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Mundo vive 'guerra fria tecnológica', avalia embaixador brasileiro

Eugênio Vargas Garcia destaca disputa entre EUA e China pela liderança em IA e defende soberania digital para o Brasil

14/05/2026
Mundo vive 'guerra fria tecnológica', avalia embaixador brasileiro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A crescente disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio de ferramentas de inteligência artificial (IA), desenvolvimento de modelos tecnológicos e controle de componentes essenciais caracteriza uma nova Guerra Fria — agora, de natureza tecnológica. A avaliação é de Eugênio Vargas Garcia, diplomata brasileiro e embaixador extraordinário para Tecnologia e Inovação.

O tema foi debatido na mesa "Diplomacia da inovação na era da IA", durante o São Paulo Innovation Week, evento promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15.

Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias de evento, estão especialistas nacionais e internacionais em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia.

"Qualquer assunto que envolve tecnologia está no centro das relações internacionais", afirmou o embaixador. Segundo Garcia, o mundo vivencia hoje uma guerra fria tecnológica com forte viés econômico, em que o multilateralismo se enfraquece e as grandes potências concentram cada vez mais recursos e capacidades para o desenvolvimento.

O diplomata destacou ainda que países europeus já iniciaram movimentos em direção à soberania digital, buscando soluções locais para serviços de nuvem, plataformas de comunicação e trabalho, reduzindo a dependência das empresas americanas que atualmente dominam o setor.

A França, por exemplo, tem liderado discussões sobre a transição de plataformas americanas para soluções europeias. O país criou um ministério específico para lidar com transformações digitais e de IA e já substitui serviços em nível governamental. Segundo Garcia, o Brasil deve seguir o mesmo caminho.

No cenário nacional, a busca pela soberania tecnológica também passa pela valorização dos próprios recursos. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas explora menos de 1% de seu potencial. Na produção de chips, a indústria nacional atende apenas 10% da demanda interna, importando 90% dos insumos necessários.

"No caso do Brasil, estamos em situação delicada, pois a maior parte do que precisamos é importada. Diante dessas tensões geoeconômicas, temos uma vulnerabilidade significativa", alertou Garcia.

Por isso, o embaixador defende que este é o momento de buscar parcerias, tanto para desenvolver tecnologias próprias quanto para diversificar fontes de armazenamento e processamento de dados — fatores essenciais para alcançar a soberania digital e em IA.

"Temos avançado em inovação, desenvolvimento e adoção da IA no Brasil, mas é fundamental ampliar a cooperação internacional, seja com países em estágio mais avançado, semelhante ou até menos desenvolvido, pois também podemos contribuir levando conhecimento e experiências bem-sucedidas", explicou Garcia.

"O Brasil adota os princípios da IA, mas, do nosso ponto de vista, ela deve estar centrada no desenvolvimento. Se essa revolução tecnológica passa pela IA, queremos que ela contribua para o desenvolvimento nacional, que é nosso objetivo central", concluiu o diplomata.