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Mês de conscientização alerta para doença que pode surgir meses após o transplante de células tronco
No Mês Mundial de Conscientização sobre a Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH), especialista alerta para sinais que surgem após o transplante e os avanços no tratamento
São Paulo, fevereiro de 2026 - O Transplante de Células Tronco Hematopoiéticas (TCTH) costuma ser visto como o fim de uma longa batalha contra cânceres que acometem o sangue (como leucemias, linfomas e mielomas). Mas, para muitos pacientes, a recuperação traz um novo desafio: a Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH)2, uma complicação que pode surgir dias — ou até meses 3 — depois do procedimento, impactando o corpo e a qualidade de vida.
No mês em que mundialmente se busca a conscientização sobre a DECH, especialista alerta para a importância do acompanhamento após o transplante. “O cuidado não termina quando o transplante dá certo. O período pós-transplante exige atenção contínua”, afirma Celso Arrais, médico hematologista, coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Nove de Julho e professor adjunto de hematologia e hemoterapia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
O que é a DECH
A DECH ocorre após o Transplante de Células Tronco Hematopoiéticas (TCTH), quando as células imunológicas do doador (enxerto) reconhecem os tecidos do receptor (hospedeiro) como estranhos e os atacam. “Mesmo com compatibilidade total entre doador e receptor, os linfócitos T do doador podem desencadear essa reação inflamatória e iniciam uma resposta imune contra os tecidos do hospedeiro”, explica Arrais. Os dados de literatura sobre a incidência de DECHc (forma crônica da doença) apontam que a incidência de DECHc varia entre 30 e 70%3,4.
A doença pode se manifestar de forma aguda, nas primeiras semanas, ou evoluir para a forma crônica, mais comum e prolongada. “Também existem formas mistas e de sobreposição da doença. Esta complexidade clínica reforça a necessidade de ampliação da educação e do conhecimento sobre a doença entre médicos e profissionais da saúde”, afirma.
Sintomas que mudam a rotina
Na DECHc, diferentes órgãos podem ser afetados ao mesmo tempo. Alterações na pele são frequentes, mas boca, olhos, pulmões, fígado, músculos e articulações também podem ser comprometidos. Os sintomas incluem ressecamento ocular e oral, fadiga intensa, dor crônica, dificuldade respiratória e limitação de movimentos.
- Alterações na pele: manchas, endurecimento, espessamento, coceira persistente ou sensação de pele “repuxada”.
- Olhos e boca secos: ardor, sensação de areia nos olhos, visão embaçada, boca seca persistente ou dor ao se alimentar.
- Sintomas gastrointestinais: diarreia frequente, dor abdominal, dificuldade para engolir ou perda de peso sem explicação.
- Fadiga intensa e dor crônica: cansaço que não melhora com repouso e dores musculares ou articulares.
- Problemas respiratórios: falta de ar aos esforços, tosse persistente ou redução da capacidade pulmonar.
- Infecções recorrentes: episódios frequentes ou de difícil controle.
Quanto mais cedo a DECH é identificada, maiores são as chances de controlar a doença e evitar complicações. O acompanhamento regular faz parte do tratamento pós-transplante.
Diagnóstico precoce faz diferença
O diagnóstico5 é clínico e pode ser desafiador, já que os sintomas nem sempre são específicos. “Quanto mais cedo a DECH é reconhecida, maiores são as chances de controlar a doença e evitar sequelas”, afirma Arrais. O país ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de doação de medula óssea6.
O tratamento varia conforme a gravidade. Casos leves podem ser manejados com terapias locais, enquanto quadros moderados e graves exigem imunossupressão sistêmica e, quando não há resposta adequada, é possível o uso de terapias mais recentes, chamadas de drogas-alvo.
Em setembro de 2025, a Anvisa aprovou o uso de Rezurock® (belumosudil) para pacientes com DECHc a partir de 12 anos, após falha de pelo menos duas linhas de tratamento. O medicamento é a primeira e única terapia específica aprovada no Brasil para tratar a DECHc. Ele atua diretamente nos mecanismos biológicos da doença, reduzindo inflamação e fibrose de forma precisa.
Viver bem depois do transplante é possível
Apesar da gravidade, a DECH pode ser controlada. “Quando tratada de forma adequada, muitos pacientes melhoram com o tempo, reduzem os medicamentos e conseguem levar uma vida próxima do normal”, explica Arrais. Algumas sequelas, como manchas na pele ou olhos secos, podem persistir e exigem acompanhamento.
O Brasil é o terceiro maior doador de medula óssea do mundo, mas especialistas destacam que informar pacientes e familiares é essencial para melhorar o cuidado pós-transplante. “Reconhecer os sinais precocemente pode mudar o curso da doença”, conclui o médico.
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