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Mulheres ampliam presença na mineração e na metalurgia, mas avanço na liderança ainda é desafio

Histórias de líderes e dados recentes apontam transformação gradual em setores tradicionalmente masculinos

Assessoria 02/03/2026
Mulheres ampliam presença na mineração e na metalurgia, mas avanço na liderança ainda é desafio
- Foto: Assessoria ABM

A presença feminina nos setores de mineração e metalurgia tem crescido nos últimos anos no Brasil, embora ainda represente uma parcela minoritária da força de trabalho. O último Relatório de Indicadores do Women in Mining Brasil (WIM Brasil) indica que as mulheres correspondem a 22% dos profissionais do setor mineral brasileiro — o equivalente a 30.744 trabalhadoras — mesmo percentual em relação ao ano anterior, porém com queda de 3 pontos percentuais, ou 25% de executivas na alta liderança. O índice ainda posiciona o país acima da média global, que varia entre 8% e 17%, segundo levantamentos internacionais, mas ainda distante da meta de 35% estabelecida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) para 2030.

Na metalurgia, os números seguem tendência semelhante. Na base do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, as mulheres representam 19% dos cerca de 42 mil trabalhadores. Embora dados nacionais mais amplos indiquem crescimento ao longo da última década, mais de 350 das 707 ocupações registradas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) ainda não contam com presença feminina.

Se por um lado a participação numérica avança de forma gradual, por outro os desafios estruturais permanecem, sobretudo nos cargos de liderança. No setor mineral, mulheres ocupam aproximadamente 25% das posições de nível C-level e 21% das cadeiras em conselhos administrativos, número abaixo dos 30% do ano anterior. A evolução é considerada lenta frente à necessidade de maior diversidade na tomada de decisões estratégicas.

Relatos apontam dificuldades até o topo

Apesar desse cenário, histórias individuais refletem mudanças importantes no ambiente corporativo. A engenheira química Daniele Lima, Sales Director South America da Vesuvius, construiu carreira de mais de duas décadas na indústria de refratários e siderurgia, passando por áreas técnicas e posições executivas. Ela relata que, no início da trajetória, precisou lidar com ambientes predominantemente masculinos. “Em várias posições que ocupei, eu era a única mulher ou uma entre pouquíssimas. Isso vinha acompanhado de olhares de desconfiança e de uma necessidade maior de provar competência. Com o tempo, a credibilidade foi sendo construída pelos resultados e pela consistência”, afirma.

A executiva destaca que o cenário vem evoluindo, com maior presença feminina em áreas técnicas e estratégicas, embora ainda existam vieses em determinados contextos. Para ela, o desafio atual está em garantir que diferentes estilos de liderança sejam reconhecidos e respeitados.

Para Christiane Luckmann, Chief Executive Officer (CEO) da Autron Automação, empresa com atuação no setor minero-metalúrgico, o fortalecimento da presença feminina está diretamente ligado à construção de ambientes organizacionais mais inclusivos. “Mulheres e homens possuem características distintas que, quando combinadas de forma equilibrada, tornam as organizações mais completas, humanas e eficientes. O mais importante é criar culturas baseadas em confiança, responsabilidade e geração de valor sustentável”, afirma. Atualmente, segundo a executiva, 36% dos profissionais da empresa são mulheres, percentual considerado expressivo para o segmento de automação industrial.

Priscilla Kabakian, Chief Operating Officer (COO) da Vika Controls, empresa fornecedora de soluções completas em instrumentação industrial, também reconhece avanços, mas ressalta que a necessidade de provar competência ainda é uma realidade em determinados espaços técnicos. “Em alguns momentos ficou claro que eu precisava demonstrar minha capacidade mais vezes do que colegas homens. Essas experiências me tornaram mais consciente e mais firme para ocupar espaços com responsabilidade”, relata. Para ela, competências comportamentais, como visão sistêmica e capacidade de diálogo, têm papel decisivo na consolidação de lideranças femininas.

Graduação aparece como diferencial de carreira 

A formação acadêmica aparece como um dos fatores determinantes para o crescimento da presença feminina no setor. Segundo dados da McKinsey, 15,5% das mulheres na indústria possuem qualificação superior, frente a 9,3% dos homens, o que evidencia elevado nível de preparo técnico. Ainda assim, barreiras culturais e estruturais continuam sendo relatadas, desde estereótipos associados à ideia de “sexo frágil” até a ausência histórica de infraestrutura adequada em determinados ambientes industriais.

Entre as novas gerações, a percepção sobre o setor também vem se ampliando. A engenheira metalúrgica Ana Júlia Wenceslau, formada pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), participou da ABM Week 9 e destaca a importância de iniciativas que aproximem estudantes da indústria. “Na faculdade, muitas vezes ficamos focados apenas no processo em si. Em eventos técnicos, é possível conhecer outras áreas que contribuem para o setor, como refratários e instrumentação, ampliando a visão sobre as possibilidades de atuação”, afirma.

Iniciativas incentivam diversidade

Especialistas apontam que iniciativas voltadas à diversidade, equidade e inclusão (DEI), aliadas à automação e à modernização dos processos produtivos, têm contribuído para reduzir barreiras históricas e diminuir o turnover feminino — que caiu para 17% em 2024 em alguns recortes do setor. Ainda assim, a consolidação de ambientes verdadeiramente inclusivos depende de mudanças estruturais e culturais de longo prazo.

Para o presidente executivo da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), Horacidio Leal Barbosa Filho, a ampliação da presença feminina é estratégica para o desenvolvimento do setor. “A indústria minero-metalúrgica precisa refletir a diversidade da sociedade. A ABM tem atuado para promover espaços de formação, debate e visibilidade que contribuam para a inserção e o crescimento das mulheres na engenharia e na indústria, fortalecendo a inovação e a competitividade do país”, afirma.