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Sudene lança painel que revela desigualdades de gênero no mercado de trabalho e na política no Nordeste

Levantamento mostra que mulheres são maioria na população e têm forte presença na economia regional, mas ainda enfrentam desigualdades no mercado de trabalho e baixa representação nos espaços de poder

Ascom Sudene 13/03/2026
Sudene lança painel que revela desigualdades de gênero no mercado de trabalho e na política no Nordeste
“O Nordeste é feminino, mas isso aparece no poder?” reúne dados sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho e na política na plataforma Data Nordeste. - Foto: Reprodução de tela

Recife (PE) – No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) lançou o painel “O Nordeste é feminino, mas isso aparece no poder?”, que passa a integrar o Data Nordeste, plataforma pública de informações econômicas desenvolvida pela Autarquia para reunir e organizar estatísticas estratégicas sobre a Região. A nova publicação aponta que as mulheres são maioria da população em idade produtiva e exercem papel central na sustentação das economias locais, mas ainda enfrentam barreiras estruturais, econômicas e desigualdades de gênero, especialmente no mercado de trabalho e nos espaços de decisão política.

Com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, o painel evidencia diferenças entre homens e mulheres no mercado formal. Entre os homens, a maior concentração de trabalhadores está na faixa de renda entre 1,01 e 2 salários mínimos, que reúne 52,6% do total. Já entre as mulheres há participação proporcionalmente maior tanto nas faixas de menor remuneração — até 1 salário mínimo — quanto nas mais elevadas, acima de 2,01 salários mínimos.

No recorte territorial, a distribuição do emprego formal é semelhante entre os gêneros, com destaque para a Bahia, que concentra a maior parcela da força de trabalho regional (25,7% entre os homens e 26,0% entre as mulheres). As principais diferenças aparecem na composição por setores econômicos. Enquanto os homens predominam em atividades como construção civil (90,4%) e agropecuária (84,8%), o setor de serviços registra maioria feminina, responsável por 52,4% dos postos formais.

A análise também revela um cenário territorial competitivo nas novas contratações. Dados da RAIS 2024 indicam que 903 municípios registraram predominância de admissões masculinas, enquanto as mulheres lideraram a ocupação de vagas em 891 cidades do Nordeste.

Apesar dessa aparente proximidade, o volume total de contratações mostra uma desigualdade estrutural. No período analisado, o Nordeste registrou 10.735.689 admissões formais. Desse total, 6.015.323 foram de homens e 4.720.366 de mulheres — uma diferença superior a 1,2 milhão de postos de trabalho.
 

Sub-representação

O painel também analisa a participação feminina na política e aponta desafios persistentes, como a baixa presença de mulheres em candidaturas ao Executivo e ao Legislativo e os episódios de violência política de gênero. Embora representem 51,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras nas câmaras municipais da Região. 

Para a geógrafa e coordenadora do Data Nordeste, Ludmilla Calado, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é fundamental para o desenvolvimento regional. “Ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho e na política não é apenas uma questão de equidade, mas de desenvolvimento regional. Apesar de serem maioria na população, as mulheres ainda ocupam menos de 20% das cadeiras nas câmaras municipais nordestinas. Fortalecer sua presença nos espaços de decisão significa ampliar a representatividade e construir políticas públicas mais conectadas com a realidade e as necessidades da região”, afirma.

De acordo com o levantamento, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes às eleições municipais de 2024 mostram que o percentual de mulheres eleitas nos estados nordestinos permanece abaixo de 35%, evidenciando um quadro generalizado de sub-representação política. Ao cruzar dados demográficos com a ocupação de cadeiras no Legislativo municipal, o painel identifica um fenômeno de exclusão política: embora as mulheres sejam maioria em quase todos os municípios, a presença feminina nas câmaras municipais é frequentemente mínima ou inexistente. Em 212 cidades da região, por exemplo, não há nenhuma vereadora.
 
O estudo também aponta que o chamado “funil do sistema partidário” ainda limita o acesso das mulheres aos espaços de poder, filtrando sua entrada nas estruturas políticas e nas disputas eleitorais. Na distribuição por cargos, a função de vice-prefeita concentra a maior proporção de mulheres eleitas em vários estados, como Ceará (34,2%) e Maranhão (30,8%). Entre as prefeitas, os maiores percentuais aparecem no Rio Grande do Norte (25,1%) e na Paraíba (24,3%), enquanto Piauí (12,9%) e Bahia (14,6%) registram as menores taxas. Já nas câmaras municipais, a presença feminina varia entre 15% e 23%.
 

Mais inclusão

Para a Sudene, a distância entre a participação social das mulheres e o acesso efetivo ao poder institucional ainda é um dos principais desafios para o desenvolvimento regional. O painel destaca que ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é essencial para a construção de políticas públicas mais representativas e eficazes. A análise reforça a necessidade de transformar presença em representação, estimulando a participação das mulheres em candidaturas, mandatos e cargos de liderança.

“Fortalecer lideranças femininas, ampliar a participação política das mulheres e reconhecer seu protagonismo econômico são passos concretos para promover um desenvolvimento regional mais inclusivo, democrático e sustentável”, conclui o estudo.