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Fevereiro Laranja chama atenção para desigualdades no diagnóstico e tratamento da leucemia no Brasil

Doença registra mais de 11,5 mil novos casos por ano no país, mas acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento ainda depende do CEP, da renda e da cor da pele

Gustavo Peña dos Santos 04/02/2026
Fevereiro Laranja chama atenção para desigualdades no diagnóstico e tratamento da leucemia no Brasil
- Foto: rawpixel.com

Fevereiro é o mês dedicado à conscientização sobre a leucemia, um grupo de cânceres do sangue que, apesar dos avanços científicos recentes, ainda expõe profundas desigualdades no sistema de saúde brasileiro. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que o Brasil deve registrar cerca de 11.540 novos casos de leucemia por ano no triênio 2023–2025, dentro de um cenário mais amplo de aproximadamente 704 mil novos casos de câncer anuais no país.

Embora os números impressionem, especialistas alertam que eles não refletem toda a realidade. Em regiões com menor infraestrutura de saúde, como o Norte e parte do Nordeste, há forte indício de subdiagnóstico, o que mascara a real dimensão da doença.

“Na prática clínica, ainda vemos muitos pacientes que chegam aos serviços especializados com a doença avançada. Nesses estágios, perdeu-se uma importante janela temporal, na qual as intervenções são menos agressivas e as chances de sucesso são maiores”, afirma Dr. Abel Costa, médico hematologista da Hemodoctor. “Leucemia é uma doença em que os dias e, às vezes, até as horas, fazem diferença”, completa.

Incidência desigual e subnotificação regional

A incidência média estimada no Brasil é de 5,67 casos por 100 mil homens e 4,50 por 100 mil mulheres, mas essa taxa varia significativamente entre as regiões. O Sudeste concentra cerca de 5.610 novos casos anuais, seguido pelo Sul, com 2.180 casos. Já o Norte registra apenas 650 casos por ano, número considerado artificialmente baixo por especialistas devido à menor oferta de hematologistas e de exames como imunofenotipagem e citogenética.

Segundo Lucyo Diniz, hematologista da Hemodoctor, o problema começa na atenção primária:

“Muitas vezes, o hemograma traz claros sinais de alerta que passam despercebidos ou não são valorizados a tempo. Isso retarda o encaminhamento para o hematologista e impacta diretamente a sobrevida.”

Esta desigualdade regional contribui para um dado preocupante: 23% dos óbitos por leucemia no Brasil ainda são classificados como ‘leucemias não especificadas’, reflexo direto da limitação diagnóstica.

Subtipos com realidades opostas

As leucemias apresentam comportamentos clínicos distintos. A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é a mais agressiva e responde por 36% das mortes por leucemia no país, com crescimento médio de 0,8% ao ano na mortalidade, especialmente entre pessoas acima de 50 anos.

Já a Leucemia Linfocítica Aguda (LLA), mais comum em crianças, pode alcançar taxas de cura superiores a 80% quando diagnosticada precocemente. No Brasil, porém, a sobrevida em cinco anos ainda gira em torno de 68%, abaixo dos padrões observados em países de alta renda.

“O que diferencia esses cenários não é falta de conhecimento médico, mas acesso. Quando o diagnóstico é feito cedo e o tratamento começa rápido, os resultados mudam radicalmente”, reforça Lucyo Diniz, hematologista da Hemodoctor.

A Leucemia Mieloide Crônica (LMC) representa um contraponto positivo, com queda anual de 3,2% na mortalidade, graças às terapias-alvo. Ainda assim, episódios recentes de desabastecimento desses medicamentos no SUS acenderam um alerta.

Diagnóstico tardio ainda é a regra

No Brasil, 58% dos pacientes oncológicos iniciam tratamento em estágio avançado, percentual que segue elevado. No caso das leucemias, sintomas iniciais inespecíficos — como fadiga, infecções recorrentes e sangramentos — somados à demora para a realização de exames básicos dificultam a identificação precoce.

“O hemograma é um exame simples, barato e amplamente disponível. O desafio é transformar dados laboratoriais em decisões clínicas mais rápidas e assertivas”, afirma Raphael Saraiva, CEO da Hemodoctor.

Tecnologia como aliada da equidade

Para Saraiva, o enfrentamento das desigualdades passa pela reorganização de fluxos e ampliação da capacidade diagnóstica do sistema.

“A leucemia escancara um problema estrutural da saúde brasileira: a distância entre o exame e a decisão clínica. Quando conseguimos apoiar o médico na leitura precoce desses sinais, reduzimos atrasos, evitamos complicações e salvamos vidas”, afirma o executivo.

Segundo ele, a discussão do Fevereiro Laranja precisa ir além da conscientização:

“Não se trata apenas de falar sobre câncer, mas de garantir que os avanços da medicina cheguem na ponta, na atenção primária, independentemente da região do país.”

Leucemia também é uma questão social

As desigualdades raciais e socioeconômicas agravam o cenário. Populações negras e indígenas tendem a receber diagnóstico mais tardio, enquanto a concentração de centros especializados no Sul e Sudeste impõe barreiras adicionais para pacientes de outras regiões.

“Quando olhamos os dados, fica claro que leucemia no Brasil não é apenas um desafio médico, é um desafio de equidade”, conclui Raphael Saraiva. “Diagnóstico precoce é política pública, é gestão e é cuidado.”

No Fevereiro Laranja, o alerta é claro: ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno é uma das formas mais eficazes de reduzir mortes evitáveis por leucemia no país.