Finanças
Fazenda projeta arrecadação extra de R$ 96 bilhões e alta no PIB com guerra no Irã
Alta do petróleo pode impulsionar o crescimento da economia brasileira, mas também pressiona os preços internos
Um dia após anunciar medidas para conter a alta dos combustíveis, o governo divulgou projeções que indicam efeitos ambíguos da escalada da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira. Simulações da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda apontam que, em um cenário severo de disparada do petróleo, o PIB pode crescer até 0,36 ponto percentual adicional, a inflação subir até 0,58 ponto percentual e a arrecadação do governo central aumentar em até R$ 96,6 bilhões em 2026.
As estimativas constam em nota técnica divulgada nesta sexta-feira pela área econômica, atualizando a grade de parâmetros macroeconômicos de março e avaliando impactos do conflito na economia nacional.
Segundo o estudo, o aumento da arrecadação viria principalmente da elevação dos royalties do petróleo e de tributos pagos por empresas da cadeia de exploração, refino e distribuição, como IRPJ e CSLL. O avanço das receitas também refletiria efeitos indiretos do aquecimento econômico sobre outras bases tributárias.
A análise considera a hipótese de que o conflito provoque choques nos preços internacionais do petróleo. O Oriente Médio concentra parte relevante da produção global e cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente passa pelo Estreito de Ormuz, rota afetada pelas tensões na região.
O estudo simula três cenários para o preço do petróleo em 2026:
No cenário mais provável, de impacto temporário, o preço médio do Brent ficaria em torno de US$ 73 por barril, cerca de 11% acima da projeção anterior. Nesse caso, o governo estima aumento de cerca de R$ 21,4 bilhões na arrecadação líquida, além de alta de 0,10 ponto percentual no PIB e de 0,14 ponto percentual na inflação.
Se o conflito se prolongar e o petróleo chegar a US$ 82 por barril, a arrecadação poderia crescer R$ 48,3 bilhões, com acréscimo de 0,23 ponto percentual no crescimento econômico e alta de 0,33 ponto percentual na inflação.
No cenário mais severo, com interrupções relevantes na oferta global e preço médio de US$ 100 por barril, o aumento de receita para o governo chegaria a R$ 96,6 bilhões, o PIB avançaria 0,36 ponto percentual e a inflação subiria cerca de 0,58 ponto percentual.
“Se cenários ainda mais disruptivos do que projetamos desencadearem uma crise econômica e financeira internacional, seria preciso refazer as projeções”, destacou o secretário de Política Econômica, Guilherme Mello.
Apesar da pressão inflacionária, o choque nos preços do petróleo pode gerar efeitos positivos para a atividade econômica brasileira, segundo a SPE. Isso porque o país se tornou exportador líquido de petróleo e derivados, o que tende a ampliar o superávit comercial quando os preços internacionais sobem.
Mesmo com a revisão de algumas variáveis externas, o Ministério da Fazenda manteve a projeção de crescimento do PIB em 2,3% para 2026, com inflação ainda dentro da meta ao longo do ano.
Entre as ações anunciadas para tentar conter o impacto da guerra do Oriente Médio estão um decreto que zera as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, uma subvenção de R$ 0,32 por litro a produtores e importadores do combustível e a criação de um imposto sobre a exportação de petróleo para compensar a perda de arrecadação. O governo estima que as medidas podem reduzir em cerca de R$ 0,64 por litro o preço do diesel nas bombas. Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o foco no diesel ocorre porque o combustível tem forte impacto sobre a inflação, já que é amplamente utilizado no transporte de cargas, escoamento da safra agrícola e funcionamento de máquinas e equipamentos da produção.
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