Geral

Jogo responsável avança como estratégia de sustentabilidade no setor de apostas

Com mercado em consolidação regulatória e expectativa de arrecadação bilionária empresas ampliam limites autoexclusão e educação financeira para conter riscos sociais

Carolina Lara 11/03/2026
Jogo responsável avança como estratégia de sustentabilidade no setor de apostas
Ricardo Santos - Foto: Divulgação

O mercado de apostas esportivas iniciou o ano sob maior escrutínio regulatório. Com a Lei 14.790/2023 em vigor, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda passou a autorizar plataformas a operar no país. Segundo o ministério, 158 empresas receberam licença até 2029, e a estimativa é de até R$ 6 bilhões em arrecadação tributária em 2025.

O potencial econômico é expressivo. Estimativas do setor indicam que as apostas movimentaram cerca de R$ 150 bilhões em 2023 no país, ainda em um ambiente majoritariamente não regulado. A formalização, na avaliação de especialistas, tende a ampliar a transparência e a fiscalização, mas também impõe um novo desafio: garantir que o crescimento venha acompanhado de mecanismos de prevenção.

Ricardo Santos, cientista de dados especialista em análise estatística e fundador da Fulltrader Sports, empresa de tecnologia voltada a softwares e análise de dados para o mercado de trade esportivo, afirma que a sustentabilidade do setor depende da consolidação de políticas de jogo responsável. “A regulamentação criou um ambiente mais estruturado, mas isso não elimina o risco de comportamento compulsivo”, diz.

O especialista sustenta que a responsabilidade é compartilhada. “Plataformas precisam oferecer ferramentas de proteção, e o usuário deve compreender que aposta é entretenimento com risco. Quando essa equação se rompe, o problema deixa de ser individual e passa a afetar todo o mercado”, afirma.

O especialista aponta cinco medidas para reduzir riscos e fortalecer a sustentabilidade das apostas

A discussão sobre sustentabilidade no primeiro trimestre do ano tem levado empresas a revisar protocolos internos. Entre as práticas consideradas centrais para reduzir danos, destacam-se:

  • Limites personalizados de depósito e tempo de uso
    A definição prévia de tetos financeiros e alertas automáticos ajuda a conter decisões impulsivas e permite maior controle orçamentário.
  • Ferramentas de autoexclusão voluntária
    Mecanismos que permitem ao próprio usuário suspender o acesso por determinado período são apontados como barreira importante em momentos de perda acumulada.
  • Educação financeira integrada às plataformas
    Conteúdos explicativos sobre probabilidade, variância e gestão de banca reduzem a percepção de ganho fácil e reforçam a noção de risco.
  • Monitoramento de padrões de comportamento
    Sistemas que identificam apostas repetitivas ou aumento abrupto de valores possibilitam intervenções preventivas.
  • Comunicação publicitária responsável
    A clareza sobre riscos e a proibição de promessas de lucro são consideradas essenciais para evitar distorções na expectativa do consumidor.

Para Ricardo, a adoção dessas medidas não é apenas questão de imagem. “Empresas que estruturam políticas de prevenção reduzem conflitos com reguladores e fortalecem a relação com investidores. Sustentabilidade, aqui, significa continuidade do negócio no longo prazo”, afirma.

Ambiente regulado e redução de danos

Com a nova legislação, as empresas autorizadas precisam cumprir exigências de identificação de usuários, prevenção à lavagem de dinheiro e regras de publicidade. A Secretaria de Prêmios e Apostas mantém lista pública de operadores habilitados, o que contribui para diferenciar plataformas legais de sites irregulares.

O avanço regulatório é visto como etapa importante para mitigar riscos, mas especialistas defendem que a consolidação dependerá da educação do consumidor. “O setor só se torna sustentável quando arrecadação, tecnologia e responsabilidade caminham juntas. Crescimento sem controle amplia o risco social e pode provocar reação mais dura do poder público”, afirma Ricardo.

No cenário atual, o debate sobre jogo responsável deixa de ser periférico e passa a integrar a estratégia central das empresas. A equação que se impõe ao mercado é clara: ampliar receitas mantendo mecanismos eficazes de proteção. A capacidade de equilibrar essas duas frentes deverá definir o ritmo de expansão do setor nos próximos anos.