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Sonda da NASA detecta primeiro sinal de rádio em Marte associado a descargas elétricas

Registro da MAVEN revela fenômeno semelhante a raios na atmosfera marciana e abre novas perspectivas para estudos sobre a origem da vida no planeta.

01/03/2026
Sonda da NASA detecta primeiro sinal de rádio em Marte associado a descargas elétricas
Tempestades de poeira em Marte podem estar associadas a descargas elétricas, revela sonda MAVEN. - Foto: © Getty Images / iStock/Evgeny Ostroushko

Pela primeira vez, um sinal de rádio típico de descargas elétricas foi detectado em Marte pela sonda MAVEN, da NASA. A descoberta indica que o Planeta Vermelho pode registrar fenômenos semelhantes a raios, abrindo novas possibilidades para compreender sua atmosfera e processos químicos ligados à origem da vida.

A sonda MAVEN registrou em 2015, mas só agora analisou, um "assobio" — sinal de rádio característico de descargas elétricas — na atmosfera marciana. O padrão corresponde a ondas de plasma geradas quando emissões de raios atravessam a ionosfera, fenômeno semelhante ao que ocorre na Terra.

O achado reforça a hipótese de que Marte abriga descargas elétricas, mesmo com sua atmosfera extremamente seca. Na Terra, raios também podem surgir em ambientes sem vapor d'água, como nuvens de cinzas vulcânicas, sugerindo que mecanismos parecidos podem ocorrer em tempestades de poeira marcianas.

Marte é propenso a tempestades de poeira extremas e outros eventos climáticos. À esquerda, uma representação atmosférica do planeta em 26 de junho de 2001; à direita, Marte imerso em uma tempestade de areia global em 4 de setembro do mesmo ano, segundo observações do Hubble
Marte é propenso a tempestades de poeira extremas e outros eventos climáticos. À esquerda, uma representação atmosférica do planeta em 26 de junho de 2001; à direita, Marte imerso em uma tempestade de areia global em 4 de setembro do mesmo ano, segundo observações do Hubble

O sinal detectado apresenta as características clássicas de um assobio: uma onda de rádio de frequência muito baixa que se dispersa no tempo, produzindo um tom descendente quando convertida em áudio. Esse tipo de propagação depende de campos magnéticos e, embora Marte não possua um campo global, apresenta regiões de magnetismo fossilizado na crosta.

O registro ocorreu justamente sobre uma dessas regiões, a 349 quilômetros de altitude e no lado noturno do planeta — condição essencial, já que a luz solar comprime a ionosfera e impede a propagação das ondas. O evento durou 0,4 segundo e foi dez vezes mais forte que o ruído de fundo, coincidindo com previsões feitas décadas atrás.

Modelagens do campo magnético e da densidade do plasma apontaram que o sinal se ajusta ao esperado para uma descarga elétrica forte na superfície. Embora o registro pareça fraco, a energia estimada na fonte é comparável à de um raio intenso na Terra, indicando um fenômeno robusto.

A raridade da detecção se explica pela combinação improvável de fatores: geometria magnética adequada, ionosfera enfraquecida, ocorrência de um raio suficientemente forte e a passagem de uma espaçonave equipada no momento exato. Menos de 1% dos dados da MAVEN foram coletados em condições favoráveis.

Cientistas acreditam que raios podem ser mais comuns em Marte do que se imaginava, o que traz implicações importantes. Experimentos mostram que descargas elétricas podem gerar moléculas orgânicas essenciais, sugerindo que fenômenos desse tipo podem ter contribuído para processos pré-bióticos no passado marciano — uma pista valiosa para a astrobiologia.

Por Sputnik Brasil