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França votará contra o acordo com o Mercosul, anuncia Macron

08/01/2026
França votará contra o acordo com o Mercosul, anuncia Macron
Foto: © Sputnik / Sergey Guneev / Acessar o banco de imagens

O presidente da França, Emmanuel Macron, informou nesta quinta-feira (8), por meio das redes sociais, sobre a decisão e afirmou que os benefícios econômicos do acordo "serão limitados para o crescimento francês e europeu".

"Não justifica expor setores agrícolas sensíveis que são essenciais para a nossa soberania alimentar. Desde o anúncio de que as negociações terminariam em dezembro de 2024, tenho lutado incansavelmente por um acordo mais justo que proteja nossos agricultores", escreveu no X.

O setor agrário francês permaneceu mobilizado durante todo o ano de 2025, com protestos e bloqueios em todo o país, exigindo que o Executivo não ceda e rejeite o acordo para proteger a produção local.

No fim de dezembro, o presidente brasileiro Lula da Silva afirmou que "não haverá possibilidade de a França, isolada, impedir a assinatura do acordo". O mandatário brasileiro deu essas declarações na cúpula do Mercosul realizada em Foz do Iguaçu.

Novas medidas anunciadas pela França e a confirmação de sua posição contrária apenas "pioraram" as negociações para um acordo entre a União Europeia e o Mercosul, afirmou à Sputnik o analista Héctor Sosa Gennaro.

O especialista disse que as salvaguardas europeias representam um obstáculo "grave" para os produtores sul-americanos e defendeu que a região passe a olhar mais para a Ásia.

A poucos dias de a Comissão Europeia retomar o processo para tentar aprovar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, a postura da França volta a afastar as possibilidades de que os dois blocos concretizem as negociações iniciadas há mais de duas décadas.

Em meio ao impasse que a própria Comissão Europeia havia solicitado para aproximar as partes após não conseguir assinar o acordo na cúpula do Mercosul em dezembro, o governo francês anunciou a suspensão da importação de produtos agrícolas que tenham sido tratados com cinco substâncias — um herbicida e quatro fungicidas — que são proibidos na Europa.

Embora a medida se aplique a produtos de todas as origens, ela afeta principalmente produtos sul-americanos exportados para a França, como batatas, abacates, laranjas, limões, soja e trigo, entre outros.

O especialista considerou que a última medida adotada pela França evidencia "um problema grave que os países europeus têm" como consequência das "limitações ambientais" que eles próprios se impuseram e que agora pretendem fazer valer para os produtos do Mercosul. Nesse sentido, avaliou positivamente o fato de o Mercosul "ter se mantido firme" e poder continuar produzindo sem as exigências estabelecidas pelos países europeus.

De qualquer forma, Sosa Gennaro advertiu que os problemas do acordo entre o Mercosul e a UE não se limitam apenas aos protestos franceses, pois, mesmo que seja aprovado, as sucessivas ações da Comissão Europeia para evitar a rejeição de seus agricultores transformaram o tratado comercial em uma plataforma muito menos atraente e confiável do que se havia imaginado.

Um acordo "demasiado incerto" para o Mercosul

O analista referiu-se, em particular, às "salvaguardas" introduzidas pela Europa para contemplar os produtores agrícolas, reservando-se o direito de suspender unilateralmente as importações provenientes do Mercosul caso o bloco considere que os envios estejam prejudicando a produção europeia.

Sosa Gennaro recordou que o sistema de salvaguardas que seria aprovado junto com o acordo permite à Europa exercer "um controle das importações de modo que os produtos do Mercosul não inundem o mercado europeu". Esse mecanismo, além disso, seria implementado de forma "unilateral" por parte da Europa, sem consulta aos países sul-americanos.

O protocolo acordado pelos europeus indica que a comissão encarregada de analisar eventuais denúncias terá um prazo de até 21 dias para investigar antes de adotar uma decisão.

Embora esse prazo possa parecer razoável no papel para os europeus, poderia ser fatal para os carregamentos de alimentos enviados pelos produtores do Mercosul, que teriam suas cargas retidas durante esse período. "O que fazem os produtores com as toneladas de mercadoria que enviaram ou com os pedidos que já receberam nesse meio-tempo?", exemplificou.

"Em nível comercial, é um risco grande demais. Você tem seus pedidos e seus níveis de produção, e tudo pode ser suspenso de um dia para o outro. Além disso, são mercadorias perecíveis, que não podem ficar armazenadas em um depósito esperando que surjam novos mercados", concluiu Sosa Gennaro.

O analista colocou em dúvida que a Europa esteja pronta para assinar o acordo na hipotética data de 12 de janeiro e ressaltou que, mesmo que isso ocorresse, tratar-se-ia de um acordo “demasiado incerto” para a contraparte sul-americana. “Não se pode assinar um tratado com tantas limitações e, até hoje, a situação só piorou”, afirmou.

Diante desse cenário, o analista avaliou positivamente a intenção do governo do Paraguai — que exercerá a presidência pro tempore do Mercosul até julho de 2026 — de concentrar esforços na busca por novos mercados, em vez de continuar insistindo com a Europa.

O especialista enfatizou a importância de apostar em mercados como Índia, Vietnã, Tailândia ou Camboja, que "exigem pouco e compram muito".


Por Sputinik Brasil