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Êxodo equatoriano: 2ª onda migratória bate no muro de Washington
Mais de 90 mil equatorianos deixaram o país em 2024, número que reflete um problema sistêmico, consolidando o que especialistas chamam de uma segunda onda migratória.
O endurecimento dos controles de fronteira nos Estados Unidos e a vigência de decretos restritivos não estão na agenda bilateral, enquanto o fluxo rumo ao norte se intensifica a níveis históricos.
A migração equatoriana não é um fenômeno recente, mas sua intensidade atual acendeu o alerta de analistas e organismos internacionais. O que começou como um fluxo constante no final do século XX se transformou, após a pandemia, em uma segunda onda de mobilização massiva em busca de novas oportunidades econômicas para os migrantes.
Um século de ausências e uma nova onda
Para Jacques Ramírez, doutor em Antropologia Social pela Universidade Iberoamericana (IBERO) e docente-pesquisador na Universidade de Cuenca, o que o país vive não é um fenômeno isolado, mas o aprofundamento de uma tendência histórica que atinge novo pico, iniciada a partir de 2020.
Segundo Ramírez, a nova fase se caracteriza por números que superam os registros de décadas anteriores, evidenciando um esvaziamento populacional sem precedentes.
O advogado em Direito Constitucional e docente na Universidade Indoamérica, Marcos Ortiz, detalha a Sputnik a magnitude desse deslocamento em massa:
"Mais de 90 mil equatorianos apenas em 2024 deixaram o Equador, e em 2023 o número foi parecido. Sofremos uma onda migratória muito forte. A situação não é que eles se regularizam; processos ligados à condição irregular é o que, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, tem sido a dinâmica geral. Com a nova política da Casa Branca, houve um antes e um depois nas restrições", pontua Ortiz.
Durante o primeiro ano da segunda administração de Donald Trump, os EUA registraram a maior saída líquida de migrantes das últimas cinco décadas, segundo um relatório da Brookings Institution. O estudo aprofunda que a pressão demográfica para baixo decorrente da migração líquida negativa tem implicações importantes para a macroeconomia.
Em 2023, havia 47,8 milhões de imigrantes residindo nos Estados Unidos, segundo dados da mais recente Pesquisa da Comunidade Americana (ACS), do Departamento do Censo, retomados pelo Migration Policy Institute. Assim, esse setor representava 14,3% da população total.
'Caça a migrantes' como estratégia de medo
A atual política nos EUA aprofundou o enfoque "securitário", integrando a vigilância fronteiriça a uma política de controle interno mais rigorosa.
Ramírez alerta que a agressividade de agências como o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) ultrapassou o âmbito administrativo.
Segundo o especialista, o uso de operações em espaços sensíveis busca implementar uma estratégia de persuasão por dissuasão, em que o endurecimento das capturas serve como mecanismo para desincentivar novos fluxos migratórios por medo das consequências.
"Vemos como começam a aparecer agentes para fazer o que chamamos de 'caça a migrantes', com um nível de agressividade que chega a casas, igrejas e escolas, sem respeitar idade, sexo ou gênero. Essa estratégia busca que quem pensa em chegar não o faça por medo, aumentando as deportações em massa como efeito dissuasório", explica o antropólogo.
O especialista ressalta que essa retórica se materializou desde o primeiro dia com 18 medidas drásticas, incluindo o questionamento da 14ª Emenda sobre a nacionalidade por nascimento. Esse ambiente de perseguição é complementado por um fortalecimento operacional do ICE, que tornou o trânsito irregular uma aposta arriscada para o migrante.
O debate levantado pelos especialistas não questiona a soberania de Washington para aplicar suas leis migratórias, mas sim a quebra dos protocolos de devido processo e a desproporcionalidade nos métodos de captura.
O vazio na agenda bilateral
Apesar da gravidade do assunto, os especialistas concordam que o fenômeno da migração irregular não ocupa um lugar central na comunicação oficial entre Quito e Washington. A administração do presidente do Equador Daniel Noboa tem concentrado sua atuação externa em temas de segurança e comércio, deixando a proteção consular em um estado de assistência residual.
Além disso, Ortiz lembra que o Estado equatoriano possui obrigações legais previstas na Lei Orgânica de Mobilidade Humana, que não está conseguindo cumprir plenamente frente à pressão da Casa Branca. A análise do especialista aponta um ponto crítico: a erosão da autoridade moral do Estado equatoriano no cenário internacional.
Ao contrastar a exigência de respeito pelas sedes diplomáticas em Minneapolis com a invasão à embaixada do México em Quito, o jurista revela uma contradição que fragiliza a defesa dos migrantes. Essa "incoerência diplomática" não é apenas um dilema ético, mas um obstáculo jurídico.
Para exigir o cumprimento da Convenção de Viena no exterior, um país precisa se apresentar como guardião dessa norma, defende:
"Ecuador entra na dinâmica de pedir respeito para seu consulado em Minneapolis, mas ocorreu o que aconteceu na embaixada do México há algum tempo. Todos esses elementos fazem com que os migrantes, os mais frágeis da relação, sejam os mais afetados", alerta o jurista.
Como aponta Ortiz, o migrante é o elo mais fraco: a representação legal gratuita que o país deveria garantir se torna "residual" e simbólica, deixando milhares sem defesa real em processos de expulsão. O especialista destaca que esse vazio de proteção é reflexo da priorização de recursos pelos governos.
A análise dos especialistas sugere que a ausência de proteção consular não se explica apenas por falta de vontade política, mas por uma priorização estratégica de recursos por parte do governo. Enquanto a agenda bilateral se concentra na segurança militar e no comércio, o drama humano é deslocado para a periferia das decisões estatais.
Nesse contexto, o cidadão equatoriano enfrenta uma encruzilhada complexa: migra em busca das oportunidades que seu ambiente local não oferece, assumindo um risco que se transformou ao longo do tempo.
Por Sputinik Brasil
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