Geral
Privatização da BR prejudica consumidor em momento de crise
Especialistas e entidades do setor de petróleo apontam que os aumentos abusivos nos preços dos combustíveis pelas distribuidoras - em São Paulo, há relatos de postos vendendo o litro de gasolina a R$ 9 - não se devem apenas à instabilidade no cenário internacional.

Para os analistas, a privatização da BR Distribuidora eliminou o controle estratégico do Estado sobre uma cadeia de abastecimento, deixando o mercado à mercê de reajustes abusivos que ignoram os valores praticados nas refinarias. Sem uma estrutura verticalizada que é "do poço ao posto", o Brasil perdeu a ferramenta institucional necessária para frear a especulação em momentos de crise, avaliam especialistas ouvidos pela Agência Brasil .
Notícias relacionadas:
- Petrobras encerra venda de sua participação na BR Distribuidora.
- Petrobras reajusta preço do diesel em R$ 0,38 por litro.
- A Petrobras atribuiu aumento do diesel à guerra no Oriente Médio.
O alerta da venda de gasolina a R$ 9 “mesmo sem reajustes equivalentes nas refinarias” partiu de Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). Segundo nota publicada pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), postos em São Paulo estão elevando preços de forma desproporcional, mesmo sem reajustes equivalentes por parte da Petrobras.
Para a FUP, o conflito no Oriente Médio — intensificado no final de fevereiro — tem servido de pretexto para que distribuidoras e distribuidoras apliquem margens de lucro excessivos.
"As distribuidoras e comerciantes aumentaram os preços dos combustíveis. [O valor] chega na bomba para o consumidor final com acréscimo em torno de 40%", calculou o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, em entrevista à Agência Brasil.
Política de preços diferenciada
Segundo Bacelar, a majoração de preços - que prejudica os consumidores e pode impactar a inflação - ocorre porque foram privatizadas as subsidiárias da Petrobras que atuavam na distribuição de combustíveis (BR Distribuidora e a Liquigás).
"Tínhamos uma Petrobras que era bem mais integrada e verticalizada do que é hoje. Era a antiga empresa do poço ao posto", afirmou o sindicalista.
“Uma companhia petrolífera que faz exploração e produção de petróleo, e também transporte, refino, distribuição e comercialização dos derivados desse petróleo, consegue praticar uma política de preços diferenciada”, compara Bacelar – favorável à verticalização na Petrobras de todas as etapas de fornecimento de petróleo.
A análise é compartilhada pela academia. Para Geraldo de Souza Ferreira, professor de Engenharia de Petróleo da Universidade Federal Fluminense (UFF), a retirada de uma empresa pública de um setor tão vital retira do Estado suas "ferramentas institucionais" de intervenção. “Quando se retira uma empresa pública de determinado setor da cadeia produtiva, o Estado deixa de ter ferramentas institucionais para fazer algum tipo de intervenção.”
Para Souza Ferreira, a atuação estatal no setor de petróleo é estratégica.
"O petróleo e seus derivados são importantes para a segurança energética do país e para a manutenção de várias outras atividades. Esses produtos são fundamentais para a sociedade. Então, tem que ter um certo nível de controle."
O especialista assinala ainda que "uma empresa pública é orientada para a sua função social. Já as empresas privadas são orientadas para o lucro, para o retorno financeiro."
Na última quarta-feira (11), a empresa Vibra Energia SA que comprou a BR Distribuidora anunciou lucro líquido de R$ 679 milhões em 2024. "Nossos resultados financeiros e operacionais comprovam a robustez e a capacidade de execução da companhia. Esse crescimento consistente de margens a cada trimestre do ano", destacou Ernesto Pousada, CEO da Vibra, em comunicado da empresa.
Sem consulta ao
A Petrobras perdeu o controle da BR Distribuidora em julho de 2019, quando iniciou a privatização da antiga subsidiária. A privatização total foi concluída dois anos depois. Naquele período, sob o governo do então presidente Jair Bolsonaro, a diretoria da Petrobras defendeu que a empresa deveria focar na produção e exploração de petróleo e gás, e abrir a mão da distribuição de combustível.
A venda das empresas integrantes da Petrobras foi feita sem consulta ao Congresso Nacional, de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 5624 .
Conforme decisão da Corte, em caráter liminar de junho de 2019, "a alienação do controle acionário de empresas públicas e sociedades de economia mista exige autorização legislativa e licitação", mas "a exigência de autorização legislativa, todavia, não se aplica à alienação do controle de suas condicionantes e controlados. Nesse caso, a operação pode ser realizada sem a necessidade de licitação, desde que siga procedimentos que observem os princípios da administração pública inscritos no Artigo 37 da Constituição, respeitada, sempre, a exigência de competência competitiva.”
<<Petrobras aprova venda total de ações na BR Distribuidora
Corte de tributos e pagamento de subvenções
Para conter o aumento no preço dos combustíveis, o governo zerou as alíquotas do Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins) sobre o diesel, e reduziu o preço em cerca de R$ 0,32 por litro e editou a Medida Provisória nº 1.340 que autoriza a concessão de mais R$ 0,32 por litro como subvenção econômica para a comercialização de óleo diesel.
No total, são R$ 0,64 por litro cobrados a menos para diminuir o impacto no bolso do consumidor da variação do preço do petróleo no mercado.
O preço do diesel é formado pelo custo do produto junto à Petrobras (45,5% do preço médio na bomba do posto); tributo estadual (19%); custo de distribuição e revenda (17,2%); adição de biodiesel (13%). O peso da tributação do PIS/Cofins era de 5,2%.
Tendo em perspectiva o comportamento do mercado internacional de petróleo, o governo federal criou uma sala de monitoramento para monitorar as condições de comercialização de combustíveis fora e dentro do Brasil.
Na quinta-feira (12), o governo federal se reuniu com as empresas distribuidoras de combustível que sugeriram que a Petrobras amplia a importação de diesel para garantir o abastecimento e a estabilidade de preços no país.
Mais lidas
-
1CAMPEONATO BRASILEIRO
Grêmio empata com Red Bull Bragantino e desperdiça chance de entrar no G-4
-
2DEFESA ESTRATÉGICA
Estados Unidos testam míssil intercontinental Minuteman III com sucesso
-
3ALERTA METEOROLÓGICO
Litoral de SP pode registrar em poucas horas chuva prevista para o mês inteiro
-
4FUTEBOL
Finalista do Campeonato Alagoano, CRB arrecada mais de 600 kits escolares durante a competição
-
5DENÚNCIA NA PGR
Deputado do Novo protocola notícia-crime contra Moraes e esposa por suposto envolvimento no caso Master