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Mulheres são maioria entre os mestres e doutores formados pela Unesp e cada vez mais influentes nas atividades de pesquisa

Outros indicadores positivos envolvem aumento da presença feminina na direção de unidades universitárias e nas coordenações de cursos e de programas de pós; dados refletem políticas de equidade adotadas nos últimos anos

Carolina Fioratti 06/03/2026
Mulheres são maioria entre os mestres e doutores formados pela Unesp e cada vez mais influentes nas atividades de pesquisa
Gabriela de Souza Freitas foi premiada em 2022 no Congresso de Iniciação Científica da Unesp por sua pesquisa sobre a degradação da ametrina através da ativação do persulfato de sódio por catalisador de carbono. - Foto: Unesp

Em 8 de março de 1908, trabalhadoras têxteis em Nova York, nos Estados Unidos, foram às ruas para reivindicar melhores condições de trabalho, salários justos e o direito ao voto. Em 8 de março de 1917, proletárias em Petrogrado, na Rússia, protestaram contra a fome, a Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. Em 8 de março de 1975, a Organização das Nações Unidas passou a reconhecer a data, instituindo o Dia Internacional da Mulher.

A celebração nasceu da luta pela equidade de gênero e ressalta o papel crucial da mulher na construção da sociedade. A presença feminina já está consolidada em setores como a indústria, o comércio e a educação. E, cada vez mais, mostra-se essencial para a pesquisa. A própria Unesp reflete este crescimento: um levantamento realizado pelo Escritório de Gestão de Dados (EGD) da Unesp aponta que as pesquisadoras são maioria na pós-graduação da Universidade, sendo também as principais líderes em grupos de pesquisa.

Hoje, mulheres ocupam 52,8% das vagas oferecidas nos cursos de graduação da Unesp e 54,7% nos cursos de pós-graduação. Dados do painel de fomento em ciência, tecnologia e inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostram um crescimento constante das mulheres no âmbito da pesquisa na universidade nos últimos cinco anos, embora elas ainda sejam minoria no quadro geral.

Outro fator de destaque é a liderança de grupos de pesquisa. Dos 1.296 grupos sediados na Universidade, registrados junto ao CNPq em 2025, 831 — o equivalente a 64% — possuem líderes femininas.

Dados do CWTS Leiden Ranking, ranking universitário global anual baseado em indicadores bibliométricos, mostram um aumento das pesquisas assinadas por mulheres na Unesp nas áreas de ciências físicas e engenharia entre 2006 e 2023. A classificação mostra ainda que, em todos os anos analisados, as mulheres foram maioria em pesquisas relacionadas a ciências biomédicas e saúde.

Uma mulher chefia o CEPID

E o primeiro Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) com sede na Unesp é liderado por uma mulher, a bióloga Patrícia Morellato, que desde 1990 integra o corpo docente da Universidade. Trata-se do Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). O Centro, ligado ao Instituto de Biociências de Rio Claro, tem foco em biodiversidade tropical e mudanças climáticas.

Lá, a força de trabalho conta com 56,3% de mulheres bolsistas e estagiárias. “O CBioClima abriga uma proporção de pesquisadores associados e bolsistas mulheres maior do que a de homens. Isso não foi forçado, mas é algo interessante e estimulado”, conta a pesquisadora. Morellato explica que, embora a liderança maior do CEPID seja uma mulher, não há igualdade entre os gêneros no quadro de pesquisadores principais do programa. Pressões externas e sobrecarga são alguns dos fatores que impedem que as cientistas aceitem ocupar tais espaços de destaque, avalia.

Olhando em retrospectiva para a própria carreira, ela percebe ter esbarrado em obstáculos causados tanto por preconceito por parte de homens quanto pela competitividade entre mulheres. “Cresci na carreira muito rápido. Era a mais nova do meu departamento e fui a primeira a fazer livre-docência. Isso aborreceu muitas pessoas na época”, lembra. “Mas não estava tomando a posição de ninguém. Eu perguntava: você se candidatou? Você se inscreveu na vaga? Porque eu me inscrevi”, diz.

E mesmo após ter conquistado uma condição de maior projeção, continuou percebendo diferenças no modo como era tratada no universo da pesquisa. Um exemplo que ela aponta são as consultas que recebia de outros cientistas que buscavam esclarecer algum ponto específico de seu próprio trabalho. Esses esclarecimentos costumam resultar em atribuições de coautoria quando o artigo científico sobre a pesquisa é publicado.

