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'Tenho a sensação de que estamos à beira de um novo fascismo', diz Nobel da Paz Dmitri Muratov

13/05/2026
'Tenho a sensação de que estamos à beira de um novo fascismo', diz Nobel da Paz Dmitri Muratov
Dmitri Muratov - Foto: Reprodução

O mundo atravessa diversos períodos de escassez de atributos psicológicos e, no momento, estamos em uma era da escassez da realidade. Para Dmitri Muratov, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, vivemos em uma sociedade influenciada pela fake news e pelos algoritmos, e que estamos prestes a ver um novo ressurgimento do fascismo no mundo.

O tema foi abordado no painel Coragem e Liberdade: Histórias que Transformam, durante o São Paulo Innovation Week, nesta quarta, 13. Maior festival global de tecnologia e inovação, o evento é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

Muratov é jornalista e um dos fundadores do Novaya Gazeta, um jornal independente criado na Rússia em resposta à opressão de mídias no país. Seu trabalho no jornal lhe rendeu, em 2021, o Prêmio Nobel da Paz em 2021, dando destaque à sua luta por uma imprensa mais livre. O jornalista atuava como editor-chefe do Novaya Gazeta até que o veículo suspendeu suas atividades online e impressas após o aumento da censura russa com o início da guerra na Ucrânia.

No palco do SPIW, Muratov abriu seu painel relembrando os sete jornalistas do Novaya que morreram desde o início da operação do jornal. Ele afirmou que chegou a considerar o fechamento do jornal mas que o projeto era uma forma de continuar lutando pela liberdade de imprensa na Rússia.

"Eu considerei que o jornal havia se tornado mortalmente perigoso para eles (os repórteres) e propus fechar nossa publicação. Mas os jornalistas se recusaram a obedecer. Eles me responderam: É nossa escolha pessoal conduzir investigações, fazer reportagens. É nossa função separar a verdade da mentira. Nosso acionista, Mikhail Gorbachev, os apoiou. Ele disse: Sem liberdade de expressão, a ditadura e o fascismo podem voltar", aponta Muratov.

Ainda com o Novaya Gazeta, o jornalista esteve presente em diversas coberturas que considera histórica para o veículo, como o caso Panamá Papers, em 2016, o desaparecimento do voo da Malaysia Airlines MH370, em 2014, e o caso do submarino Kursk, em 2000. "Quando recebi a medalha do Nobel - claro, essa medalha pertence ao jornal, não a mim -, eu disse que queria que os jornalistas morressem de velhice. Como vocês podem ver, isso nem sempre dá certo", diz.

Verdades e algoritmos

Muratov também alertou sobre o risco das fake news e das imagens geradas por inteligência artificial para o jornalismo e a forma como esses conteúdos ocupam o espaço dos fatos e chegam às pessoas pelas redes sociais. De acordo com o Nobel da Paz, vivemos em um tempo em que a nossa atenção é um bem valioso e os algoritmos lutam por ela com publicações atraentes, mesmo que elas sejam mentira.

Com isso, surgem o que ele chama de "mentiras atraentes", que se tornam mais fáceis e acessíveis ao público nas redes sociais. Isso ocorre tanto pelo funcionamento dos algoritmos, que tendem a priorizar conteúdos virais, quanto pelo engajamento que essas publicações geram. Um exemplo é a foto gerada por IA do papa Francisco com um grande casaco branco Balenciaga, marca espanhola de luxo. A foto foi criada em um programa de inteligência artificial e é falsa, mas quando viralizou na internet, muitas pessoas acreditaram ser real.

"A mentira é atraente, enquanto a verdade parece horrível. Então, será que ela é necessária? A mentira custa pouco, mas a verdade custa a vida. As pessoas estão dispostas hoje a pagar pela verdade ou isso é algo que só nós, jornalistas, precisamos? Existe demanda pela verdade? As pessoas precisam da verdade ou lhes bastam suas próprias convicções pessoais? As pessoas estão dispostas a gastar seu tempo para descobrir a verdade?", pergunta Muratov.

