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No Rio, ex-presidente da Comissão Europeia vai a evento com Mercadante e apoia acordo Mercosul-UE
O ex-presidente da Comissão Europeia e atual presidente do Centro de Relações Internacionais de Barcelona (CIDOB, na silga em inglês), Josep Borrell, elogiou nesta terça-feira (3) o acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado no último mês após quase três décadas de imbróglios.
Em um evento no Rio de Janeiro, na sede do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Borrell utilizou seu tempo de fala para destacar que a Europa precisa realizar uma abertura comercial para novos países e blocos. Segundo o espanhol, o acordo tem pontos positivos para os dois lados da mesa.
"A Europa precisava fazer uma abertura comercial para outros parceiros. Se os EUA tiverem dificuldades comerciais, a lógica é buscar outros sócios e isso certamente explicou finalmente o acordo com o Mercosul. [...] Em todo o negócio comercial há setores que têm uma vantagem comparativa e de uso, e outros que têm uma desvantagem comparativa e têm que se adaptar a uma maior competência."
À época da assinatura, agricultores, em especial os franceses, protestaram contra a parceria com o Mercosul pelo temor que insumos sul-americanos fossem predatórios às produções europeias.
Outro ponto debatido por Borrell foi a desindustrialização europeia e o processo de cadeia de produção. Segundo o político, a construção da globalização econômica europeia deixou o continente com escassez de itens básicos, como medicamentos, na maior crise da história recente, a pandemia do coronavirus.
"A globalização que deixamos para trás era regida por uma palavra: competitividade. É preciso ser competitivo. E para ser competitivo, é preciso criar cadeias de valor muito longas. [...] Quando a crise da COVID-19 chegou, descobrimos na Europa que não produzíamos um único grama de paracetamol. As pessoas estavam morrendo, e nós dizíamos para elas comprarem paracetamol para que pudessem sobreviver, e não havia paracetamol."
Borrell também destacou que a América Latina é a "reserva do futuro", ao citar a grande concentração de minerais raros necessários para o desenvolvimento de soluções vitais para a transição energética, como cobre e lítio. Para o espanhol, no entanto, é necessário haver um processo justo e igualitário entre nações desenvolvidas e emergentes.
"Quando você conversa com o líder de um país em desenvolvimento sobre mudanças climáticas, onde as pessoas lutam para sobreviver ou para garantir o sustento nos próximos 20 dias, e você fala sobre um problema que ocorrerá daqui a 20 anos, você percebe que estamos usando duas escalas de tempo diferentes. Você está preocupado com o que acontecerá daqui a 20 anos; eu estou preocupado com o que acontecerá daqui a 20 dias, porque preciso alimentar meu povo."
Mercadante cita 'atropelamento' asiático
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, que também participou do evento, comentou sobre a desindustrialização do Ocidente e destacou um "atropelamento" asiático no setor, com destaque para a China nos setores de alta tecnologia.
Na visão de Mercadante, o mundo vive a "erosão do multilateralismo" em meio a uma transição muito acelerada diante de um cenário de instabilidade e de relações "unilaterais autoritárias, especialmente em relação aos Estados Unidos". É neste contexto em que a Ásia prosperou nas questões industriais.
"É inegável que nesses 40 anos do chamado Consenso de Washington — o fim da história do Fukuyama e de uma plataforma neoliberal que inspirou o Ocidente —, o Ocidente viveu um processo de desindustrialização, de perda de dinamismo econômico, de protagonismo tecnológico e foi atropelado, especialmente pela China, mas pela Ásia com uma relação Estado-mercado de outra qualidade."
Apesar de enxergar um momento de fragilidade do multilateralismo, Mercadante defendeu a reforma de instituições globais e disse que o Sul Global deve ser a peça principal nesta equação.
"O multilateralismo é uma exigência, uma dimensão essencial para os países do Sul Global. E isso não virá do Norte para o Sul. O Sul Global é que tem que defender e reconstruir o multilateralismo como um valor essencial, porque é ele que será vítima e está sendo dessas ações unilaterais autoritárias que nós estamos enfrentando."
Sobre o tema do seminário no BNDES, que discutia os desafios para um desenvolvimento sustentável para a América Latina, o presidente do banco declarou que é preciso pensar grande e atuar ao lado de todos os governos, independente do viés ideológico.
"É verdade que a extrema-direita está muito presente em alguns momentos, mas a sociedade é muito mais complexa. Nós temos empresários, nós temos intelectuais, nós temos as universidades, mas temos que manter as pontes e nos aproximar independente das diferenças políticas e ideológicas que são passageiras."
Por Sputinik Brasil
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