“Percebi que, algumas vezes, os meus colegas homens recebiam consultas sobre questões científicas e automaticamente eram colocados como coautores daqueles trabalhos. Mas isso não acontecia quando eu recebia uma consulta. Não atribuíam esse mesmo valor à minha participação”, diz. Após algum tempo, vendo que a situação não mudava, ela passou a restringir os contatos. “Acho que até perdi algumas oportunidades, mas estava cansada de atender as pessoas, fazer exatamente o que os meus colegas faziam e não obter o mesmo merecimento.”

Patricia Morelatto, diretora do CBioClima e docente do IB/Rio Claro

Políticas internas apoiam gestantes e mães

Embora as mulheres sejam a maioria dos alunos da pós-graduação na Unesp e no Brasil, muitas não dão prosseguimento à carreira acadêmica devido à dupla jornada profissional e pessoal. Esta última pode incluir os cuidados com os filhos, mas também com idosos, entre outras preocupações.

Diante desse quadro, a Unesp busca meios para tornar menos árduo o caminho para que gestantes e mães se desenvolvam como pesquisadoras. Quem relata essas iniciativas é Pilar Sotomayor, pós-doutora em química e assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPe) da Unesp.

A pesquisadora está há 18 anos na Universidade, cinco na área de gestão, e enxerga a maternidade como o principal fator responsável pela queda de produtividade e a consequente evasão feminina do setor de pesquisa. A professora diz que escolheu ser mãe aos 34 anos, uma idade que ela considera avançada, para que tivesse condições de priorizar seu desenvolvimento acadêmico e profissional.

Pilar Sotomayor, assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPe) responsável pela área de pós-doutorado

Sotomayor, que responde pelo setor de pós-doutorado, cita como exemplos de instrumentos de apoio à presença feminina na pesquisa a licença-maternidade oferecida a alunas que não atuam como docentes e o pagamento de auxílio financeiro pelo período de seis meses. Também os editais da Universidade, que consideram a produtividade como um fator de seleção, possuem um dispositivo que beneficia as professoras ou candidatas que tiverem gestado durante o período de cinco anos analisado pela comissão.

Neste caso, são adicionados dois anos extras ao período a ser considerado, para cobrir a eventual queda de publicações que pode acompanhar os primeiros anos da maternidade. Tal política é concebida também dentro dos processos seletivos da Iniciação Científica e Tecnológica da Unesp. Desde a implementação do prazo extra, 96 professoras foram beneficiadas na Universidade no setor de IC.

“Em geral, o homem se dedica à carreira e tem alguém por trás para cuidar de sua vida pessoal. Nós, não. Precisamos lutar e demonstrar o nosso potencial duzentas vezes mais para provar que somos merecedoras daquele cargo”, conta a pesquisadora.

A equipe da PROPe também está sempre atenta às premiações de pesquisa que possam valorizar o trabalho das discentes e docentes da Unesp. Quando são abertos os editais para láureas, como o Prêmio L’Oréal-UNESCO para Mulheres em Ciência ou o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, a PROPe analisa o currículo de pesquisadoras da Universidade, esmiúça seus trabalhos em andamento e submete o nome delas à competição. Um dos exemplos dos frutos desse esforço ocorreu em 2022, quando a docente de Linguística Maria Helena de Moura Neves venceu a primeira edição do Prêmio Ester Sabino, que celebra a contribuição de cientistas mulheres.

E também há premiações internas. Nas últimas cinco edições do Congresso de Iniciação Científica da Unesp, o prêmio de 1º lugar na área de Engenharias foi concedido a mulheres: Ana Lima Vieira (2025), Maria Eduarda Pierami (2024), Júlia Silva Borges (2023), Gabriela de Souza Freitas (2022) e Carla Rafaelli Martins (2021). Dentre as premiadas, três foram orientadas por outras mulheres.

Júlia Silva Borges recebeu condecoração no 35º Congresso de Iniciação Científica da Unesp, em 2023, por sua pesquisa na área de Engenharia Aeronáutica.

Uma nova era na Universidade

Todas as entrevistadas apontam como um importante fator para estimular a participação feminina na pesquisa da Universidade a presença de Maysa Furlan, a primeira mulher eleita para ocupar o cargo de reitora da Unesp.

Furlan foi coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Química da Unesp entre 2000 e 2004 e atuou como diretora do Instituto de Química nos quatro anos seguintes. Durante sua trajetória, a docente atuou também como assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa da Unesp e coordenadora do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC/PIBITI/CNPq) da Unesp. Foi vice-reitora de 2021 a 2025, ao lado do professor Pasqual Barretti, e, em seguida, eleita reitora. Essa é também a primeira vez que a Unesp tem, simultaneamente, uma mulher na reitoria e outra na chefia de gabinete. Essa função está a cargo de Adriana Marcantonio, doutora em periodontia pela Universidade.

