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Taxas de juros recuam com alívio sobre oferta global de petróleo

Redução dos temores sobre interrupção no fluxo do Estreito de Ormuz favorece ativos de países emergentes e impulsiona apostas em corte da Selic.

04/03/2026
Taxas de juros recuam com alívio sobre oferta global de petróleo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os juros futuros negociados na B3 devolveram parte da forte alta registrada nas duas sessões anteriores, em meio ao arrefecimento das tensões no Oriente Médio.

Apesar de o Irã ter negado que agentes iranianos procuraram a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), conforme noticiado pelo The New York Times, a notícia estimulou o apetite ao risco e beneficiou ativos de países emergentes. O receio de uma onda de inflação global, causada por possível redução da oferta de petróleo, foi amenizado nesta quarta-feira, diante da percepção de que o fluxo pelo Estreito de Ormuz será retomado em breve.

Os vértices da curva a termo renovaram mínimas intradia por toda a extensão, por volta das 16h, com queda superior a 10 pontos-base a partir dos vencimentos intermediários. O movimento coincidiu com declarações da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, de que o Pentágono e o Departamento de Energia dos EUA trabalham em um plano para garantir a segurança da navegação no estreito. Agentes do mercado ponderaram, contudo, que informações semelhantes já eram conhecidas desde ontem.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,444% para 13,41%. O DI para janeiro de 2029 caiu de 12,931% para 12,865%, enquanto o DI para janeiro de 2031 passou de 13,314% para 13,225%.

Em relatório divulgado nesta tarde, a Fitch Ratings avaliou que o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do escoamento global de óleo, deve ser temporário e ter impacto limitado sobre os preços da commodity. Segundo a agência, não se espera alta significativa em relação à projeção de US$ 63 por barril para o preço médio do Brent em 2026, estimativa feita em dezembro de 2025.

"O Irã não conseguiu exercer controle sobre o estreito e, apesar da redução do fluxo, a expectativa é de retomada em breve", afirma Marcelo Fonseca, economista-chefe do grupo CVPAR. Assim, analistas passaram a focar no impacto de curto prazo nos mercados, deixando em segundo plano as análises geopolíticas sobre o regime iraniano.

"Independentemente da duração do conflito, o que preocupava era a possibilidade de o petróleo atingir patamares elevados", cenário que agora parece menos provável, avalia Fonseca. Ele cita o exemplo da guerra na Faixa de Gaza, que já dura mais de dois anos, e o mercado israelense tem conseguido isolar eventos geopolíticos dos econômicos, movimento que pode se repetir em relação ao Golfo, caso a oferta de petróleo não seja interrompida por longo período.

A economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa, concorda que o tráfego no estreito segue como "ponto nevrálgico", com paralisação de navios e aumento nos preços de seguros. Nesta quarta-feira, segundo Costa, as commodities energéticas interromperam a trajetória de alta, em resposta à sinalização do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o país pode garantir seguro e proteção para embarcações que cruzam o local, ainda que a indicação seja vista com algum ceticismo.

Embora economistas ressaltem que as incertezas externas podem levar o Banco Central a uma postura mais cautelosa no ciclo de afrouxamento monetário, as apostas em corte de 0,5 ponto da Selic neste mês ganharam força. Cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, mostram que a precificação da curva apontava nesta tarde 60% de chance de corte de 50 pontos-base em março, ante 45% na terça-feira.

"A volatilidade caiu e o câmbio voltou", comenta Serrano, reconhecendo, porém, que a chance de um ajuste menor, de 25 pontos-base, aumentou após os ataques dos EUA e de Israel ao Irã.