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O que representa o reajuste das relações entre os EUA e a Bolívia?

11/03/2026
O que representa o reajuste das relações entre os EUA e a Bolívia?
Foto: © AP Photo / Mark Schiefelbein

O presidente boliviano, Rodrigo Paz, estava entre os 12 líderes latino-americanos que testemunharam Donald Trump assinar o acordo Escudo das Américas, que visa combater os cartéis de drogas e prevenir "influências malignas" vindas de fora do continente.

Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores boliviano anunciou os benefícios do apoio prestado em um contexto global marcado pelos bombardeios ao Irã pelos Estados Unidos e Israel.

A Bolívia deu mais um passo no fortalecimento de seus laços com Washington, após duas décadas de afastamento entre as duas nações, período em que o país sul-americano foi governado pelo Movimento para o Socialismo (MAS).

O presidente participou da Cúpula Escudo das Américas, que terminou com uma proclamação assinada apenas pelo presidente Donald Trump. Nesse documento, ele enfatizou que, juntamente com seus 17 aliados continentais, promoveria a luta contra o narcotráfico, bem como contra "influências malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental".

Após a cúpula, realizada no dia 8 de março, Paz procurou minimizar o forte componente ideológico do encontro, que ocorreu no Trump National Doral Golf Club em Miami, Flórida, em um contexto global altamente sensível devido à agressão contra o Irã ordenada pela Casa Branca.

"Este não é um problema de imperialismo, nem de esquerda ou direita. É uma questão central de economia, uma economia para o povo que todos devemos construir juntos, e estamos tomando as medidas apropriadas", declarou Paz nos Estados Unidos. Ele acrescentou que, além das posições políticas, "trata-se da pátria, e da pátria com todos aqueles que querem trabalhar e nos ajudar a fazer a Bolívia avançar".

Na última terça-feira (10), o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia apresentou os resultados concretos da visita de Paz aos Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores, Fernando Aramayo, informou que a agenda bilateral não é mais "monotemática, tradicionalmente focada no narcotráfico e na segurança".

Ele explicou que "hoje estamos trabalhando em uma agenda que inclui comércio, agricultura, mineração, saúde, tecnologia, turismo e, portanto, o comércio está sendo priorizado". Ele acrescentou que um grupo de empresários americanos visitará o país nas próximas semanas.

Em que consiste o plano dos EUA?

Uma dúzia de presidentes de países das Américas participaram da Cúpula Escudo das Américas, onde assistiram a Trump assinando sozinho sua proclamação. Depois, ele distribuiu canetas como lembrança aos presentes.

De acordo com o documento, "o secretário de Guerra [Pete Hegseth] estabeleceu a Coalizão das Américas contra os cartéis, um compromisso de líderes militares e representantes de 17 países que demonstra que a região está pronta para usar o poderio militar para derrotar essas ameaças à nossa segurança e civilização".

O documento acrescenta: "Eu, Donald J. Trump, presidente dos Estados Unidos da América, pela autoridade que me é conferida pela Constituição e pelas leis [dos Estados Unidos], proclamo o seguinte". Nos dois primeiros pontos, ele mencionou a importância da coordenação com as nações das Américas para enfrentar as organizações criminosas.

"Os EUA treinarão e mobilizarão as forças armadas das nações aliadas para alcançar a força de combate mais eficaz, necessária para desmantelar os cartéis e sua capacidade de exportar violência e exercer influência por meio da intimidação organizada", afirmou no terceiro ponto.

No quarto ponto, especificou que "os EUA e seus aliados devem manter as ameaças externas sob controle, incluindo influências malignas vindas de fora do Hemisfério Ocidental".

O mundo bipolar segundo os EUA

Em diálogo com a Sputnik, a cientista política Susana Bejarano considerou que Washington "tem a ideia de redividir o mundo", razão pela qual se preocupa mais em saber "quem está por trás e quem está contra. Essa lógica polarizadora é sempre direcionada contra um inimigo, mesmo que, na prática, isso não se materialize".

Ela avaliou que a Casa Branca "quer fortalecer os EUA como uma potência econômica na região, capaz de explorar os recursos naturais de outros países, independentemente de sua localização. Para alcançar isso, Washington precisa alavancar questões simbólicas, como o Irã", entre outros motivos.

Mas "a questão central são os recursos, e ele afirma isso de forma transparente. Nessa cruzada, Trump precisa do reconhecimento do maior número possível de países onde possa exercer influência".

Nesse sentido, o apoio de Paz e de outros líderes da região pode ser interpretado de diferentes maneiras.

"Por um lado, o endosso e o apoio a Trump podem ser baseados em afinidades ideológicas; podem também estar 'agindo por submissão', e eu diria até por medo, porque pode haver medo por trás de toda essa situação", visto que o presidente norte-americano deixou claro repetidamente seu interesse nos recursos da região, bem como seu desrespeito ao direito internacional.

"Pode-se entender que [os EUA] também estão impondo uma certa lógica, no sentido de dizer: 'Se vocês não estão comigo e têm recursos naturais, preparem-se para problemas'", explicou Bejarano.

Uma nova Escola das Américas?

O analista Álex Contreras observou que a visita de Paz aos EUA "gerou muita empolgação. Percebemos que nossa história de 20 anos de relações distantes [com Washington] chegou ao fim. Fazia muito tempo que não víamos um presidente boliviano nos representando naquele país. Acho que esse aspecto é, sem dúvida, histórico", disse ele à Sputnik.

Mas a foto da cúpula não contou com a presença de presidentes importantes na luta contra as drogas, como Gustavo Petro, da Colômbia, e José María Balcázar, do Peru, "cujos países são os maiores produtores de matérias-primas e seus derivados. Também não estavam presentes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do maior e mais poderoso país da América do Sul", assim como a presidente mexicana Claudia Sheinbaum.

Portanto, o analista afirmou: "Acredito que o objetivo declarado seja teoricamente sólido, mas estou convencido de que os EUA têm outros objetivos de controle estratégico, geopolítico, militar e ideológico. Os presidentes que lá estiveram, incluindo Paz, foram para apoiar o que Washington está fazendo em sua agressão contra o Irã", incluindo o assassinato de seu líder supremo, Ali Khamenei, o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e o atual cerco a Cuba.

O convite para treinar tropas latino-americanas nos EUA inevitavelmente lembrou Contreras da Escola das Américas, onde milhares de militares foram treinados a partir de 1946, muitos dos quais foram posteriormente ligados a graves violações dos direitos humanos.

"Militares bolivianos viajaram para os EUA supostamente para se prepararem para a vida [nesta região], mas retornaram e participaram de golpes de Estado e massacres. Participaram ativamente da repressão a líderes de movimentos sociais", enumerou.

"Os EUA têm essa visão de controle e domínio hemisférico. Possivelmente, nos próximos meses, veremos batalhões de soldados bolivianos transferidos para os EUA com esse objetivo", comentou o analista.

Segundo Contreras, a Bolívia "é um país tão pequeno que Paz não tem escolha a não ser aceitar esse tipo de imposição, que certamente será condicionada a empréstimos, apoio econômico e crédito. É a típica manipulação imperial de países dependentes como a Bolívia". Isso "é muito semelhante ao que aconteceu há mais de 20 anos".

Em relação às declarações do chefe de Estado boliviano, que afirmou não ser nem de direita nem de esquerda, o analista considerou que "ele precisa se definir, dizer claramente aos bolivianos qual é a sua visão do país que deseja construir".


Por Sputinik Brasil