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'A única guerra que vale a pena travar é contra a pobreza': diz Wellington Dias à Sputnik Brasil
À Sputnik Brasil, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, falou sobre o intercâmbio de conhecimentos com países africanos e como o Brasil atua como referência em projetos de proteção social.
Na última segunda-feira de fevereiro (23), delegações de sete países africanos – Gabão, Gâmbia, Malawi, Mali, Moçambique e Marrocos – vieram para Brasília por iniciativa do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) para apresentar o funcionamento do sistema de proteção social brasileiro.
O evento, que durou até sexta-feira (27), contou com as delegações fazendo visitas técnicas e atividades de campo para aprofundar o conhecimento sobre a implementação das políticas sociais no Brasil. Ademais, a iniciativa buscou ampliar o diálogo entre países acerca de estratégias de proteção social e inclusão produtiva, assim como apresentar programas como o Bolsa Família e o Cadastro Único para delegados.
Para comentar a consolidação do Brasil como referência internacional em políticas de combate à fome e à desigualdade, a Sputnik Brasil conversou com o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, que falou sobre o intercâmbio de conhecimentos com países africanos.
Referência em política social
Em entrevista, o ministro destacou a importância da troca de experiências sobre políticas sociais com outros países, ressaltando a cooperação do Brasil com parceiros do Sul Global. Segundo ele, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconhece o valor desse intercâmbio no fortalecimento de políticas de proteção social e no enfrentamento da fome e da pobreza.
"O Brasil tem uma trajetória importante nessa área e acredita muito na cooperação entre países do Sul Global. Programas como o Bolsa Família, o Cadastro Único e o Sistema Único de Assistência Social (SUS) mostram como políticas públicas bem estruturadas podem reduzir não só a fome, mas também a pobreza e ampliar oportunidades", afirmou.
Dias também ressaltou que, no terceiro mandato do presidente Lula, o desenvolvimento social passou a ser tratado como parte estratégica do próprio desenvolvimento econômico. "Mesmo em uma conjuntura internacional complexa, o Brasil registra crescimento da economia, aumento da renda e geração de empregos. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas do Bolsa Família e do Cadastro Único que conseguem superar a pobreza e deixar o programa", disse.
De acordo com o ministro, uma parcela significativa dessas pessoas passa a integrar a chamada classe média, alcançando melhores condições de vida. "Isso acontece por meio da educação, associada à transferência de renda, mas também por meio do emprego, do pequeno negócio, do cooperativismo e da produção. São várias alternativas para as quais as pessoas são preparadas".
Sobre a troca de experiência, o ministro Dias pontuou que o Brasil quer compartilhar ideias, não impor uma agenda política.
"O Brasil é um país que sabe a importância do respeito à soberania dos outros países."
Segundo ele, cada nação conhece melhor sua própria realidade e, por isso, cabe aos governos, à academia e à sociedade de cada país decidir como adaptar eventuais políticas inspiradas na experiência brasileira. Nesse sentido, o papel do Brasil seria apresentar práticas já testadas e construir parcerias a partir delas.
O ministro explicou que a cooperação ocorre também por meio de visitas técnicas. Durante a passagem das delegações africanas pelo Brasil, por exemplo, representantes conheceram centros de referência da assistência social em Brasília, onde são realizadas ações de busca ativa para identificar famílias vulneráveis, incluí-las no Cadastro Único e oferecer atendimento voltado a crianças, idosos, pessoas com deficiência e famílias de baixa renda.
Além disso, as delegações participaram de visitas de campo em regiões do semiárido nordestino, onde puderam observar experiências de convivência com a escassez de água e adaptação às mudanças climáticas.
Entre os exemplos apresentados estão tecnologias como cisternas, barragens subterrâneas e sistemas de produção adaptados a climas secos, com cultivos e criação de animais mais resistentes à irregularidade das chuvas.
O que o Brasil pode aprender
Dias destacou que a cooperação não é unilateral. Após essas visitas, equipes técnicas brasileiras também se deslocam para os países parceiros, muitas vezes em conjunto com instituições de pesquisa como a Embrapa, para conhecer experiências locais e avaliar como adaptar tecnologias e políticas às condições específicas de cada território.
Como exemplo, Dias cita uma parceria com a Etiópia, onde técnicas de cultivo de café em regiões de altitude e sistemas de irrigação subterrânea — de baixo custo — chamaram a atenção das equipes brasileiras.
Segundo o ministro, outro aprendizado veio de modelos comunitários de produção, como projetos de piscicultura organizados de forma coletiva, em que tanques de diferentes famílias ficam concentrados em um mesmo espaço, facilitando o manejo e a produção. Assim, Dias destaca como a iniciativa funciona como uma troca de mão dupla.
"O conhecimento é construído lado a lado. Nós também aprendemos com as experiências de outros países, inclusive da África."
Dias também destaca outras iniciativas internacionais, como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que foi anunciada no G20 em novembro de 2024. A iniciativa já reúne 206 membros, entre países, organismos internacionais e outras organizações parceiras, com o objetivo de articular cooperação global no combate à fome.
De acordo com o ministro, a proposta da aliança é reunir diferentes tipos de apoio — como troca de conhecimento, assistência técnica e financiamento — para fortalecer planos nacionais de combate à pobreza e à insegurança alimentar. Nesse modelo, países mais desenvolvidos podem colaborar com recursos e experiências, enquanto nações em desenvolvimento compartilham políticas públicas que já demonstraram resultados.
Dias ressaltou ainda que a iniciativa está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente os que tratam da erradicação da pobreza e da fome até 2030. Para ele, a cooperação internacional é essencial para enfrentar desafios globais que impactam a segurança alimentar, como conflitos, crises econômicas e mudanças climáticas.
Nesta segunda-feira (09), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, para discutir acordos do comércio bilateral, assim como a relação entre os dois países nas áreas diplomática, acadêmica e de defesa. Ao falar sobre a conversa, o ministro Wellington Dias ressaltou que o país africano é uma referência internacional em diversos setores, especialmente no enfrentamento à discriminação racial.
"O Brasil, que recentemente criou o Ministério da Igualdade Racial, passou a ter conselhos e um conjunto mais amplo de políticas voltadas para enfrentar o racismo e promover igualdade de oportunidades". Segundo Dias, o país também busca aprender com experiências internacionais, citando como referência a trajetória de luta contra o apartheid liderada por Nelson Mandela.
Dias acrescentou que esse intercâmbio também aparece na cooperação com a África do Sul, especialmente em áreas como comércio, tecnologia e apoio a pequenos produtores. De acordo com o ministro, os dois países trabalham juntos no desenvolvimento de políticas voltadas à organização da produção rural, acesso ao crédito, assistência técnica e beneficiamento de produtos agrícolas, em um processo de aprendizado mútuo.
"A única guerra que vale a pena é a guerra contra a pobreza."
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