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A Corrida pelo Ouro: Como o Capital Estrangeiro Invadiu o Mercado de Apostas e Cassino do Brasil
Em setembro de 2024, a Flutter Entertainment, maior operadora de apostas do mundo, listada em Nova York com valor de mercado superior a US$ 36 bilhões, anunciou a compra de 56% da brasileira NSX Group, dona da Betnacional, por aproximadamente US$ 350 milhões. A operação, concluída em maio de 2025, foi a mais cara da história do iGaming na América Latina. Mas não foi uma exceção: foi o símbolo de um movimento muito maior, que começou antes mesmo da regulamentação entrar em vigor e que continua se intensificando. Entre 2024 e 2025, o Brasil se tornou o principal destino de capital estrangeiro no setor global de apostas e cassino: e os números explicam por quê, especialmente com o crescimento do mercado de cassinos online licenciados para jogar no Brasil.
O Pano de Fundo: Um Mercado de US$ 7 Bilhões Esperando para Ser Formalizado
Para entender a dimensão do interesse internacional, é preciso entender o tamanho do que estava em jogo. Segundo dados compilados pela H2 Gambling Capital, o mercado brasileiro de iGaming movimentou cerca de R$ 24 bilhões em 2024, ano ainda de transição regulatória. Mas as projeções já apontavam para um salto histórico: com a regulamentação plena em vigor a partir de 1º de janeiro de 2025, o setor encerrou o primeiro ano regulamentado com R$ 37 bilhões em GGR — o Gross Gaming Revenue, diferença entre o total apostado e os prêmios pagos. Isso equivale a US$ 7 bilhões, segundo dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, publicados em janeiro de 2026.
O crescimento em tráfego digital foi igualmente impressionante. As plataformas licenciadas receberam 26,4 bilhões de acessos em 2025, crescimento de 237% em relação ao ano anterior. Com uma média de 2,2 bilhões de visitas mensais, os sites de apostas tornaram-se o segundo destino mais visitado da internet brasileira, atrás apenas do Google. Eram 25,2 milhões de brasileiros apostando em plataformas legalizadas — mais de 11% da população adulta. Para qualquer grupo global de iGaming, esse conjunto de dados representava uma oportunidade histórica e irrepetível: um mercado com dimensões continentais, acabando de ser formalizado, com enorme potencial de crescimento e clareza jurídica recém-estabelecida.
"Grandes grupos estrangeiros estavam aguardando sair a regulamentação para entrar no Brasil", declarou Monique Guzzo, advogada especializada em direito regulatório do escritório Demarest. A fila era longa.
A Corrida pelas Licenças: R$ 2,5 Bilhões Desembolsados por Grupos do Mundo Inteiro
O primeiro sinal concreto da invasão estrangeira foi a corrida pelas licenças ao longo de 2024. O prazo para as empresas protocolarem pedidos de autorização encerrou em agosto daquele ano, com 113 empresas tendo se apresentado ao Ministério da Fazenda. De acordo com levantamento dos escritórios Veirano Advogados e Pinheiro Neto, compartilhado com o jornal O Globo, ao menos 40 dessas companhias eram estrangeiras, com forte predominância de grupos britânicos. A maioria das empresas inscritas — 67 das 113 — escolheu São Paulo como estado-sede de suas operações no Brasil.
Cada licença custava R$ 30 milhões, válida por cinco anos, com direito a explorar até três marcas comerciais. Além disso, as empresas precisavam comprovar capital social mínimo de R$ 30 milhões e manter reservas financeiras de R$ 5 milhões — exigências que, sozinhas, tornavam o ticket de entrada proibitivo para pequenos operadores. Ao final do processo de licenciamento, as 79 empresas autorizadas ao longo de 2025 desembolsaram R$ 2,5 bilhões apenas em outorgas. Somados os R$ 95,5 milhões em taxas de fiscalização, o fluxo de capital internacional para os cofres públicos brasileiros via licenciamento já ultrapassava R$ 2,6 bilhões — antes mesmo da tributação sobre os jogos.
Entre os grupos internacionais que protocolaram pedidos estavam nomes de peso: a Sportingbet, do grupo britânico Entain, listado na Bolsa de Londres com valor de mercado de 4 bilhões de libras; a Betfair, do grupo Flutter Entertainment, listado na NYSE; a sueca Betsson; e a americana Caesars Sportsbook, rede de cassinos que controla nomes icônicos como Harrah's e o próprio Caesars Palace em Las Vegas. Nenhum desses grupos estava apostando no Brasil por acaso. Estavam respondendo a projeções que apontavam para um mercado capaz de gerar R$ 64 bilhões em GGR até 2030, segundo a H2 Gambling Capital — praticamente o dobro do que foi registrado em 2025.
