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A falta que ela faz: quatro pessoas que não foram vacinadas contam como suas vidas foram afetadas por doenças

A falta da percepção de risco faz com que muitas pessoas não deem o devido valor à imunização

Agência O Globo - GLOBO 05/08/2024
A falta que ela faz: quatro pessoas que não foram vacinadas contam como suas vidas foram afetadas por doenças
Vacina - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Diagnosticada com poliomielite aos três meses de vida, Sandra Ramalhoso passou a infância sem conseguir mover nenhuma parte do corpo do pescoço para baixo. A paulista, hoje com 60 anos, enfrentou inúmeras cirurgias e sessões de fisioterapia para recuperar os movimentos. Ela não teve chance de tomar a vacina, pois quando foi levada pela mãe, já estava com febre e no início da doença.

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— Demoraram muito para fazer o diagnóstico, achavam que era gripe. A pólio me deixou sequelas muito graves. Tive que fazer muito tratamento para voltar a andar e, mesmo assim, precisava de muletas e próteses — lembra Ramalhoso, professora de piano.

A evolução de 15 anos de terapia foi perdida após a gestação do segundo filho, quando ela voltou a ter as pernas paralisadas, sintomas da síndrome pós-poliomielite, uma degeneração dos neurônios motores que afeta pessoas que tiveram a doença. Desde então, Sandra usa cadeira de rodas.

— Não é fácil. Você luta muito para ter independência e autonomia, aí, no auge da sua vida, vai para cadeira de rodas e pensa: tudo o que eu fazia, não posso fazer mais… acabamos nos adaptando, deixei de fazer algumas coisas, mas faço outras. Agora me dedico à luta pelo direito das pessoas com deficiência — diz.

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A aposentada Izabel Maria Cirella, 65, também foi afetada pela síndrome pós-pólio. Ela contraiu poliomielite com um ano e meio. Embora houvesse vacina, ela não pôde tomá-la por ter outras doenças.

— Eu só podia tomar a vacina com um atestado médico, mas nunca consegui esse atestado — relata.

A doença afetou gravemente seu corpo, incluindo os pulmões, e ela precisou passar 10 dias em um pulmão de aço para voltar a respirar. Apesar dos prognósticos negativos, Izabel passou por fisioterapia intensiva, aprendeu a falar e, aos seis anos, fez sua primeira cirurgia corretiva nas pernas. Com o auxílio de muletas, conseguiu ir para a escola, apesar da resistência inicial da diretora em aceitá-la.

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— Passei por muitas dificuldades na escola, não podia sair da sala de aula nos intervalos e minha mãe ia até lá só para me alimentar. Com muito esforço, consegui me formar e passei em um concurso público.

Há dez anos ela passou das muletas para a cadeira de rodas após quebrar um joelho.

— Quem ama, vacina. A pólio limita muito. Essa geração que não está vacinando é a que não nos viu na rua. Não sabem o que é polio, como ela impacta nossas vidas.

Risco de retorno

Apesar de ter sido considerada erradicada no país há duas décadas, a poliomielite ainda preocupa os especialistas. Sobretudo pela cobertura vacinal de muitos estados estar abaixo da meta do Ministério da Saúde de 95% desde 2016.

— É real a possibilidade de a poliomielite voltar a circular. À medida em que você vai vacinando menos, você acumula um número de crianças não vacinadas e suscetíveis. O vírus ainda circula em outros países, e aí basta alguém contaminado vir para o Brasil para infectar essas crianças. Em 2018, o sarampo voltou a circular e estamos lutando para que volte a ser eliminado — diz o presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBI), Renato Kfouri.

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Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o número de crianças vacinadas contra o vírus no Brasil melhorou em 2023, em comparação ao ano anterior: 84,63% das crianças com menos de um ano receberam a vacina, ante 77% em 2022.

Para Kfouri, aumentar as coberturas vacinais no país é importante, mas essa expansão deve ocorrer de forma equitativa entre as regiões, com o envolvimento de todos os estados.

— Não basta a cobertura vacinal ser elevada, ela precisa ser homogênea — diz.

O infectologista destaca a baixa percepção dos riscos das doenças imunopreveníveis, o receio de reações adversas e a politização do tema como alguns dos fatores que afastaram as pessoas da vacinação.

O diagnóstico de meningite B veio para o pequeno João Marcos Silva quatro dias antes de ele poder tomar a vacina, com 56 dias de vida. João precisou enfrentar 102 dias na UTI.

— Eu e meu esposo ficamos sem chão, desesperados… Não sabíamos o que realmente era a meningite, o que ela poderia causar e muito menos como preveni-la. Em menos de 48 horas, após o primeiro sintoma, João Marcos chegou a ter 1% de chance de sobreviver. Sentíamos como se estivéssemos perdendo-o — diz a mãe Suelen Caroline Rosalino, empresária.

João precisou amputar a perna esquerda, metade e a sola do pé direito, além de oito falanges das mãos. Ele também sofreu uma lesão no lóbulo frontal direito. Após passar mais de três meses no hospital com o filho, Suelen faz de tudo para que o menino, hoje com seis anos, possa ter uma infância normal.

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Com próteses, João joga futebol e até toca bateria.

— Como tudo aconteceu com ele bem novinho, ele cresceu superando e se adaptando mediante as suas necessidades. Aprendemos que precisamos focar no potencial e não nas limitações, então em meio aos tratamentos diversos, como fisioterapia, fono, terapia ocupacional e até mesmo na escola, o ensinamos sempre a dar seu melhor — conta.

A meningite meningocócica B é uma inflamação das meninges, membranas que envolvem o sistema nervoso, causada pelo meningococo B (MenB), um dos principais agentes da meningite bacteriana. O tipo B é considerado um dos mais letais da doença, com dois em cada dez casos resultando em morte, e representa entre 20% e 40% das meningites. A vacina é indicada a partir dos dois meses.

Os pais decidiram fundar a Associação Brasileira de Combate à Meningite (ABCM) para conscientizar famílias sobre a doença e incentivar a vacinação.

‘Como teria sido’

Lúcio Teixeira e dois dos seus cinco irmãos tiveram meningite na infância, nos anos 1970. Moradores de área rural de Luziânia, em Goiás, não tiveram acesso a serviços básicos nem à vacina contra a doença, em desenvolvimento na época. Dos três irmãos infectados, Lúcio foi o único sobrevivente, mas precisa conviver no dia a dia com as sequelas da doença que o atingiu aos quatro anos: perdeu o braço esquerdo e ficou com danos cerebrais permanentes.

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Aos 57 anos, aposentado por invalidez, Lúcio passa o tempo lembrando da infância e imagina como seria sua vida sem os problemas acarretados pela meningite:

— Deixei de fazer bastante coisa por conta das limitações. Queria ter saído da casa da minha mãe, aprendido a dirigir, ter conquistado muito mais coisas. Mas não consegui (...) é claro, penso sempre como teria sido se eu tivesse me vacinado.