Geral
Artigo de Rai Gradowski: A literatura como espaço de pertencimento LGBT+
É indiscutível a enorme potência da literatura como instrumento de transformação social. A ficção aproxima experiências, apresenta perspectivas distintas de vida e pensamentos, gera reflexões, provoca empatia e sensibiliza para as diferentes realidades. A leitura provoca o deslocamento, a saída de si mesmo para habitar outros corpos, outros territórios, outros mundos, outros tempos. Com isso, histórias individuais passam a existir coletivamente, e a serem sentidas coletivamente. E é pensando nesse importantíssimo e excelente poder da literatura que trabalho meus textos.
Eu cresci nos anos 90, e posso dizer que durante meu entendimento como pessoa lésbica não eram tantas as referências LGBT+, em especial de lésbicas, fosse na literatura ou fosse em qualquer outra área. E isso acarreta no sentimento diretamente contrário ao do pertencimento: o da inexistência.
Hoje, ainda bem, a realidade já é outra. Há um maior número (e espero que crescente) de referências tanto na literatura como nas telas de personagens LGBT+. Ainda assim, é necessário a ampliação da representação dos diferentes corpos e gêneros que saem do eixo da cisheteronormatividade.
Foi por volta de 2018 ou 2019 que li meu primeiro livro com personagens lésbicas, Todos nós adorávamos caubóis, da Carol Bensimon. E bom, ele está todo marcado. O motivo é simples: eu me reconheci, me identifiquei em situações diversas que tenho certeza que outres LGBT+ também se identificariam. Percebendo o quentinho que isso me trouxe no peito, de se sentir de alguma maneira representada, eu decidi que era por esse caminho que queria seguir.
A partir daí comecei uma busca mais ativa por livros com personagens LGBT+, e não dá para deixar de mencionar o Amora, da Natalia Borges Polesso, e das diferentes vivências lésbicas de várias idades apresentadas no decorrer dos contos que compõem o livro.
Essa também foi a época que comecei a me arriscar escrever ficção. E escrever também é deslocamento. Assim, a partir da escrita, ainda que ficcional, se elaboram questionamentos internos muitas vezes escondidos— através da provocação e convite para ocupar um espaço diferente.
Entendendo a potência da literatura como instrumento de transformação social, e também por sentir essa necessidade de pertencimento, acaba que na grande maioria dos meus textos eu trago personagens LGBT+. Não necessariamente refletindo ou problematizando sobre seus corpos, mas existindo no cotidiano, como indivíduos que trabalham, vão a restaurantes, bares, viajam, discutem por questões do dia a dia gerindo uma casa, ou seja, pessoas existindo.
Como acontece no meu Cercas Vivas. O livro trata sobre a mudança da personagem Bianca para casa da falecida avó, e o reencontro da personagem com o passado. O amadurecimento da personagem frente ao reencontro com sua vizinha de infância. A personagem Bianca não reflete sobre sua sexualidade, nem nada do tipo. Ela apenas está vivendo sua realidade. Enfatizo a dinâmica da relação e o jogo de poder entre as personagens.
Vejo leitoras se reconhecerem nas personagens, nos espaços, nas inseguranças, na dinâmica das relações, amorosas ou não. E a empolgação e satisfação que isso causa na pessoa leitora é compartilhada imediatamente por mim.
Por outro lado, também observo pessoas conhecendo e empatizando sobre corpos diferentes dos seus, que muitas vezes apresentam dilemas parecidos, da mesma ordem. E através disso, se apresentam e reafirmam essas existências ainda invisibilizadas e negadas pelo meio.
Acredito, portanto, que a literatura é espaço de pertencimento e afirmação. E tento nos meus textos trazer isso, mostrar vivências LGBT+; materializar através da linguagem nossa existência na sociedade.

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