A Maior Aquisição da História do iGaming Latino-Americano
O negócio que definiu o patamar de valorização do mercado brasileiro veio em setembro de 2024, quando a Flutter Entertainment anunciou a compra de 56% do Grupo NSX, dono das marcas Betnacional, Mr. Jack e Pagbet, por US$ 350 milhões — equivalente a aproximadamente R$ 2 bilhões na cotação da época. A NSX era, à época, a quarta maior operadora do Brasil, com 12% de participação no mercado de apostas esportivas e receita prevista de US$ 256 milhões para 2024. Para a Flutter — dona da FanDuel, maior operadora dos EUA, e da PokerStars, referência global no poker online —, a aquisição seguia a mesma lógica que havia usado para dominar o mercado americano: entrar cedo, comprar um player local com capilaridade, e escalar.
A operação criou a Flutter Brazil, novo ecossistema que fundiu Betnacional e Betfair Brasil sob uma única estrutura. A Flutter projetou um incremento de US$ 220 milhões em receitas no Brasil apenas em 2025 com a integração das operações. E, de forma reveladora, a empresa estimou um prejuízo de US$ 90 a 100 milhões no mesmo período — não por fraqueza, mas por estratégia deliberada de investimento agressivo em aquisição de clientes, idêntica à que aplicou nos Estados Unidos antes de chegar à liderança. Christian Tirabassi, da consultoria Ficom Leisure, especializada em fusões e aquisições do setor, previu que esse modelo levaria à concentração do mercado: "De 10 a 12 operadores dominarão o mercado brasileiro. Barreiras à entrada elevadas, aumento de impostos e restrições publicitárias dificultarão muito a sobrevivência dos menores."
MGM e Grupo Globo: Las Vegas Entra em Sociedade com a Maior Mídia do Brasil
Em 15 de agosto de 2024, outro anúncio sacudiu o mercado: a MGM Resorts International, maior operadora de cassinos de Las Vegas, formou uma joint venture com o Grupo Globo, o maior conglomerado de mídia da América Latina, para entrar no mercado brasileiro de apostas. A parceria escolheu a marca BetMGM para operar no país, com sede em São Paulo. A lógica do acordo era cristalina: a MGM trazia décadas de experiência em entretenimento e jogos; a Globo, alcance diário de quase 70 milhões de pessoas em 94% dos lares brasileiros. As duas empresas dividiram o aporte inicial de R$ 30 milhões para a licença e protocolaram o pedido juntas ainda em 2024.
"A MGM Resorts está comprometida em se tornar a principal empresa de entretenimento de jogos do mundo, e esta aliança estratégica com o Grupo Globo é um passo fundamental em nossa estratégia de crescimento", declarou Bill Hornbuckle, CEO da MGM Resorts. A parceria exemplificou a principal exigência regulatória que catalisou o interesse estrangeiro pelo mercado local: a regra do sócio brasileiro com pelo menos 20% do capital. Essa norma, longe de afastar investidores, criou um ambiente propício para joint ventures que uniram capital e expertise global com credibilidade e audiência local.
Clarissa Yokomizo, sócia da área de fusões e aquisições do Veirano Advogados, explicou o fenômeno: "Os requisitos para obtenção da licença já levaram a algumas parcerias para este primeiro momento, uma vez que diversos grupos se juntaram para fazer o pedido e assegurar a capacidade de operar legalmente em 2025." A projeção dos advogados era de que esse movimento geraria uma onda de fusões e aquisições, com operadores menores se tornando alvos para players maiores que quisessem escalar sem esperar anos de crescimento orgânico.
Betano e Superbet: O Capital Europeu que Chegou Mais Cedo e Apostou mais Alto
Enquanto grupos americanos negociavam entradas, dois players europeus já estavam bem posicionados e dispostos a investir quantias que nunca tinham sido vistas no futebol brasileiro. A Betano, propriedade da Kaizen Gaming International, grupo grego fundado em 2013, chegou ao Brasil em 2020 e foi a primeira empresa a protocolar pedido de licença no SIGAP — sistema de gestão do Ministério da Fazenda. Em 22 de janeiro de 2025, inaugurou seu primeiro escritório físico no país, em São Paulo.
