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Quinze anos de intervenção na Líbia: a queda de Kadhafi e o caos instaurado pela OTAN
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas explicam as razões e as consequências da saída de Muammar Kadhafi do poder no país africano, que passou de referência de bem-estar social no continente para o convivio com guerras civis.
Em 19 de março de 2011, tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizaram uma intervenção militar na Líbia, que na época vivia um conflito civil em meio à Primavera Arábe — movimento de protestos contra autoridades no norte da África e no Oriente Médio no início da década passada.
Os militares dos países da OTAN chegaram ao território líbio sob o pretexto de proteger a população local do então comandante da nação, Muammar Kadhafi, em autorização obtida junto ao Conselho de Segurança da ONU. O que se viu, entretanto, foram ações que culminaram na queda e na morte de Kadhafi, assassinado após ser espancado por uma multidão.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas explicam que a situação da população líbia piorou desde a saída do líder. Se antes o país era referência de bem-estar social na África, hoje, com a economia debilitada, o povo assiste a grupos de duas regiões lutarem pelo poder: a Cirenaica e a Tripolitânia.
Fernando Brancoli, professor adjunto de segurança internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta que é difícil cravar quais eram as intenções da OTAN quando entrou na Líbia. No entanto, o especialista destaca que é possível dizer que a aliança não tinha um plano para o caso da queda de Kadhafi.
"Não havia previsão naquele momento de envio de tropas, até porque, se a gente lembrar, a gente está falando de governo [do presidente dos EUA Barack] Obama, eleito com a promessa de retirada, na verdade, de tropas dos Estados Unidos do Oriente Médio, do norte da África, principalmente do Iraque e do Afeganistão."
Ainda segundo o professor, a autorização para a operação da OTAN mudou os paradigmas do Conselho de Segurança da ONU, que desde então não aprovou mais intervenções militares como essa. Há um entendimento, em especial nos representantes do Sul Global, que ações como essa não trazem benefícios a longo prazo.
"Esse tipo de acusação de uma hipocrisia ocidental vai ser usada, por exemplo, no caso da Síria para bloquear ações dos EUA no Conselho de Segurança. A China vai usar em determinado momento também, não para justificar a atuação, mas como a materialização de uma certa hipocrisia do Ocidente. Países do BRICS, como o Brasil, por exemplo, vão retomar o caso da Líbia como o que seria o exemplo máximo de uma intervenção militar que só pensa em fins muito imediatos e não leva em consideração aspectos macros."
Pedro Martins, doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acredita que China e Rússia tenham se sentido enganadas pela forma como as tropas da OTAN agiram na Líbia, o que derrubou a credibilidade do Conselho de Segurança entre os próprios pares.
"Desde então, o Conselho de Segurança nunca mais conseguiu aprovar uma resolução de uso da força, em nenhum momento. Afetou a credibilidade deles. A Rússia e a China entenderam que foram enganadas por terem apoiado essa resolução, ou por não terem vetado essa resolução. Então, desde então, eles têm vetado as resoluções, porque eles não confiam mais que as resoluções vão ser respeitadas."
Para Martins, os países europeus enxergaram naquela convulsão social uma oportunidade para retirar Kadhafi do poder, embora ressalte que seja difícil analisar os "interesses obscuros" por trás do discurso de proteger os líbios.
"O fato também de a Líbia ser um país que está no Mediterrâneo e que faz fronteira marítima com a Europa acabou fazendo com que os países europeus se preocupassem e se envolvessem com esse pretexto. Mas muitos deles tinham já dificuldades de relacionamento com Kadhafi, já viam nessa situação uma oportunidade de mudança de regime, para um regime mais palatável aos seus interesses, então acabou sendo uma grande confluência de fatores."
O que restou para a Líbia?
Kadhafi comandava o país com um governo centralizador, que ruiu após a sua morte. Nesse vácuo, diferentes opositores batalham pelo poder e exploram a principal matéria-prima do país: o petróleo.
Brancoli explica que a extração desse combustível fóssil requer uma infraestrutura outrora comandada pelos aliados de Kadhafi, que envolvem desde oleodutos a mecanismos de troca que eram liderados pelo Estado. Ao longo dos últimos 15 anos, estruturas foram danifcadas ou destruídas e não passaram por substituição.
"Dentro desse contexto, com o Estado fragmentando, você perde, de certa forma, a própria capacidade de gerar riqueza e de transbordar essa riqueza para a população. A Líbia era um país — por mais que a gente tenha críticas que são muito claras no contexto da Líbia, como a falta de liberdade, a ausência de espaços de manobra para a oposição — que tinha índices bastante surpreendentes para contextos do Sul Global."
Martins conta que a ausência de poder no país provocou uma instabilidade ainda maior na região, que precisa lidar com o grande número de armas fora das mãos do Estado e até denúncias de escravização, além do aumento do fluxo migratório irregular para a Europa.
"Você tem tráfico de armas, porque muitas dessas milícias foram pesadamente armadas. Então começa a ter tráfico de armas para os países vizinhos, que também são países conflagrados. Tem uma desestabilização regional, tem tráfico de seres humanos, tráfico de pessoas, mais especificamente. Muitas dessas barcas que levavam migrantes para a Europa era também um negócio ilegal, altamente lucrativo e com condições péssimas para as pessoas que tentavam fazer essa travessia."
Para Brancoli, o episódio na Líbia ainda reverbera como um evento negativo na região quando o assunto é o estabelecimento de democracias.
"O caos da Líbia provocado após a intervenção mina, de certa forma, um debate amplo no Oriente Médio, ou ajuda a minar, pelo menos, de que alternativas são possíveis. Debates sobre transição, seja na Síria, seja no Egito, muitas vezes vão ser atravessados pelo argumento do que aconteceu com a Líbia. É isso que a gente quer para o nosso país? Esse caos que a gente quer trazer?"
Já Martins, por outro lado, destaca que o episódio na Líbia evidencia que os países ocidentais acreditam que modelos próprios e simples, como a derrubada de um líder, podem resolver as questões de toda uma nação.
"Alguns países [...] padecem do problema de achar que eles conseguem entender, de uma forma rasa, de uma forma breve, as complexidades de um outro país. E eles não conseguem fazer essa análise de cálculo direito. E aí estruturalmente falham, porque eles partem quase de uma situação de arrogância e eles analisam errado com base nisso. Ou, então, eles acabam cedendo a pressões de setores ou de outros grupos."
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