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A geopolítica e a IA estão absolutamente entrelaçadas, diz especialista

Sputinik Brasil 01/01/2026
A geopolítica e a IA estão absolutamente entrelaçadas, diz especialista
Foto: © AP Photo / Andy Wong

O Mundioka ouviu especialistas sobre perspectivas para 2026 de como será o cenário da geopolítica, se a competição entre EUA e China se intensificará e como a chave para ganhar será o desenvolvimento de IAs.

Enquanto deixamos para trás um ano marcado por reconfigurações estratégicas profundas, 2026 surge como um período de testes para a ordem internacional. As disputas no Leste da Ásia ganham novos contornos, com tensões se agravando na ilha de Taiwan após os Estados Unidos enviarem armamentos apesar dos protestos do governo chinês.

Ao mesmo tempo, a península coreana permanece como um dos pontos mais sensíveis do sistema internacional, com incertezas sobre dissuasão, diálogo e o risco permanente de escaladas inesperadas entre Coreia do Norte e do Sul.

No campo econômico-tecnológico, os semicondutores seguem no centro da disputa global, expondo a dependência das cadeias produtivas, a corrida por autonomia industrial e o uso da tecnologia como instrumento geopolítico. Esse cenário se reflete também nos fóruns multilaterais, como o G20, que enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de coordenação em meio a ausências, tensões políticas e à dificuldade de representar de forma equilibrada o Sul Global em um mundo cada vez mais fragmentado.

Já no Oriente Médio, a instabilidade continua sendo uma constante, ainda com a presença de tropas israelenses em Gaza, hostilidades entre Israel e Irã, sem contar como isso afeta cadeias de produção de petróleo na região. Na Europa, governos fragilizados, economias em desaceleração e crises de liderança — como o desgaste político na França e em outros países centrais — levantam dúvidas sobre o futuro do projeto europeu e sua capacidade de atuar como ator relevante em um cenário global cada vez mais competitivo e imprevisível.

No Mundioka desta quinta-feira (1º), podcast da Sputnik Brasil, analisamos com a ajuda de especialistas esses e outros pontos cruciais que moldam o cenário geopolítico logo no início de 2026: quais riscos crescem, onde surgem oportunidades e como os principais atores globais tendem a se comportar num contexto de incertezas, rivalidades e realinhamentos geopolíticos.

O episódio contou com a análise de Demetrius Pereira, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para Pereira, o mundo está caminhando para uma bipolaridade entre EUA e China, apesar de acreditar que o mundo ainda está vivendo na "Pax Americana" com a China não tão logo atrás na competição.

"Apesar disso, a China é, ainda, em certa proporção, um país em desenvolvimento. Então, para muitos analistas, ela ainda está ali na semi-periferia, mas ela vem caminhando em direção ao centro", explica o professor. "Especialmente porque a China, apesar de estar se industrializando, ainda também depende muito de matérias-primas, não tem alguns dados iguais aos de países desenvolvidos como o PIB per capita, por exemplo." Contudo, ele ressalta que o eixo de poder mundial pode estar se deslocando para a Ásia.

Pereira cita a demografia da China — aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas — o fato de o país ser a segunda maior economia do mundo e a questão política, como sua posição no BRICS e outros países asiáticos também despontando, como motivos para a importância da Ásia nas relações internacionais.

Essa competição se traduz também na tecnologia, segundo Thomas Bellini Freitas, advogado, mestre e doutorando em direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisador visitante na Eberhard Karls Universität Tübingen, na Alemanha, na área de direito público e inteligência artificial e autor do livro "Inteligência Artificial e responsabilidade humana", que pontua que o desenvolvimento de IAs por países também é uma questão de soberania nacional.

Bellini lembra como a DeepSeek, a ferramenta de IA chinesa, reduziu drasticamente os custos sistêmicos de formar um modelo de linguagem e virou de repente competidora do ChatGPT, da OpenAI. Ao se apresentar como concorrente direta da versão norte-americana, a ferramenta reforça a estratégia chinesa de buscar autonomia em tecnologias críticas, driblando restrições, sanções e controles de exportação de semicondutores.

"Então, vemos o Brasil, por exemplo, lançando recentemente o SoberanIA Vemos a Índia lançando India AI, também uma espécie de portal com vários sistemas de IA. Sem dúvida alguma, a inteligência artificial faz parte da soberania de um país, porque é com ela que um Estado, uma nação consegue reunir dados, consegue desenvolver aplicações nas mais distintas searas da economia, como a saúde, a agricultura e várias outras, transportes, veículos autônomos. A IA, sem dúvida alguma, faz parte da soberania de qualquer país."

A disputa global por semicondutores se intensificou em 2025, com a indústria complexa das IAs influenciando as relações geopolíticas neste ano. Como explica Bellini, essa cadeia é caracterizada por duas vertentes: pela indústria de semicondutores, que requerem enormes quantidades de água e energia, e a indústria de minérios para fabricação de chips, as conhecidas "Terras Raras". Bellini menciona também os avanços na produção de chips e como isso se reflete nessa competição entre China e Estados Unidos.

"O ponto é: atualmente a geopolítica e a IA estão absolutamente entrelaçadas. Uma e outra não podem ser vistas de maneira apartada. E aí entram a fabricação dos chips, dos semicondutores, dos data centers, os centros de dados que estão se espalhando pelo mundo e que requerem uma grande quantidade de energia e de água, além do próprio acesso à matéria-prima fundamental para toda essa estrutura."

Assim como as redes sociais, as ferramentas de Inteligência Artificial podem ser usadas como uma forma de controle da sociedade, como Bellini pontua. O especialista aponta três meios de como lidar com IA: a corrente norte-americana, que defende a desregularização em prol da inovação; a europeia, que já possui um regulamento para seu uso, mas apenas entre membros da UE e ainda espera implementação; e a chinesa, que tem defendido a criação de uma Organização Mundial para a Cooperação da IA (WAICO, a sigla em inglês).

"A ideia seria justamente formar uma organização internacional para cooperar em relação à IA. São três abordagens distintas, cada uma com seus argumentos, e que, neste momento, estão justamente em conflito."

Bellini também vê a iniciativa chinesa como uma atitude ativa do país em se estabelecer como líder do Sul Global.