O sinal mais claro da aposta da Betano no Brasil veio em agosto de 2025, quando assinou com o Flamengo o maior contrato de patrocínio da história do futebol brasileiro: R$ 268,5 milhões por temporada, totalizando quase R$ 895 milhões em três anos e quatro meses, com potencial de chegar a R$ 932,5 milhões com variáveis. O contrato foi disputado por ao menos sete casas de apostas, incluindo Superbet e Sportingbet — que dobrou sua proposta inicial para se manter na briga. A Betano superou todas. Para fechar o acordo, a empresa desembolsou o que representa 4,3% do caixa consolidado de sua controladora, o que levou consultores financeiros do Flamengo a atestar a "robustez financeira" da Kaizen Gaming.
A Superbet, fundada em 2008 na Romênia e presente em 12 países, chegou ao Brasil em 2023 e pagou a outorga de R$ 30 milhões em 25 de novembro de 2024 — tornando-se a primeira empresa do segmento a completar o processo de regularização. No Brasil, a empresa firmou contratos de patrocínio máster com São Paulo e Fluminense a R$ 52 milhões por temporada cada, além do América-RJ. O contrato com o São Paulo, progressivo até 2030, pode chegar a R$ 140 milhões anuais por temporada no final do vínculo, totalizando R$ 678 milhões ao longo de seis anos.
A Escala dos Patrocínios: R$ 630 Milhões Anuais Redesenhando o Futebol Brasileiro
O impacto do capital estrangeiro se materializou de forma mais visível nas camisas dos clubes. Em 2025, os investimentos totais do setor de apostas em patrocínios no futebol brasileiro já ultrapassavam R$ 630 milhões anuais, segundo levantamentos do setor. O Betano liderava com folga, com R$ 268,5 milhões só para o Flamengo; a Esportes da Sorte pagava R$ 103 milhões ao Corinthians; a Sportingbet investia R$ 100 milhões no Palmeiras; e a Superbet R$ 52 milhões no São Paulo. Dos 40 clubes da Séries A e B do Brasileirão, 39 eram patrocinados por companhias do setor de apostas — um dado que reflete tanto a força financeira das bets quanto a transformação estrutural das receitas do futebol nacional.
A distribuição de tráfego entre as marcas era igualmente dominada por players internacionais. A Betano liderou com 6,1 bilhões de acessos em 2025 — praticamente um quarto de todo o tráfego legal do mercado —, consolidada pelos naming rights do Brasileirão e da Copa do Brasil, além dos acordos com Flamengo e outras propriedades esportivas. As 10 casas mais acessadas concentravam 68% de todo o tráfego do mercado, mostrando que, em um universo de quase 200 marcas, a competição de escala era vencida por quem tinha capital e estratégia global.
A Consolidação Que Está Por Vir
Os especialistas são unânimes: o movimento visto entre 2024 e 2025 foi apenas o começo. Com barreiras à entrada cada vez mais elevadas — a tributação sobre o GGR passou de 12% para 13% em 2026 e chegará a 15% em 2028 — e restrições publicitárias em discussão no Congresso, os operadores menores terão dificuldade crescente para se sustentar. A Redirection International, assessoria especializada em M&A do setor, projetou crescimento médio de 50% ao ano até 2028 para o mercado de apostas esportivas, considerando a regulamentação consolidada.
"O Brasil se tornará o mais importante mercado de fusões e aquisições da história do iGaming na América Latina", afirmou Christian Tirabassi, da Ficom Leisure. Vitor Medeiros, da assessoria financeira Hand, descreveu o cenário com precisão cirúrgica: "Veremos um cenário em que cinco operadores disputarão a liderança, onze trabalharão para entrar no top 5, e quatro lutarão para não cair." Até 2028, a H2 Gambling Capital projeta que o mercado brasileiro atinja R$ 64 bilhões em GGR — e a maioria das empresas que vão colher esse resultado já estão se posicionando agora, com bilhões investidos e contratos assinados.
O Brasil não apenas abriu as portas para o capital estrangeiro. Ele se tornou, em menos de dois anos, o destino mais cobiçado do iGaming mundial. E a corrida está longe de terminar. Um dos sinais dessa expansão pode ser visto no aumento das estratégias de aquisição de usuários — por exemplo, promoções e vantagens com o código de indicação Betano, que se tornaram cada vez mais comuns no mercado.
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