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Colesterol: é possível escapar das estatinas tomando suplementos? Veja se há alternativas

Estudo avaliou diversos tipos de suplementos e quanto eles são capazes de baixar o colesterol ruim

Agência O Globo - GLOBO 24/04/2024
Colesterol: é possível escapar das estatinas tomando suplementos? Veja se há alternativas
É possível escapar das estatinas tomando suplementos? Veja se há alternativas - Foto: Reprodução / internet

As estatinas são um dos medicamentos mais prescritos atualmente, tomados por aproximadamente um em cada quatro adultos com 40 anos ou mais nos Estados Unidos. Elas são usadas para diminuir o colesterol e reduzir o risco de doenças cardiovasculares. Os cardiologistas são esmagadoramente a favor das estatinas, que são apoiadas por quatro décadas de investigação e são consideradas seguras e eficazes. No entanto, alguns pacientes relutam em tomá-las.

As alegações estão relacionadas a possíveis efeitos colaterais, como dores musculares ou aumento do risco de desenvolver diabetes, ou pela preferência de tentar reduzir o colesterol sem tomar medicamentos prescritos. Como resultado, muitas pessoas recorrem a suplementos de venda livre, como estanóis e esteróis vegetais (também chamados de fitoesteróis), arroz vermelho fermentado, niacina, fibras e ômega-3.

Estudos descobriram que, embora esses suplementos possam reduzir ligeiramente o colesterol, eles não são tão poderosos quanto as estatinas. Também há poucas evidências de que esses suplementos reduzam o risco de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral – o objetivo final no tratamento do colesterol elevado.

— Eles não alcançam a redução percentual que você pode obter com o uso de estatinas e outros medicamentos — diz Joseph Yeboah, professor associado de cardiologia da Escola de Medicina da Universidade Wake Forest.

Num estudo publicado em janeiro no The Journal of the American College of Cardiology, por exemplo, os pesquisadores distribuíram aleatoriamente quase 200 adultos com risco aumentado de doença cardiovascular para um dos oito grupos de tratamento: um que tomou uma dose baixa de estatina, outro que recebeu placebo e seis outros grupos que tomaram óleo de peixe, canela, açafrão, alho, fitoesteróis ou suplementos de arroz com fermento vermelho, todos alegando reduzir o colesterol ou melhorar a saúde do coração.

Após quatro semanas, as pessoas que tomaram estatinas reduziram os níveis de colesterol LDL (o colesterol ruim) em 38%, em média. Entre os grupos de suplementos, o arroz vermelho fermentado apresentou o maior benefício, reduzindo os níveis de LDL em cerca de 7%, seguido pelos fitoesteróis, que melhoraram o colesterol LDL em cerca de 4%. Para efeito de comparação, aqueles que receberam o placebo reduziram seus níveis de colesterol em média 3%.

Steven Nissen, presidente de medicina cardiovascular da Clínica Cleveland e principal autor do estudo, disse que, embora alguns dos suplementos tenham resultado em alterações mensuráveis no colesterol, eles não foram suficientes para ter um efeito significativo na saúde cardiovascular:

— Essas diferenças são triviais em comparação com o que as pessoas precisam.

Como funcionam as estatinas e quando são recomendadas?

A maior parte do colesterol de uma pessoa vem do fígado, e as estatinas atuam reduzindo a quantidade de colesterol produzido ali. O objetivo de tomar estatinas é reduzir os níveis de colesterol no sangue em 30 a 50%.

Quando muito colesterol está presente na corrente sanguínea, ele pode começar a se acumular como placas nas artérias e obstruir o fluxo sanguíneo. Com o tempo, isto aumenta o risco de acidente vascular cerebral, ataque cardíaco e outras formas de doenças cardiovasculares.

