militar, Marçal representou todos os povos indígenas do Brasil no encontro com o papa João Paulo II, durante a primeira visita do pontífice ao país.

"Santidade, o Brasil não foi descoberto, o Brasil foi invadido, as nossas terras foram roubadas", iniciou em seu discurso.

A partir dali, segundo o antropólogo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Antônio Hilário, que também pesquisa o caso, os passos de Marçal passaram a ser ainda mais vigiados pelo regime militar. Havia agentes acompanhando suas palestras, registrando o que dizia e mapeando suas relações.

"Marçal representa, para essa questão dos conflitos territoriais e a recuperação do território Guarani Kaiowá, um divisor de águas: antes e depois do Marçal."

Ele chegou a ser espancado na aldeia de Dourados e teve que fugir para a região da fronteira. Sobre sua condição, o líder indígena chegou a afirmar: "Eu sou uma pessoa marcada para morrer. Mas por uma causa justa a gente morre." Cinco anos depois da agressão, em 1983, foi assassinado em meio às disputas pela área de Pirakuá, nas quais Marçal atuou ao lado de 30 famílias Guarani.

A demarcação foi contestada pelo fazendeiro Astúrio Monteiro de Lima e seu filho Líbero Monteiro, os mesmos acusados de mandar assassiná-lo em 1983 e que foram absolvidos por falta de provas no julgamento de 1993.

"Um crime até hoje sem condenação. O processo mudou de acusação, mudou advogado, mudou equipe, o delegado mudou um monte de vezes, até hoje um crime que não foi totalmente esclarecido e ninguém foi condenado", relata Antônio.

A situação ocorreu há décadas, mas ainda é predominante no estado sul-mato-grossense, segundo Edna. "O sistema de governo não nos vê como cidadãos, não nos vê como pertencentes a essa nação. Mesmo com a retomada dos territórios, precisamos da segurança do Estado. Se o Estado não tem sensibilidade para nos proteger, quem vai nos proteger?", critica Edna.

"Não se mata só com bala, se mata também de outras formas. Talvez mais cruéis, que é a morte lenta do povo Guarani Kaiowá."

Em Campo Grande, a aldeia urbana que leva o nome de Marçal de Souza foi a primeira da capital, fundada em 1994, onze anos após o assassinato do líder. Hoje há mais de 18 aldeias urbanas só em solo campo-grandense, com cerca de 20 mil indígenas, a maioria Terena.

Segundo o coordenador da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) da região norte do estado, Dione Batista, muitos indígenas se aglutinaram em pequenos territórios nas cidades para buscar uma vida mais protegida e unificada.

"Quando eles conquistaram essa aldeia ali, em 1994, fez exatamente 11 anos do assassinato do Marçal. Então foi uma forma histórica de homenageá-lo com essa primeira aldeia urbana que temos ainda hoje em Campo Grande, a aldeia Marçal de Souza. Para nós indígenas, a terra é a mãe. Porque tudo que a terra gera é a nosso favor."

Historiadora, Edna Silva de Souza diz que o futuro está nas mãos da resistência indígena e da solidariedade de outros povos.

"A gente crê que há uma grande esperança nessas novas gerações que estão dentro dos meios acadêmicos, mas que ainda têm sensibilidade para estar na luta com o seu próprio povo, na luta pelos seus territórios."