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'Em vez de renascimento tecnológico, vivemos um pesadelo anti-humano', diz Douglas Rushkoff

Escritor americano critica uso da tecnologia para manipulação e alerta para perda de vínculos humanos em palestra no São Paulo Innovation Week.

16/05/2026
'Em vez de renascimento tecnológico, vivemos um pesadelo anti-humano', diz Douglas Rushkoff
Douglas Rushkoff

O escritor americano Douglas Rushkoff fez duras críticas à idealização dos supostos benefícios das transformações digitais promovidas pela internet e pela inteligência artificial. A declaração foi dada durante palestra nesta sexta-feira (15), no São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap.

“Em vez de um renascimento tecnológico, nós acabamos em um pesadelo anti-humano, em que a tecnologia é usada nas pessoas para fazer-las pensar e se comportar de certas maneiras”, afirmou Rushkoff no painel de encerramento do palco principal Humanidade em Equipe: Reconstruindo a Sociedade Juntos.

Segundo o escritor, tanto a internet quanto a inteligência artificial poderiam ser aliadas no desenvolvimento da criatividade coletiva. No entanto, ele aponta que as ferramentas criadas no Vale do Silício acabam refletindo os interesses de uma minoria focada no lucro. “Eles começaram a utilizar ferramentas e tecnologia nas pessoas para que elas possam se comportar de forma consistente com os resultados econômicos nos quais eles apostaram”, comentou.

Rushkoff avalia que esse cenário está afastado de aspectos humanos essenciais, como a colaboração e o espírito de comunidade. “Você pode investir agora mesmo na comunidade, em conhecer seu vizinho, em fazer favores para as pessoas que você conhece”, sugeriu à plateia.

O escritor defendeu a importância de fortalecer as relações presenciais. Ele comparou com tempos passados, quando todos conheceram os vizinhos, e brincou: "Hoje, as pessoas não conhecem nem as dez pessoas mais próximas fisicamente delas quando dormem. Como você pode se sentir seguro nesse cenário?"

Para Rushkoff, a tecnologia tem promovido o individualismo e enfraquecido a coletividade. "Vivemos em um mundo de iPhones (eu-celulares), não de wePhones (nós-celulares). Isso reforça essa ilusão de individualidade. As pessoas se sentem mais seguras sozinhas do que com outras pessoas."

Como exemplo, ele cita a elite americana, que construiu bunkers privados para se proteger de possíveis eventos extremos. "As pessoas mais ricas e poderosas do mundo não acreditam que podem salvar o planeta. O que avaliamos como melhor alternativa é prevenir a catástrofe e isolar-se do restante do mundo."

O São Paulo Innovation Week, promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, encerra sua programação no Pacaembu e na Faap nesta sexta-feira (15) e, no fim de semana, segue para quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs): Heliópolis, Freguesia do Ó, Papa Francisco (Sapopemba) e Silvio Santos (Cidade Ademar).

Não é necessário fazer inscrição; o acesso será por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços. A programação gratuita reúne nomes como Marcelo Gleiser, Maria Homem e Ivair Gontijo em debates e experiências imersivas.