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Quais os principais entraves à capacidade de dissuasão do Brasil contra um eventual ataque externo?

Sputinik Brasil 19/03/2026
Quais os principais entraves à capacidade de dissuasão do Brasil contra um eventual ataque externo?
Foto: © Foto / Reprodução / Exército Brasileiro

À Sputnik Brasil, especialista aponta os três maiores obstáculos para que o país reforce a capacidade de defesa e desenvolva armamentos de dissuasão como almeja o presidente Lula.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu recentemente que o Brasil reforce sua capacidade de defesa e desenvolva armamentos de dissuasão diante de possíveis ameaças de invasão militar ao país.

"Se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente", disse Lula, durante a visita do presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, ao Brasil.

A declaração reflete a preocupação diante da escalada de tensão no Oriente Médio e do cenário volátil na América Latina.

José Augusto Zague, pesquisador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI-Unesp) e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-Unesp), explica à Sputnik Brasil que ataques externos de potências, como os EUA, seguem três etapas.

A primeira etapa é de vigilância, com monitoramento feito por drones e aeronaves que voam a grandes altitudes e fazem o mapeamento da infraestrutura militar do país a ser atacado. A segunda etapa é o deslocamento de porta-aviões e de outros navios, principalmente cruzadores. Os porta-aviões trazem aeronaves de combate para atacar o país com bombas e mísseis e os navios cruzadores vão disparar mísseis Tomahawk.

Já a terceira etapa, que ele aponta como a mais complicada e complexa, é a invasão por terra, que pode ter um custo muito alto, principalmente em vidas, uma vez que o adversário, mesmo que menos armado, pode utilizar táticas de guerra irregular e de guerrilha.

Zague ressalta que considera improvável que hoje o Brasil seja alvo de uma invasão, mas analisa que, em um cenário hipotético, o país não seria capaz de dissuadir uma potência como os EUA nas duas primeiras etapas citadas e lista os motivos que levam a essa incapacidade.

Sistema de defesa aérea

O pesquisador afirma que o sistema de defesa aérea do Brasil não teria capacidade para resistir, por exemplo, a ataques com aeronaves F-35 de quinta geração dos EUA que estão embarcados nos porta-aviões norte-americanos.

"Também não teria defesa eficiente contra misseis Tomahawk", diz o pesquisador em relação aos mísseis de cruzeiro que fazem parte do arsenal dos EUA.

Acordos de restrição

O fato de o Brasil ser signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e membro do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MCTR, na sigla em inglês) limita a capacidade dissuasiva do país, conforme aponta Zague.

Ele afirma que a arma nuclear é, por excelência, uma arma de dissuasão e que, no caso dos mísseis, a produção é limitada pelo MCTR.

"Por exemplo, se você tiver uma frota naval de um país adversário colocada a mais de 500, 600 quilômetros, o Brasil não tem hoje material de defesa, mísseis, para poder fazer frente a esse tipo de ataque."

Segundo o pesquisador, essas limitações configuram uma das "maiores vulnerabilidades do Brasil com relação às potências militares mundiais". Ele frisa que, por conta do MCTR, o Brasil não pode produzir mísseis que têm um alcance superior a 300 quilômetros nem com carga útil superior a 500 quilos, o que aumenta a vulnerabilidade do país frente a um hipotético ataque com força aeronaval de uma grande potência.

"Se essa força aeronaval se postar no nosso litoral a mais de 400 quilômetros, são mais de 300 quilômetros, nós não vamos ter mísseis a não ser que descumpramos o acordo do MCTR para poder impedir que eles ataquem o território", observa.

Dependência externa

Zague enfatiza que o Brasil deveria buscar reduzir a sua dependência de armamentos estrangeiros porque, mesmo que o país adquira armas que possam ser utilizadas em seu sistema de defesa aérea, o que ele avalia que dificultaria, mas não impediria, uma invasão de potência estrangeira, teria que adquirir isso no exterior, de uma outra potência ou de um grupo de países que desenvolvem conjuntamente sistemas de defesa aérea.

"Então ele ainda continuaria vulnerável. Porque os códigos-fonte desse tipo de armamento podem ser desabilitados pelo país fabricante. Se uma potência pressionar esse país, ele pode desabilitar os códigos-fonte. Ou se o Brasil comprar esse sistema de defesa aérea, por exemplo, dos EUA, eles podem desabilitar. Então continua havendo essa vulnerabilidade."

O pesquisador afirma que o que o Brasil pode fazer, no médio prazo, é desenvolver um desenho industrial próprio aplicado à tecnologia militar, com soluções que fizessem uma aplicação da tecnologia em meios mais avançados, como a cibernética e a guerra eletrônica e os drones, que ele aponta serem o futuro da tecnologia militar.

"Essa seria uma possibilidade, mas para o médio e longo prazo. No curto prazo, o Brasil teria a questão da dependência. Mesmo que ele adquira sistemas de armas modernos para defesa aérea, por exemplo, como dependente de outros países, esses países poderiam desabilitar esses sistemas. Então, o Brasil é um país que, nesse sentido, teria muita dificuldade de dissuadir uma grande potência."