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Como o México perdeu metade de seu território para os Estados Unidos

Especialista analisa a guerra de 1846-1848, o Tratado de Guadalupe Hidalgo e as consequências para a relação entre México e EUA.

Por Sputnik Brasil 03/02/2026
Como o México perdeu metade de seu território para os Estados Unidos
Mapa ilustra a perda de mais da metade do território mexicano para os EUA após o Tratado de Guadalupe Hidalgo. - Foto: © AP Photo / Marco Ugarte

Em paralelo ao slogan "Make America Great Again", popularizado pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, surgiu o provocativo lema "Make America México Again". A frase relembra o passado de estados como Califórnia, Arizona e Texas, que já integraram o território mexicano.

Neste 2 de fevereiro, completam-se 177 anos da assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo, acordo que resultou na perda de cerca de 55% do território mexicano para os Estados Unidos, após uma intervenção militar liderada por Washington.

Em entrevista à Sputnik, Alfredo Ávila Rueda, doutor em História pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), analisa esse episódio marcante da história mexicana, suas implicações ao longo dos anos e o contexto histórico, político e social atual entre as duas nações.

'Foi uma guerra de conquista'

O conflito entre México e Estados Unidos teve início em 1846 e se estendeu até 1848. Apesar das justificativas apresentadas por Washington, o especialista destaca que o objetivo central era a expansão territorial.

"Trata-se de uma guerra basicamente de conquista; ou seja, há, claro, um monte de desculpas, um monte de argumentos, mas trata-se basicamente disso", explicou. "Os Estados Unidos, desde sua independência, buscavam obter mais recursos naturais para explorá-los, fundamentalmente terras rumo ao oeste, as antigas colônias. O problema é que essas terras tinham dono. Eram de comunidades nativas, de comunidades indígenas [...]"

Segundo registros históricos, o México recebeu cerca de US$ 15 milhões (aproximadamente R$ 79 milhões) pelos territórios da Califórnia, Novo México, Arizona, Texas, Nevada, Utah e partes do Colorado e Wyoming.

O valor, conforme aponta o historiador, teve caráter mais simbólico, servindo para que os Estados Unidos "lavassem as mãos diante de um fato que aqui e em qualquer lugar se chama conquista".

Além disso, a quantia não foi integralmente destinada ao governo mexicano, já que boa parte foi utilizada para quitar reivindicações de cidadãos estadunidenses contra o México durante o período do conflito.

Um tratado determinante

O professor e pesquisador da UNAM explica que o tratado não foi relevante apenas em seu contexto imediato, mas também moldou as relações futuras entre os dois países, especialmente em questões fronteiriças.

Ávila Rueda ressalta que, no documento, uma das graves falhas das autoridades mexicanas foi delegar aos Estados Unidos a vigilância da fronteira, tema que permanece sensível até hoje.

"Na prática, o México estava renunciando ao exercício de sua soberania no controle da fronteira [...] Os Estados Unidos são um país tremendamente rico, em grande medida, por conta de sua impressionante produção agrícola, viabilizada pelos recursos naturais conquistados. Era isso que buscavam desde a independência: adquirir terras que lhes geraram enorme riqueza", afirmou.

O episódio também trouxe implicações sociais. Enquanto muitos consideram que o território foi tomado à força pelos EUA, o discurso neoliberal estadunidense conquistou parte significativa da sociedade mexicana:

"Acho que, se em algo o discurso neoliberal teve êxito, sobretudo a partir da década de 1990, foi em gerar uma enorme admiração pelos Estados Unidos em muitos setores da sociedade mexicana, particularmente nas classes médias", opinou Ávila Rueda.