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Ágeis e letais: analista revela revolução dos microdrones no setor de defesa e na soberania nacional

10/02/2026
Ágeis e letais: analista revela revolução dos microdrones no setor de defesa e na soberania nacional
Foto: © Sputnik / Pavel Lisitsyn

A utilização de drones no campo de batalha transformou a estratégia militar e a proteção da soberania territorial. Agora surge mais uma evolução nesse domínio: os microdrones, aeronaves não tripuladas de pequeno porte, capazes de burlar sistemas de defesa antiaérea.

Esses dispositivos destacam-se por dimensões extremamente reduzidas, podendo caber na palma da mão e, em muitos casos, pesando menos de 250 gramas. Apesar do tamanho diminuto, podem ser equipados com sensores sofisticados, ter autonomia operacional e, em alguns modelos, contar com sistemas baseados em inteligência artificial.

Mesmo minúsculos, têm potencial para causar danos comparáveis aos de drones convencionais, além de desempenhar funções de reconhecimento e espionagem.

O domínio dessa tecnologia altamente refinada tende a representar uma vantagem militar significativa para as Forças Armadas que a integrarem de forma eficaz aos seus sistemas de combate, como destaca Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e analista de organizações militares, em entrevista à Sputnik Brasil.

"Os drones que estão sendo usados atualmente têm uma capacidade de inteligência superior à que poderíamos ter há cerca de 20 anos com sistemas mais sofisticados da época. Além da miniaturização, há uma ampliação das capacidades de reconhecimento e de inteligência que esse tipo de mecanismo pode oferecer", avalia.

"Esses drones de tamanho minúsculo, como os que vemos nas mãos de soldados, têm capacidade de identificação noturna, possuem infravermelho e condições de, por meio de dispositivos de inteligência artificial, identificar alvos. Isso confere uma vantagem tática no campo de batalha aos soldados que era impensável há cerca de uma década. Quem domina essa tecnologia certamente garante uma vantagem às Forças Armadas que a dispõem", explica Modolo.

O professor também enfatiza que, devido ao baixo custo, até mesmo forças com orçamento limitado poderiam adquiri-los.

"Pelo baixo custo e pela acessibilidade desses equipamentos no mercado, mesmo Forças Armadas com dificuldades orçamentárias conseguem ter acesso a eles e, em alguns casos, igualar essa vantagem tática no campo de batalha, especialmente se os utilizarem também para infligir danos às forças adversárias mais capacitadas", avalia.

Na visão de Modolo, esse tipo de drone também democratiza o acesso de forças menores, com menos recursos, à capacidade de atacar estruturas de grandes potências.

Já para Ricardo Cabral, analista internacional, editor do canal História Militar em Debate e coautor do livro "Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas – O conflito militar que está mudando a geopolítica mundial", a consolidação dos microdrones no front dependerá sobretudo do desempenho e da qualidade dos equipamentos disponíveis à infantaria.

"A principal questão em relação aos microdrones é como serão integrados às plataformas já existentes. Acho que esse é o ponto central: como a infantaria vai usar esses microdrones?", destaca o analista.

Em termos de estratégia, Cabral observa que o dispositivo deveria estar integrado ao capacete do soldado, com um visor que lhe permitisse acompanhar em tempo real o que o microdrone capta no campo de batalha. Nesse cenário, ele acredita que o desenvolvimento de veículos não tripulados representa uma evolução tática significativa.

"Hoje em dia, não só os microdrones, mas também os drones em geral avançam junto com a guerra eletrônica. Neste momento inicial, acredito que o microdrone está mais capacitado para servir à Inteligência em missões de observação e aumentar a consciência situacional tática. Ele pode ficar inerte, observando, e até se infiltrar em quartéis-generais inimigos, algo que já altera a forma como se conduz a tática no campo de batalha", pontua.

Evolução da guerra eletrônica

A produção e o uso de microdrones refletem que a guerra eletrônica ganhou novos contornos com o aprimoramento de tecnologias militares, de espionagem e até de sabotagem contra infraestruturas estratégicas.

"A miniaturização dos sistemas, como no caso dos microdrones, certamente reflete essa evolução da guerra eletrônica, não apenas por meio de sistemas de interferência, jammers ou outros equipamentos, mas também pela miniaturização de dispositivos militares que, se dotados de autonomia na seleção de alvos, podem ser considerados robóticos. Isso complexifica ainda mais o campo de batalha", observa Modolo.

Na opinião do professor, o acesso a esses microdrones possibilita a modernização da infantaria.

"Ainda enfrentamos dificuldades para avaliar plenamente os graus e as possibilidades de uso desses dispositivos. Todos os dias surgem novas situações envolvendo drones e sua capacidade de infligir danos a equipamentos militares de grande porte, valor estratégico e custo elevado", comenta.

Além das inovações ofensivas, há avanços relevantes também no campo defensivo. A Rússia, por exemplo, já posiciona sistemas antiaéreos no contexto da operação militar especial na Ucrânia. O consórcio russo Vysokotochnye Kompleksy (Sistemas de Alta Precisão), vinculado à Rostec, desenvolveu um radar de vigilância aérea montado em picapes e outros veículos automotivos.

De acordo com Bekkhan Ozdoev, diretor industrial do conglomerado de armamentos, munições e produtos químicos especiais da corporação, o radar já está em operação na zona de conflito.

Segundo Ozdoev, o sistema é capaz de identificar drones de diversas categorias, incluindo aeronaves não tripuladas de dimensões miniaturizadas.

O diretor ressaltou ainda que a instalação se caracteriza pela mobilidade, podendo operar tanto a partir de posições improvisadas quanto em deslocamento, com paradas rápidas, o que amplia consideravelmente sua capacidade de resistência em ambientes de combate.

Além disso, o radar dispõe de modo de contrabateria, permitindo a detecção de granadas e projéteis e o fornecimento de coordenadas precisas para os sistemas de ataque.

"Toda invenção gera uma reação, uma contrarreação, uma tentativa de neutralizar a vantagem tecnológica obtida pelo adversário. Atualmente, o avanço rápido e a disponibilidade de drones no campo de batalha provocaram certo atraso, pois criar uma arma costuma ser mais ágil do que desenvolver sua contramedida", argumenta Modolo.

Conforme observa o professor, o desenvolvimento de sistemas antiaéreos já era uma realidade com o uso de descargas eletromagnéticas e interferência eletrônica. O que mudou com a intensificação e a massificação desses sistemas é que as contramedidas também geraram novas respostas no campo de batalha: os drones passaram a ser guiados por fibra ótica, o que os torna imunes à interferência eletromagnética.

"Embora seja difícil conter esses tipos de drones, já existem condições de empregar radares de vigilância montados em veículos leves, com capacidade de detectar alvos miniaturizados", conclui Modolo.

Dada a miniaturização dos drones em um cenário internacional cada vez mais turbulento representa um ponto de inflexão na arte da guerra, redefinindo os conceitos de vantagem tática, acessibilidade tecnológica e soberania nacional.

Ao democratizar capacidades de inteligência, vigilância e até de ataque, esses dispositivos miniaturizados equalizam forças no campo de batalha, mas também exigem respostas defensivas igualmente ágeis e inovadoras. O futuro da defesa, portanto, dependerá não apenas do domínio dessa tecnologia ofensiva, mas também da capacidade de integrá-la de forma sistêmica no âmbito das Forças Armadas.


Por Sputinik Brasil