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Economia verde pode ser trunfo estratégico para América Latina, avaliam especialistas
Com abundância de recursos naturais e matriz renovável, região tem potencial para liderar transformação energética global, mas enfrenta desafios de financiamento e compromisso político.
A transição energética tornou-se uma pauta indispensável, equiparando-se em importância à agenda econômica. Segundo relatório da Bloomberg, a América Latina deve adicionar 26 GW de nova capacidade em energia solar e eólica nos próximos anos, consolidando o avanço da chamada economia verde na região.
O Brasil destaca-se no cenário internacional por sua matriz energética majoritariamente renovável: 88% da energia do país provém de fontes limpas, como hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa. Dados da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) apontam ainda que o Brasil possui um dos menores custos de geração de energia renovável do mundo, com o preço médio da energia eólica onshore em US$ 30 por megawatt-hora (MWh), valor 32% inferior à média global.
Em episódio recente do Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, o potencial latino-americano em energias renováveis foi debatido com Pamela Kenne, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Kenne, especialista em Sociologia Econômica, destaca que a disponibilidade de recursos naturais já coloca a América Latina em uma nova posição geopolítica internacional, especialmente quando comparada a regiões como América do Norte e Europa.
"Na Alemanha, por exemplo, o acesso per capita a recursos hídricos é mais restrito. Muitas tecnologias, como o hidrogênio verde, exigem maior uso desse recurso, o que favorece países latino-americanos", explica Kenne.
"Aqui é possível produzir novos produtos rotulados como verdes, pois são originados de fontes renováveis. Economias como a China, embora líderes tecnológicos, ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis, como carvão, ao contrário da América Latina."
Kenne também ressalta o avanço tecnológico brasileiro em energia eólica e o potencial do país para se tornar protagonista global no setor, embora reconheça desafios ligados à dependência da agropecuária e questões territoriais. Para ela, o Brasil pode se afirmar internacionalmente se avançar em planos de transição energética, descarbonização da indústria e investimentos em tecnologia para o setor.
O podcast também ouviu Ricardo Luigi, geógrafo internacionalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Para Luigi, o potencial "trunfo geopolítico" da América Latina depende do compromisso dos países com a transição energética e da existência de financiamento externo adequado.
Luigi lembra que a COP30 destacou o tema do financiamento, mas alerta para a necessidade de estruturação dos países da região. "Os investimentos em transição energética na América do Sul representam apenas 2,5% do total mundial. Estudos indicam que, para atingir as metas até 2050, seria necessário multiplicar por dez os volumes atuais de investimento", afirma o professor.
"De onde virão esses recursos? Como se dará a transição energética? Quem serão os parceiros? São questões diretamente ligadas à geopolítica global."
O professor acrescenta que a economia verde pode transformar não só a matriz energética, mas também a cultura, estimulando a percepção de que o meio ambiente é fundamental para o desenvolvimento econômico. "Se aumentarmos os investimentos na transição energética até 2050, o PIB da região pode crescer até 1,1 ponto percentual. A economia verde oferece, de fato, amplas oportunidades de desenvolvimento para a América Latina", conclui Luigi.
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