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Irã desafia Trump ao transformar martírio e caos em estratégia de sobrevivência

Teerã aposta na descentralização militar e no sacrifício de líderes para manter a Revolução Islâmica e resistir à pressão dos EUA e de Israel.

04/03/2026
Irã desafia Trump ao transformar martírio e caos em estratégia de sobrevivência
Estratégia iraniana aposta no martírio de líderes e descentralização para resistir à pressão dos EUA. - Foto: © AP Photo / Vahid Salemi

A estratégia do Irã de aceitar o "martírio" de suas lideranças para preservar a Revolução Islâmica desafia a lógica imprevisível da política externa de Donald Trump. O regime iraniano aposta no caos regional, na descentralização militar e em sucessores em múltiplos níveis como meios de resistir a ataques dos EUA e de Israel.

Para o governo iraniano, a morte de líderes é um custo calculado para garantir a continuidade do projeto revolucionário. Essa postura contrasta diretamente com a estratégia americana, baseada em pressão e ações inesperadas. Enquanto Trump busca enfraquecer Teerã por meio do caos controlado, o Irã responde com resiliência e sacrifício, reduzindo o impacto político de assassinatos de alto escalão.

Desde 2023, a resposta iraniana a ataques dos EUA e de Israel é fruto de planejamento detalhado, incluindo retaliações a países do golfo e ameaças ao Estreito de Ormuz. Observadores internacionais apontam que, apesar dos riscos, a tática iraniana visa criar instabilidade suficiente para forçar negociações, mesmo que isso aproxime Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar do eixo americano-israelense.

Segundo a Folha de S.Paulo, esses países, antes considerados polos de estabilidade, agora investem milhões em sistemas de defesa Patriot para interceptar drones iranianos de baixo custo, colocando em xeque sua reputação de segurança. Ao mesmo tempo, a escalada pressiona Washington, que enfrenta baixas militares, inflação alimentada pelo petróleo e desgaste político em ano eleitoral.

Trump entrou no conflito sem um objetivo definido, alternando justificativas que vão do combate ao programa nuclear iraniano à tentativa de mudança de regime. Já o Irã, conforme seus líderes, se preparou para uma guerra prolongada, descentralizando decisões militares e estruturando múltiplas camadas de sucessão para evitar rupturas na cadeia de comando.

Desde junho, Teerã reorganizou suas Forças Armadas para que comandantes possam agir de forma independente, minimizando os efeitos de assassinatos direcionados. O regime também estabeleceu quatro níveis de sucessão para suas lideranças, assegurando a continuidade mesmo em meio a ataques intensos.

A morte do aiatolá Ali Khamenei pode ter sido considerada nesse cálculo estratégico. Analistas ouvidos pela Folha sugerem que ele teria aceitado o risco de se tornar mártir, fortalecendo a narrativa de resistência. Sua devoção ao sacrifício do imã Hussein, figura central do xiismo, reforça essa interpretação, segundo a mídia.

Apesar disso, a estratégia encontra limites, segundo analistas. Caso EUA e Israel continuem eliminando sucessores à medida que surgem, a cadeia de comando pode se fragilizar. No entanto, até o momento, não há oposição interna capaz de assumir o poder, e o regime mantém forte repressão a protestos.

Trump chegou a sugerir que o Irã poderia seguir o exemplo da Venezuela, onde a liderança cedeu à pressão americana. Contudo, o próprio presidente reconheceu que muitos possíveis sucessores iranianos já foram mortos — e que o próximo líder pode ser ainda mais radical.

Por Sputnik Brasil