Autoritarismos e governos

Segundo o Nobel da Paz, governos populistas estão utilizando a democracia como uma forma de chegar ao poder e utilizá-los para seus próprios fins - uma forma de perpetuar, por diversos meios, uma espécie de regime de poder pessoal. "Os ditadores utilizam os mecanismos da democracia para chegar ao poder, mas nunca o entregarão voluntariamente", afirma.

O jornalista também acredita que o mundo está prestes a presenciar um retorno de governos fascistas a partir de políticas de segregação e favorecimento de poucas camadas da sociedade. Ele citou a expulsão de imigrantes e os bombardeios em diversos conflitos como indicativos de que a ideologia pode retornar.

"Tenho a sensação de que estamos à beira de um novo fascismo. Gorbachev, em certa ocasião, proclamou o ser humano como o valor supremo. Ele dizia: Há lugar para todos na Terra e, por isso, é necessário preservar o planeta, protegê-lo da guerra. Agora vemos exatamente o oposto: em nome do mito de sua onipotência, os ditadores se recusam a reconhecer os problemas climáticos. Estão dispostos a dividir os povos, impor tarifas, ocupar territórios, bombardear cidades. Mas como trazer o ser humano de volta ao centro da política?"

Participação de Caco Barcellos

Ao final do painel, Muratov foi entrevistado brevemente pelo jornalista Caco Barcellos e respondeu a questões sobre a imprensa russa, a guerra na Ucrânia e o Prêmio Nobel da Paz.

"Não é segredo algum que, nas fileiras das forças armadas da Rússia, lutam vários milhares de pessoas da Coreia do Norte. Além disso, há informações de que há pessoas lutando provenientes de países da América Latina. Essa é uma guerra alheia. Mas, infelizmente, quando as pessoas não têm nenhuma perspectiva de ascensão social, elas estão dispostas a matar famílias alheias para proteger e sustentar a própria", responde Muratov à pergunta sobre os soldados que vão para o front pela Rússia.

Ele também afirma que guerra é "uma palavra proibida" para os jornalistas que ainda insistem em reportar diretamente da Rússia, em um momento de repressão mesmo com a constituição do país proibindo a censura à imprensa.

"A maioria dos jornalistas que trabalhava em meios de comunicação independentes foi obrigada a emigrar. Pode-se dizer que, oficialmente, o jornalismo não existe, mas meus amigos e meus colegas, arriscando a vida, continuam trabalhando e obtendo as informações necessárias para a sociedade", aponta o jornalista russo.

Outro assunto na entrevista foi a conquista do Prêmio Nobel da Paz, em 2021. Muratov afirmou que a medalha lhe deu a oportunidade de falar sobre presos políticos e tentar, de alguma forma, que a justiça seja feita em relação às prisões e mortes de jornalistas.

Sobre o "concorrente" ao Nobel da Paz, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Muratov diz apenas que, como não tem mais a medalha, não poderia dividi-la com alguém. O jornalista leiloou o item em 2022 por US$ 103,5 milhões. O dinheiro foi destinado à ONU, para uma organização de ajuda à crianças ucranianas refugiadas.

"Me perguntam: Você tem esse prêmio e há um presidente da maior potência mundial que também gostaria de receber essa medalha. Você não gostaria de compartilhá-la com alguém? Vou lhe dizer o seguinte: já vendemos essa medalha em leilão. Eu não a tenho mais. Vendemos a medalha em benefício das crianças ucranianas refugiadas. Por isso, agora não tenho nem dinheiro nem medalhas, nem mesmo para compartilhar", brinca Muratov.

O painel terminou com um apelo de Muratov ao Brasil para que o país possa usar a sua diplomacia para ajudar a libertar os presos políticos da Rússia. "Sei que o Brasil faz parte do Brics, um grupo que, além do Brasil, inclui a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia. Por favor, o Brasil tem uma voz muito importante. Por favor, ajudem para que os presos políticos sejam libertados."