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Geneticista briga para recuperar objetos religiosos do avô saqueados por nazistas na segunda guerra

Agência O Globo - GLOBO 13/11/2023
Geneticista briga para recuperar objetos religiosos do avô saqueados por nazistas na segunda guerra

Michael R. Hayden é um dos principais geneticistas do mundo, laureado com diversos dos mais prestigiados prêmios da medicina e fundador de cinco empresas de biotecnologia. Aos 71 anos, ainda leciona na Universidade da Colúmbia Britânica. Seus dias frequentemente reúnem um turbilhão de atividades intermináveis. Ainda assim, ele reserva de quatro a cinco horas por semana para se dedicar a uma busca que, para ele, é tão importante quanto suas descobertas na área de neurodegeneração: localizar as peças judaicas de prata que sua família perdeu para nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

— Minha vida é muito complexa, mas isso é prioridade, tanto para mim quanto para as gerações futuras. Vou sempre encontrar tempo para esse projeto importante — afirma ele.

Hayden conhece bem os acontecimentos da Noite dos Cristais, em 10 de novembro de 1938, quando membros da SS invadiram a residência de seu avô, Max Raphael Hahn, empresário rico e presidente da sinagoga de Göttingen, na Alemanha.

Max e a esposa, Gertrud, foram presos pelos nazistas. Ela foi solta no dia seguinte. Max, no entanto, permaneceu sob custódia durante sete meses, enquanto sua valiosa coleção de artefatos judaicos de prata, que remonta ao século XVII, foi confiscada. Entre os itens, lâmpadas cerimoniais, castiçais, cálices e caixas de especiarias.

Hayden já conseguiu recuperar dezenas de objetos domésticos e alguns artefatos religiosos que estavam em posse de um museu alemão. Mas a coleção de objetos judaicos de prata confiscada pelos nazistas ainda não foi localizada. Mesmo 20 anos após o início de seu projeto, ele só conseguiu coletar um dos 166 itens que faltam, um cálice de kidush.

A dedicação de Hayden reflete o esforço de muitas famílias judias para recuperar obras de arte e outros objetos confiscados de seus parentes, ou vendidos por eles sob coação, durante a era nazista. Esse trabalho frequentemente é motivado por um senso de justiça e um compromisso com a família e, no caso da arte, pela perda de heranças potencialmente substanciais.

Objetos judaicos podem ser valiosos, mas a busca por esses itens geralmente é justificada por seu legado como patrimônio religioso.

— O significado desses objetos transcende seu valor financeiro — diz Hayden.

Natural da África do Sul, Hayden cursou a faculdade de medicina e obteve um doutorado em genética no país. Graduou-se também em medicina interna na Escola de Medicina de Harvard. Atualmente, é CEO da Prilenia, empresa dedicada ao tratamento de doenças neurodegenerativas, e é membro da 89bio, que desenvolve novos tratamentos para doenças hepáticas e lipídicas. Seus escritórios estão localizados em Israel e na Holanda.

Mas ele passa a maior parte do seu tempo em Vancouver, onde seu escritório está repleto de fotos dos quatro filhos e dos cinco netos, de livros sobre história judaica e de uma foto que o mostra recebendo a bênção do papa Francisco.

A busca de Hayden começou em 1986, no Museu da Cidade de Göttingen. Um curador lhe permitiu explorar o local, e lá ele encontrou um wimpel, pano longo e fino normalmente usado como um envoltório para a Torá e que fora usado para envolver seu bisavô, Raphael Hahn, na sua circuncisão.

— Não havia documentação nem informações sobre como aquele pedaço de tecido com o nome do meu bisavô bordado tinha chegado ao museu, nem sobre o doador. O conselho municipal de Göttingen se recusou a devolver o wimpel a menos que eu encontrasse um substituto.

Ele entrou em contato com Artur Levi, prefeito de Göttingen, que se prontificou a ajudá-lo. Em 1987, Levi enviou-lhe a peça.

A busca de Hayden pela coleção de prata judaica de seu avô começou décadas mais tarde, enquanto examinava 15 caixas dele, com milhares de documentos, selos e fotos antigas. Essas caixas permaneceram fechadas durante 20 anos em sua casa de Vancouver:

— Uma noite, senti que deveria enfrentá-las. As cartas contam histórias incríveis de sofrimento.

Hayden relatou que, depois que foi libertado da prisão, seu avô, Max Hahn, foi com a mulher para Hamburgo, na esperança de emigrar. Mas em 1941 foram deportados para a Letônia e levados de trem para um campo de concentração. Acredita-se que Gertrud Hahn tenha falecido no trem, enquanto Max foi morto em 1942. Os dois filhos do casal, Hanni e Rudolf, o pai de Hayden, haviam sido enviados para a Inglaterra em 1939.

Entre 1940 e 1941, antes de ser enviado para a morte, Max Hahn conseguiu enviar diversos pertences, incluindo documentos, cartas e fotos para a Suécia e para a Suíça.

Esforço recompensado

Hayden conta com a colaboração de assistentes para descobrir o paradeiro dos objetos judaicos desaparecidos. Sharon Meen, historiadora que trabalha com ele há 13 anos, auxilia na investigação de catálogos de leilões, nos contatos com revendedores e no exame de coleções de museus.

— As caixas enviadas para a Suécia e para a Suíça contêm um inventário de todos os itens da coleção de objetos judaicos da família Hahn, incluindo dimensões e peso, além de fotos — diz Meen.

Às vezes, surgem momentos que fazem todo o esforço valer a pena. Há alguns anos, enquanto revisava o acervo do Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, na Alemanha, Hayden se deparou com a fotografia de um cálice para kidush que retratava cenas da história bíblica de Jacó, assim como o cálice de seu avô.

— Entrei em contato com o museu e eles prontamente me devolveram o cálice.

As autoridades de Göttingen também demonstraram boa vontade em 2014 e 2015, quando a cidade devolveu cerca de 30 itens que pertenciam à família Hahn. Alguns desses objetos, como um conjunto de sala de estar em estilo rococó, apareciam em fotos que o avô de Hayden deixara nas caixas. A maior parte desses objetos era de itens domésticos, não artefatos religiosos. Ainda assim, a devolução desses itens, cuja conexão com a família Hahn foi rastreada por Meen com base nos registros do museu, contribuiu para trazer à luz a vida de pessoas que os nazistas tentaram apagar.

Em 2014, Hayden, sua esposa, seus quatro filhos e os nove bisnetos de Max Hahn viajaram a Göttingen, vindos de Bruxelas, Londres, Cidade do Cabo, Vancouver, Toronto, Los Angeles, Tel Aviv e Nova York, e participaram de uma cerimônia para marcar a devolução dos itens à família, ao mesmo tempo que serviram como tema para uma exposição no museu. Depois disso, Hayden decidiu deixar as peças expostas na instituição, em regime de empréstimo.

As peças judaicas de prata têm sido mais difíceis de localizar. Meen disse estar convencida de que grande parte delas permanece na Alemanha, embora tenha visitado cerca de uma dúzia de museus sem sucesso:

— A busca ainda está em andamento. Continuamos perseverando, não só para assegurar a recuperação dos objetos, mas também para que eles sejam devidamente atribuídos ao meu avô.