Patrícia Morellato destaca a importância da eleição de Furlan. “A Academia Brasileira de Ciências demorou mais de 100 anos para eleger como presidente uma mulher, a professora Helena Nader. A Fapesp existe há mais de 60 anos e nunca teve nenhuma mulher no cargo de direção. Fiquei feliz por a Unesp ter completado seus 50 anos com uma mulher na reitoria”, diz.

Em entrevista ao Jornal da Unesp, a reitora Maysa Furlan reconheceu que a Universidade está agora navegando em um ambiente muito mais favorável e propício para que todas possam contribuir com pesquisas importantes e vislumbrar uma carreira. “Se as mulheres querem uma ascensão ao cargo de professora associada e depois professora titular, que elas possam planejar isso e encontrar aqui na Unesp um espaço acolhedor”, diz.

Maysa Furlan, reitora da Unesp

Nos últimos anos, a Unesp apresentou crescimento constante na distribuição de mulheres diretoras de unidades e titulares. Esses indicadores já representam sinais iniciais do que Furlan busca apoiar em sua gestão. As mulheres se destacam como coordenadoras dos cursos de graduação da Unesp (50,8%) e também atingem um valor considerável no mesmo cargo para os cursos de pós-graduação (45,4%).

Velhos e novos desafios

Outro ponto comum nos relatos das pesquisadoras entrevistadas é a vivência de episódios de machismo ao longo de suas trajetórias. Entre esses tristes eventos incluem-se cortes de auxílios, projetos de pesquisa colocados em dúvida, desestímulo a planos para estudar no exterior e até falas diretas e duras que as exortavam a deixar o laboratório e ir lavar pratos em algum lugar. Esses críticos taxavam as conquistas das pesquisadoras de pura sorte e a elevada produtividade delas de soberba. Eventuais brincadeiras, enunciadas em tom de piada, eram, na verdade, assédio moral disfarçado – algo que, hoje, é combatido na Unesp.

“Trabalhamos bravamente para que se encerre o assédio, seja ele de cunho moral ou sexual, nesta Universidade. Isso não é aceitável”, reforça Furlan. “Estamos atentos a qualquer dificuldade ou ato que desvie a mulher de seu caminho profissional. Trabalhamos para que ninguém na Unesp passe por qualquer tipo de assédio, porque, além de brutal, é algo imoral e totalmente antiético”, diz ela.

Ana Maria Klein, assessora técnica da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (PROADE) e integrante do Grupo de Trabalho (GT) Unesp Mulheres, explica que o assédio é um dos principais fatores de impacto para a saúde mental, a convivência e a progressão de carreira das mulheres. Por conta disso, foi instituída em 2025 a campanha “Unesp Sem Assédio — sem medo, sem impunidade”, iniciativa institucional que percorre as 34 unidades da Unesp com palestras sobre prevenção, denúncia e acolhimento, por meio de ações educativas e Comissões Locais.

A PROADE oferece também um curso voltado às questões de gênero e violência para todos os funcionários, estudantes e professores da Unesp. Além disso, são realizadas ações pontuais, como três lives no YouTube abordando a temática das mulheres, planejadas para o mês de março.

A primeira delas, no dia 9, deve abordar a questão da mulher negra na sociedade, focando na perspectiva do feminismo interseccional. A segunda, no dia 19, discutirá masculinidades e violência contra a mulher, enquanto a última, no dia 24, contará com uma palestra de Maíra Recchia, presidente da OAB Mulheres, sobre assédio e feminicídio.

“Este ano, a gestão do GT Mulheres envolve uma mulher de cada campus. Contamos com representantes de todos os segmentos e de todas as áreas do conhecimento, inclusive das trabalhadoras terceirizadas. Queremos estender essa discussão para as unidades. Esperamos que essas mulheres consigam mobilizar outras mulheres para que possamos entender melhor os desafios, pois eles podem variar em cada local”, conta Klein.

Na comemoração deste 8 de março, que coincide com o ano de celebrações pelas suas cinco décadas de existência, a Unesp vive um momento de especial atenção à presença feminina no âmbito da pesquisa. E a sinalização nesse sentido vem diretamente da reitora Maysa Furlan. “Estamos em um novo tempo, preparando a Universidade e os caminhos para que todas as pessoas, especialmente as mulheres, possam encontrar um ambiente forte e consolidado em questão de oportunidades”, diz ela. “Que elas possam, na Unesp, colocar todas as suas ideias e expertise a favor de uma realização pessoal e profissional.”