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O risco invisível no transporte de mercadorias perigosas

Especialista alerta que falhas de conformidade e embalagem podem transformar a logística em uma ameaça ambiental e humana

Assessoria 12/03/2026
O risco invisível no transporte de mercadorias perigosas
Leonardo Lopes Bezerra

Produtos químicos, inflamáveis, gases tóxicos e materiais corrosivos circulam diariamente por rodovias, aeroportos e portos em todo o mundo. Embora sejam essenciais para setores como saúde, indústria, agricultura e energia, o transporte dessas cargas envolve um risco silencioso que muitas vezes passa despercebido fora do ambiente técnico da logística: a possibilidade de graves acidentes com mercadorias perigosas.

No Brasil, milhares de substâncias classificadas como perigosas transitam regularmente pelas estradas. Estimativas apontam que mais de três mil tipos de produtos perigosos circulam pelas rodovias brasileiras, entre inflamáveis, explosivos e materiais radioativos, exigindo cuidados rigorosos desde o carregamento até o destino final.

Apesar dos avanços em regulamentação e treinamento, incidentes ainda ocorrem. Segundo dados da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), somente no estado de São Paulo foram registradas 862 ocorrências envolvendo transporte de produtos perigosos em 2023, com média de mais de 70 registros por mês.

Segundo Leonardo Lopes Bezerra, consultor em materiais perigosos e especialista em certificação e conformidade de embalagens segundo normas internacionais como DOT (EUA), ANTT e INMETRO, IATA/ICAO e IMDG-Code, o maior desafio do setor está justamente na natureza invisível do risco. “A maioria das pessoas só percebe o perigo quando ocorre um acidente, mas o risco começa muito antes, na classificação incorreta da carga, na embalagem inadequada ou na falta de treinamento de quem manipula o produto, ou até na omissão de informações de risco e periculosidade”, explica.

O transporte de mercadorias perigosas deve seguir um conjunto rigoroso de normas internacionais e nacionais que definem como essas substâncias precisam ser classificadas, embaladas, identificadas e transportadas. Regulamentos como IATA/ICAO (transporte aéreo), IMDG-Code (transporte marítimo) e normas e resoluções nacionais da ANTT, INMETRO e ABNT servem de referência para boa parte da logística destes artigos. Essas regras estabelecem, por exemplo, tipos específicos de embalagens homologadas, rotulagem padronizada, documentação técnica e treinamento obrigatório para profissionais envolvidos na cadeia logística.

Mesmo assim, erros operacionais continuam sendo uma das principais causas de incidentes. Falhas na identificação da carga, uso de embalagens não certificadas ou armazenamento inadequado podem gerar vazamentos, incêndios, explosões ou contaminações ambientais. Em muitos casos, por exemplo, os acidentes com mercadorias perigosas têm consequências que ultrapassam o transporte em si. Um vazamento químico em rodovia, pode provocar interdições de estradas, evacuação de áreas urbanas e contaminação ambiental.

Além disso, a responsabilidade legal nesse tipo de incidente costuma ser compartilhada entre vários atores da cadeia logística, incluindo fabricante, embarcador, transportador e operador logístico.

Relatórios do setor indicam que, embora o número de acidentes venha caindo ao longo das últimas décadas graças a programas de treinamento e melhorias nos processos de gestão, o volume de cargas perigosas transportadas continua crescendo, o que mantém o tema no radar das autoridades e da indústria.

Para Leonardo Lopes, a segurança no transporte de mercadorias perigosas depende de um fator central: conformidade técnica em toda a cadeia logística. Isso inclui desde a correta classificação da substância e escolha da embalagem adequada até a documentação e treinamento das equipes responsáveis pelo manuseio e transporte. “Quando todos os elos da cadeia seguem os padrões internacionais de segurança, o transporte se torna previsível e controlado. O problema é quando algum desses pontos falha, e é aí que o risco invisível se transforma em acidente”, afirma.

Com o crescimento do comércio internacional e da circulação de produtos químicos, industriais e até de consumo final, o transporte seguro de mercadorias perigosas tornou-se um tema cada vez mais estratégico para governos e empresas. Investimentos em tecnologia, rastreabilidade, certificação de embalagens e capacitação de profissionais são apontados como caminhos essenciais para reduzir riscos e evitar incidentes que podem gerar impactos humanos, ambientais e econômicos de grande escala.