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Dia Nacional do Animais: esporotricose avança e pressiona cidades, mas ciência aponta nova esperança para gatos e seus donos
Doença fúngica que mais cresce entre felinos em situação de rua já é alerta de saúde pública; enquanto casos se multiplicam, novas estratégias de tratamento começam a mudar o horizonte
Março de 2026 – O Dia Nacional dos Animais, comemorado em 14 de março, está se aproximando e a pauta que deveria ser apenas de celebração ganha contornos de urgência: a esporotricose felina, uma doença causada por um fungo do gênero Sporothrix, vem se consolidando como um dos principais desafios sanitários urbanos do país — sobretudo em áreas com grande quantidade de gatos sem acesso regular a cuidados veterinários. Além do sofrimento animal, a esporotricose felina preocupa porque é transmissível para humanos e se espalha com rapidez.
“É um grave problema de saúde pública. Para se ter uma ideia, o fungo já se tropicalizou e gerou uma espécie 100% nacional, a Sporothrix brasiliensis, que é muito mais transmissível e já está se espalhando para fora do Brasil. A esporotricose é infecciosa e agressiva. Os gatos são as principais vítimas e os potenciais transmissores. Ela causa lesões cutâneas que podem começar como pequenos caroços (nódulos) e evoluir para úlceras abertas e com secreção. Essas feridas não cicatrizam facilmente e costumam espalhar-se pelo corpo. O tratamento com antifúngico é demorado e muitas vezes não traz os resultados esperados”, explica o professor titular de medicina-veterinária da UNIP, Carlos Brunner.
No começo deste ano, o Ministério da Saúde incluiu a esporotricose humana na lista de doenças de notificação obrigatória. Já o controle animal continua sendo realizado pela vigilância sanitária de cada estado. Em São Paulo, a COVISA – Coordenadoria de Vigilância em Saúde do município – publicou, em 2024, o mapa da doença na cidade, por bairros. No total foram notificados 3.368 casos de gatos infectados pela doença, crescimento de mais de 300% em relação à 2020. Os dados de 2025 ainda não foram divulgados.
No entanto, uma técnica está trazendo esperança para no tratamento da esporotricose felina no país. Batizado de SPORO PULSE, o equipamento inédito, desenvolvido pela da startup brasileira Akko Health Devices, sob liderança do pesquisador Carlos Brunner, usa a eletroporação para matar o fungo causador da doença.
“Há muitos medicamentos no comércio, alguns funcionam bem e outros nem tanto. Infelizmente isso só vai ser descoberto depois de meses de tentativa de tratamento e há o risco de se chegar à conclusão de que foi inútil. Dessa forma houve um desperdício de tempo e de dinheiro. Nessa mesma linha, a cada dia que se prolonga o tratamento, aumenta o risco de transmissão a outros gatos e às pessoas, inclusive os responsáveis pelos gatos”, explica Brunner.
A técnica desenvolvida por Brunner exige menor número de manipulações do gato, menor custo, boa eficácia em animais resistentes à terapia convencional e redução do período de tratamento. Carlos Brunner é um dos maiores especialistas no uso de pulsos elétricos no tratamento de doenças e precursor da eletroquimioterapia no Brasil.
Custo da esporotricose no Brasil
Nelson Castanheira Júnior é um apaixonado pelos animais. Ele ficou sabendo da existência da esporotricose felina depois de observar dezenas de gatos com terríveis feridas no rosto e morrendo no condomínio onde mora na Granja Viana, em São Paulo. “Falei com a veterinária que cuidava dos meus animais e ela me explicou sobre a doença, disse que estava fora de controle”, conta.
Foi então que ele tomou uma difícil decisão: cuidar ele mesmo dos gatos doentes que rondavam a sua casa. “Muita gente não compreende um ato de solidariedade para com animais de rua. Passam a olhar para a gente como se nós fôssemos os doentes, só porque sentimos misericórdia por um animal. Mas eu enfrentei o preconceito e me sinto feliz por ter salvado muitos gatos”, desabafa.

Nelson Castanheira Júnior com seu gato de rua adotado
O custo da esporotricose no Brasil é elevado. Segundo o IPB, Instituto Pet Brasil, a população de gatos domésticos passa de 30 milhões em todo o país. Muitos destes felinos têm acesso às ruas e é justamente no ambiente livre que a doença se dissemina rapidamente. Nelson sabe bem disso. Nos últimos anos, ele recolheu e tratou mais de 15 gatos, arcou com todos os custos de medicamentos e em algumas vezes até mesmo a internação. “Só de medicamentos, cada animal consome cerca de 300 reais por mês. O tratamento leva de quatro a seis meses. Faça a conta e veja quanto isso pesa em um orçamento. Não é à toa que muitos deixam os animais morrerem”, conta.
Além do sofrimento animal, a esporotricose deixa marcas em quem tem contato direto com os bichanos infectados. Thay Ribeiro é pet sitter na capital paulista. No ano passado, ela foi chamada para ajudar um casal que tinha resgatado uma gatinha de rua. Ela estava infectada pela esporotricose. “A gatinha era um amor, chamava-se Amora. O casal ficou com medo de tratá-la e me contratou para o serviço. Ministrei antifúngicos durante um mês, enquanto procuravam algum lugar para acolher a gatinha, já que o casal não queria mais ficar com ela. Nesse meio tempo, ela me mordeu e eu contraí a doença”, conta. Infelizmente Amora não sobreviveu. Thay fez o tratamento durante meses, arcando com os custos sozinha, e hoje está curada. “Fiquei com algumas sequelas, mas hoje não tenho mais sintomas”, conta.
Esperança no tratamento da doença
O equipamento SPORO PULSE vem sendo testado há mais de um ano em universidades e em clínicas privadas e já está disponível no mercado. Foi em uma destas clínicas que Nelson Castanheira tratou um de seus gatos, chamado Gatão. “Ele ficou com muitas feridas, a doença estava comendo literamente ele. Foi então que fui apresentado ao Dr. Carlos Brunner. Foram duas sessões com o equipamento e o resultado foi incrível, o Gatão ficou curado”, conta Nelson.
A técnica atua sobre as células do gato, mas elas permanecem vivas. O segredo está em atuar diretamente no fungo. “A estrutura celular dos fungos é diferente das celulas, cujos poros se abrem e fecham. No caso do fungo, os poros se formam e não se fecham mais, e ele morre. Trabalho com eletroporação há 18 anos e vi nesta técnica a possibilidade de provocar a formação dos poros irreversíveis nos fungos, devido suas características celulares. Ou seja, matando o fungo e preservando o tecido normal do gato”, explica o prof. Brunner.
Sobre o professor Carlos Brunner
Graduado em Medicina Veterinária pela Universidade de São Paulo USP e mestre em Clínica Médica e doutor em Anatomia dos Animais Domésticos e Selvagens pela USP. Professor titular na Universidade Paulista UNIP; Membro da diretoria da ABROVET – Associação Brasileira de Oncologia Veterinária; Membro da ISEBTT - The Internacional Society for Electroporation Based Thecnologies and Treatments. Pioneiro no uso clínico de etroquimioterapia no Brasil
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