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Uruguai continua apostando na China apesar dos alertas dos EUA, dizem especialistas

03/02/2026
Uruguai continua apostando na China apesar dos alertas dos EUA, dizem especialistas
Foto: © Foto / Camilo dos Santos/ Presidência do Uruguai

O presidente uruguaio, Yamandú Orsi, chegou à China liderando uma delegação de mais de 150 pessoas para fortalecer os laços com o gigante asiático, principal parceiro comercial do país. Analistas disseram à Sputnik que o relacionamento com a China é fundamental para Orsi, apesar de alguns gestos enviados por Washington.

O presidente Orsi se reunirá com seu homólogo chinês, Xi Jinping, nesta terça-feira (3), em sua primeira visita à China desde que assumiu o cargo, dando continuidade ao que se tornou uma tradição para os sucessivos presidentes do país sul-americano.

Orsi partiu para a China liderando uma delegação de aproximadamente 150 pessoas. Além do ministro das Relações Exteriores, Mario Lubetkin, e dos ministros da Pecuária, Alfredo Fratti, e da Indústria, Fernanda Cardona, dezenas de autoridades governamentais e um grande contingente de líderes empresariais e representantes sindicais viajaram para o Uruguai.

Segundo o governo uruguaio, durante o encontro de Orsi com Xi Jinping, os dois governos vão assinar aproximadamente 30 acordos comerciais e de cooperação, incluindo cooperação técnica e científica, além do Acordo de Parceria Estratégica que o Uruguai mantém com o gigante asiático desde 2023.

Acordo de Livre Comércio no horizonte?

Em entrevista à Sputnik, Nicolás Pose, especialista uruguaio em Economia Política Internacional, sugeriu que a visita de Orsi poderia ajudar o país sul-americano a avançar em "acordos setoriais" que, por exemplo, facilitariam as aprovações sanitárias para exportações de alimentos para a China, um componente-chave do comércio bilateral.

De acordo com dados oficiais, o Uruguai exportou um total de US$ 3,4 bilhões (cerca de R$ 17,88 bilhões) para a China em 2025, valor que representa 26% do total das exportações do país e um aumento de 12% em relação a 2024. Embora a carne bovina continue sendo o principal produto das exportações uruguaias para a China, o mercado chinês agora responde por 86% das exportações de soja do país e é atualmente o principal comprador de celulose produzida localmente.

Apesar do ritmo acelerado do comércio bilateral entre os dois países, a possibilidade de um Acordo de Livre Comércio — explorada por presidentes uruguaios anteriores, mas sem sucesso devido à incapacidade do Uruguai de obter a aprovação de seus parceiros do Mercosul — mostra sinais de ter perdido força.

"Ao que tudo indica, a posição da China é que, se o Uruguai não receber uma aprovação mais explícita do Brasil, a China prefere não prosseguir com um Acordo de Livre Comércio", observou o analista.

Consultado por esta publicação, o economista uruguaio Gabriel Papa concordou que a busca por um acordo de livre comércio "não está na agenda do governo Orsi", embora o país sul-americano ainda tenha a oportunidade de "promover uma agenda bilateral ampla e profunda" com o objetivo de "expandir a cesta de bens e serviços" que o Uruguai vende para a China, facilitando a entrada de produtos lácteos e até mesmo promovendo a venda de alguns serviços tecnológicos.

De acordo com Papa, o Uruguai também tem potencial para se beneficiar da cooperação no setor financeiro, já que o país sul-americano é membro do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) desde 2020, entidade que pode ser fundamental para projetos de infraestrutura no Uruguai.

China, um parceiro fundamental

Ambos os analistas concordam que o Uruguai mantém sua relação com a China como uma "política de Estado" desde que os dois países estabeleceram relações diplomáticas em 1988, mesmo com as mudanças de governo. Assim, a visita de Orsi complementa as realizadas nas últimas décadas por antecessores como Luis Lacalle Pou (2020-2025), José Mujica (2010-2015) e Tabaré Vázquez (2005-2010 e 2015-2020).

"A política externa do Uruguai reflete a continuidade de uma política de Estado que busca aprofundar os laços com a China desde a década de 1980", enfatizou Pose. Esse esforço permitiu que o gigante asiático se tornasse o principal parceiro comercial do Uruguai desde 2013 e um dos principais fornecedores de tecnologias de mobilidade elétrica para o país.

No entanto, analistas reconhecem que a visita de Orsi coloca essa relação histórica em foco dentro de um "novo contexto geopolítico", no qual as tensões comerciais entre a China e os EUA adicionam complexidade à busca por laços mais profundos entre Pequim e os países latino-americanos.

De fato, a Embaixada dos EUA no Uruguai admitiu que está "monitorando de perto" a viagem de Orsi à China, segundo uma fonte da missão diplomática que falou ao semanário uruguaio Búsqueda. De acordo com a fonte, a embaixada permanece preocupada com as supostas "práticas de vigilância e ameaças à proteção de dados" que o gigante asiático possa realizar no Uruguai.

"Esta visita ocorre em um novo contexto geopolítico no qual os EUA estão propondo explicitamente essa ideia de uma esfera de influência na América Latina, e isso representa um desafio para países pequenos como o Uruguai, que precisam administrar como manter esses laços econômicos com uma potência como a China sem confrontos com uma potência regional", afirmou Pose.

A este respeito, o analista enfatizou que o Uruguai deve "ser muito cauteloso" ao apresentar os resultados de sua viagem à China, para evitar potenciais consequências negativas em seu relacionamento com os EUA. Aliás, a nação latino-americana foi recentemente incluída por Washington em uma lista de países para os quais suspendeu os procedimentos de visto de imigração.

Papa, por sua vez, acredita que o atual cenário global levou a uma "fragmentação geoeconômica" que está impulsionando muitos países a tentar "diversificar" suas relações internacionais, buscando menor dependência de potências específicas. Nesse sentido, citou como exemplos mais claros as visitas do primeiro-ministro canadense Mark Carney e do primeiro-ministro britânico Keir Starmer a Pequim para se encontrarem com Xi Jinping, ambas em janeiro de 2026.

Nesse contexto, o analista considerou que o Uruguai deveria aproveitar a experiência adquirida em seu relacionamento com a China.

Papa, por sua vez, acredita que o Uruguai deve aproveitar a experiência adquirida em seu relacionamento com a China. "A relação com a China é uma questão de política de Estado para o Uruguai. O país tem uma história, instituições e liderança que lhe permitem gerir as tensões que possam surgir com os EUA, embora deva saber em que áreas pode aprofundar a relação e em que não pode", afirmou o economista.

Nesse sentido, ele reafirmou que manter a China como um parceiro fundamental é crucial para a política externa de Orsi, embora o governo uruguaio mantenha "uma avaliação constante" de como as tensões entre Pequim e Washington podem influenciá-la.

Pose, por sua vez, enfatizou que o país continua relevante para o gigante asiático por fazer parte da América do Sul, uma região vital para os interesses do país asiático, especialmente devido à complementaridade de suas economias. "Nesse contexto, em que os EUA querem estabelecer esferas de influência, a China busca preservar suas relações com os países latino-americanos que estejam dispostos a fazê-lo, e essas cúpulas políticas são um mecanismo para isso", acrescentou.


Por Sputinik Brasil