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O novo mapa da competitividade industrial: como a unificação tributária está recalibrando o custo de produção em 2026

A fase de transição da Reforma Tributária inaugura um novo critério de competitividade industrial, em que margem, liquidez e tecnologia fiscal passam a definir quem ganha e quem perde no mercado.

Assessoria 10/03/2026
O novo mapa da competitividade industrial: como a unificação tributária está recalibrando o custo de produção em 2026
Advogados O novo mapa da competitividade industrial: como a unificação tributária está recalibrando o custo de produção em 2026 - Foto: Divulgação/Rocha&Rocha

Com as alíquotas-teste da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) em vigor desde janeiro de 2026, a indústria brasileira vive o marco zero de sua maior transformação estrutural. O que até então era projeção em planilhas e simulações tributárias agora impacta diretamente o fluxo de caixa das empresas. A unificação dos tributos sobre o consumo começou a redesenhar o mapa da competitividade industrial no país, deslocando o eixo da vantagem competitiva dos antigos incentivos fiscais regionais para a eficiência logística, a governança digital e a gestão estratégica de créditos do novo IVA Dual.

Na avaliação do advogado tributarista Victor Hugo Rocha, sócio da Rocha & Rocha Advogados, o momento exige mudança imediata de mentalidade. “O jogo mudou. Em 2026, a competitividade industrial não é mais definida por quem consegue o melhor incentivo estadual, mas por quem domina o fluxo de créditos do IVA Dual. Com o fim gradual da cumulatividade, o resíduo tributário que onerava a produção está sendo exposto. O desafio agora é operacional: as empresas precisam garantir que cada centavo de CBS e IBS pago na entrada seja recuperado com agilidade, especialmente com a implementação do split payment, que altera o tempo de liquidez das operações”, explica.

Durante décadas, decisões sobre onde produzir estavam diretamente ligadas à concessão de benefícios de ICMS e regimes especiais estaduais. Com a transição para o novo modelo, a lógica passa a privilegiar a neutralidade tributária e o crédito financeiro amplo, reduzindo distorções e tornando a eficiência operacional um fator central na formação de preços. Dados de mercado indicam que a indústria de transformação pode ver uma redução de até 11% no custo de investimentos em capital (CAPEX), devido ao aproveitamento imediato de créditos sobre máquinas e equipamentos, uma mudança drástica face ao modelo de 48 meses do sistema anterior.

O cenário ainda é marcado por um sistema híbrido, no qual convivem ICMS e ISS com CBS e IBS, exigindo das empresas monitoramento simultâneo de dois regimes. “Estamos acompanhando de perto essa convivência. Este modelo híbrido exige auditoria em tempo real. Não se trata apenas de pagar imposto, mas de gerir o direito ao crédito. A empresa que errar no controle digital pode transformar eficiência tributária em custo financeiro”, pontua Rocha.

Setores como a agroindústria e empresas que operam sob regimes aduaneiros especiais estão no centro dessa reconfiguração. A manutenção da vantagem comparativa da Zona Franca de Manaus via IPI e os tratamentos diferenciados ao agronegócio preservam elementos de competitividade regional, mas inseridos em uma nova arquitetura institucional. Para a indústria manufatureira exportadora, a meta de "resíduo zero" é o grande atrativo: estima-se que o produto brasileiro chegue ao mercado externo até 7% mais barato pela eliminação de impostos que ficavam "presos" na cadeia produtiva.

“A desoneração das exportações representa um avanço relevante, mas o ganho efetivo de margem está condicionado à governança tributária. Em 2026, estar no programa de conformidade 'Sintonia' da Receita Federal tornou-se um ativo financeiro, garantindo o ressarcimento de créditos em prazos reduzidos, enquanto empresas com baixa conformidade enfrentam gargalos de liquidez”, afirma o especialista.

Mais do que uma alteração normativa, 2027 inaugura uma nova lógica de competição industrial no Brasil. A disputa deixa de ocorrer no campo da guerra fiscal e passa a ser definida por tecnologia aplicada à gestão tributária, rastreabilidade de créditos e capacidade de adaptação ao split payment. Para Victor Hugo Rocha, a indústria que tratar a Reforma Tributária apenas como obrigação acessória tende a perder competitividade. Já aquela que enxergar o IVA Dual como ferramenta estratégica de gestão poderá consolidar vantagem estrutural nos próximos anos.