Níveis de colesterol LDL superiores a 190 são considerados perigosamente elevados e quase sempre justificam uma prescrição de estatinas, disse Nissen. Mas muitas pessoas com níveis mais baixos de colesterol também recebem estatinas. Os médicos recomendam os medicamentos com base no risco geral de doença cardíaca de uma pessoa, que inclui idade, níveis de colesterol e pressão arterial, e se a pessoa fuma ou tem diabetes. A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA recomenda estatinas quando o risco de uma pessoa desenvolver doenças cardiovasculares na próxima década for de 10% ou mais.

— Passamos décadas desenvolvendo diretrizes para garantir que as pessoas certas recebam medicamentos para baixar o colesterol — garante Nissen.

Quais as alternativas?

Se alguém tem um risco moderado de doença cardiovascular, mas ainda não se qualifica para tomar estatinas, os especialistas recomendam frequentemente a mudança para uma dieta mediterrânica, que dá prioridade a frutas, vegetais, legumes, cereais integrais, nozes, sementes, proteínas magras e gorduras saudáveis.

— Se você está preocupado com a saúde do seu coração, uma abordagem muito melhor, em vez de tomar suplementos, será melhorar sua dieta e iniciar a atividade física— afirma Salim Virani, vice-reitor de pesquisa da Universidade Aga Khan no Paquistão e cardiologista do Texas Heart Institute em Houston. — Se você seguir uma dieta muito rigorosa, poderá obter algo entre 10 a 20% de redução do colesterol LDL.

Embora os cardiologistas não recomendem em grande parte tomar suplementos para colesterol, muitas pessoas ainda estão interessadas em experimentá-los. Aqui está o que a pesquisa diz sobre alguns dos mais populares.

Arroz vermelho fermentado: Foi demonstrado que ele reduz os níveis de LDL em até 15 a 25% (embora o estudo de Nissen tenha mostrado um benefício muito menor). Tem como alvo a mesma via no fígado que as estatinas, mas não na mesma extensão. Como resultado, os especialistas recomendam tomar a estatina, especialmente porque a Food and Drug Administration (FDA, agência regulatória americana, semelhante à Anvisa) não avalia a segurança ou consistência dos suplementos.

Suplementos de fibra: visam replicar os benefícios cardiovasculares de dietas ricas em fibras solúveis, encontradas na aveia, cevada, legumes e frutas. Mas pesquisas sugerem que a fibra solúvel – proveniente da dieta ou de suplementos – pode reduzir os níveis de colesterol LDL em apenas 5 a 10%.

Fitoesteróis: são compostos vegetais encontrados naturalmente em óleos vegetais, nozes e sementes, legumes, frutas e vegetais. Estudos descobriram que os fitoesteróis – novamente, provenientes da dieta ou de suplementos – podem reduzir o colesterol LDL em 6 a 12%.

Ácidos graxos ômega-3: podem reduzir os níveis de triglicerídeos (outro tipo de gordura que circula na corrente sanguínea), mas são menos benéficos para o colesterol. Mais importante ainda, várias metanálises não encontraram evidências de que os ácidos graxos ômega-3 reduzissem o risco de doenças cardiovasculares.

Vitamina B3: também demonstrou melhorar os níveis de triglicerídeos e colesterol HDL (ou “bom”) em 15 a 30%, mas os benefícios para os níveis de LDL são mais modestos – menos de 10%. Dois grandes estudos descobriram que, quando tomada juntamente com estatinas, a niacina não reduziu ainda mais o risco de doenças cardiovasculares nas pessoas.

O resultado final, conclui Virani , é que alguns suplementos "reduzem o colesterol LDL, mas não o suficiente para que os recomende como terapias primárias para redução do colesterol LDL. Não quando temos um medicamento como a estatina que tem sido estudado há tanto tempo, e sabemos que é eficaz e geralmente seguro”. Todos os especialistas com quem conversamos concordaram.

— Você deve ir onde há evidências científicas — acrescenta Virani. — E as evidências estão na terapia com estatinas, não há dúvidas sobre isso.