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As obras favoritas dos seguranças de cinco dos maiores museus do mundo
Funcionários das instituições desenvolveram uma ligação profunda com trabalhos de mestres como Monet, Picasso e Van Gogh
De manhãzinha, pouco antes de abrir as portas, os museus de arte ao redor do mundo já aguardam os visitantes. Nas galerias e corredores lotados de retratos, pinturas, esculturas e estátuas, os seguranças uniformizados, discretos, assumem suas posições. Confinados ali por longos períodos, os guardas acabam desenvolvendo uma relação íntima com os artistas e suas obras. Em reflexão silenciosa, com tempo para analisar as técnicas, o nível de habilidade e as emoções que provocam, eles elegem suas pinturas e objetos favoritos, que nem sempre correspondem aos mais famosos e mais exuberantes do acervo.
Pedimos a cinco profissionais de cinco das mais renomadas instituições internacionais que revelassem qual é sua obra favorita e por quê. Nelas, eles descobriram significados profundos e você também pode fazer o mesmo.
1. Nova York – Museu Metropolitano de Arte (MET)
Emilie Lemakis: 'Figura sentada'
Trabalho no MET há 29 anos; nunca nem procurei outro emprego na vida. Ou seja, olho para a escultura africana "Figura sentada" há muito, muito tempo. É do século XIII, dá a impressão de ser masculina; é muito poderosa e poética, e tem marcas nas costas; parece estar passando por alguma aflição. De certa forma, fala comigo, e me diz: "Sobrevivi a tudo que me foi infligido; superei a dor, que agora só me enfeita." É tão antigo e sobreviveu, mesmo estando aqui no museu.
Ser segurança implica ter um emprego ao qual você pode se dedicar, mas que não lhe consome toda a vida, nem lhe rouba a alma. Você tira o uniforme, sai e vai fazer suas coisas. Acho que muita gente que trabalha aqui quer só ganhar um salário decente e viver cercada por obras de arte; é uma coisa que atrai o pessoal criativo. Eu mesma faço arte inspirada no meu trabalho. Temos uma feira artística para os funcionários, e crio peças relacionadas ao museu. Uma vez, recolhi um monte de recibinhos amarelos – que os visitantes que chegam mais tarde recebem – para fazer um avião de papel gigante.
2. Málaga, Espanha – Museu Picasso
Auxi Roca: 'Mulher com braços levantados', de Pablo Picasso
Sempre digo que ninguém é obrigado a gostar de Picasso, mas não se pode negar que foi um artista revolucionário. É isso que adoro nele – a disposição em violar as regras. Fez uma revolução completa no conceito de arte.
Em "Mulher com braços levantados", ele misturou areia nas tintas para criar uma textura especial. Acho que esse foi um período em que se sentia muito livre. O estilo é profundamente pessoal. Dá para ver bem a influência da arte africana; amo as cores vibrantes, as emoções, talvez por ser uma pessoa muito interessada nelas. Se pudesse voltar no tempo, talvez tivesse estudado outra coisa, me formado em psicologia. Quando estou no museu, procuro relacionar esse meu interesse em terapia e nas emoções com a arte que vejo ali.
Às vezes, entra alguém meio preocupado porque não sabe nada de arte, e digo: "Mas você sente! Não é preciso conhecer arte, e sim senti-la." Acho que com Picasso é assim; não é difícil reconhecer sua personalidade em suas pinturas. Pensamos nele como artista, mas o vejo como pessoa, exatamente como eu ou você.
3. Londres – Museu Victoria & Albert
Eleanor George: 'Centrepiece', de Alfred Gilbert
"Centrepiece", de Alfred Gilbert, foi um presente à rainha Vitória por ocasião do Jubileu de Ouro. É uma peça fascinante – não só por causa da forma como foi montada, mas também por revelar tanta coisa sobre a vida do artista. Dá para ver que ele é inglês.
É possível conhecer o artista por meio de sua obra, como às vezes também se enxergar na vida dele, mesmo que tenha sido em uma época completamente diferente. É como descobrir alguém e perceber que é uma pessoa como você, como todas as outras do mundo, seja em um pequeno vaso de seis mil anos, seja em uma tela que foi feita ontem. Acho que há algo muito belo nessa ligação atemporal, sem limites, resultante da paixão e da criatividade.
Busco a arte em todos os aspectos da minha vida. Na verdade, estudei belas artes e me formei durante o período da crise econômica mundial, em 2010, quando era complicado conseguir emprego, tentar sobreviver. Trabalhar no V & A foi a realização de um sonho, porque finalmente estou em uma posição que complementa meu objetivo de vida, que é aprender o máximo possível, inspirar-me o máximo possível e desenvolver uma relação íntima com a arte. Ver a obra de milhares de artistas representada aqui é um lembrete da própria existência: de que vale a pena ser criativo, independentemente das pressões do dia a dia.
4. Paris – Museu d'Orsay
Fan He: 'Nenúfares azuis', de Claude Monet
A arte é o que mais amo no mundo. Sou chinesa, e vim para Paris em 2009 para estudar belas artes. Trabalhava com design gráfico, mas, como era muito estressante, pedi demissão. Um amigo meu, que é artista, sugeriu que eu tentasse me empregar em um museu, assim eu poderia viver cercada de arte.
Claude Monet é meu artista favorito, e a pintura dele de que mais gosto é "Nenúfares azuis" – da série "Nenúfares", a mais famosa. Era obcecado por eles. Conseguiu registrar todo o charme da água e a relação entre ela e as flores com um estilo e uma técnica muito próprios. Gosto muito de estar na natureza, por isso suas flores e o uso que fazia das cores me atraem muito. A forma como os tons mudam de acordo com a luz é impressionante.
Trabalho aqui há quatro anos, e sempre fico muito feliz em ampliar a experiência dos visitantes quando posso. É meu museu favorito da vida.
5. Amsterdã – Museu Van Gogh
Mohammed Boukhrouf: 'Os comedores de batata', de Vincent van Gogh
Sempre gostei muito de desenhar, desde que tinha quatro anos. Aos 12, sofri um acidente, não podia mais brincar, jogar bola ou correr – até andar era difícil. Fiquei assim dois anos. Por isso, eu me refugiava na biblioteca, e foi nos livros antigos de história que descobri as pinturas de Rembrandt e outros artistas do mesmo período. Até chegar ao impressionismo e me apaixonar. O uso das tintas, as cores... me identifiquei com tudo.
Graças a "Os comedores de batata" conheci Van Gogh. Foi a pintura que me fez mergulhar no pós-impressionismo. Ele tinha um estilo completamente diferente do dos outros artistas do movimento. Assim que acabavam as aulas, eu ia para a biblioteca, pegava livros e levava para casa para tentar reproduzir suas pinturas. Era onde eu me via sozinho; aquilo se resumia a praticamente todo o meu mundo. Imaginava que também me tornaria pintor, mas meu pai não queria saber de nada disso.
Quando comecei a trabalhar aqui, há um ano e meio, meu interesse pela arte ganhou nova vida. Vincent van Gogh é como se fosse um amigo de infância; sua história, suas lutas me emocionam. Agora a impressão que tenho é de que é meu patrão – bom, pelo menos é assim que encaro.
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