Finanças

Guerra e disparada do petróleo desafiam previsões para a economia brasileira

Acirramento de conflitos internacionais e disparada no preço da commodity podem impactar a inflação e postergar mudanças esperadas no Brasil, como a queda da taxa básica de juros

Agência O Globo - 10/03/2026
Guerra e disparada do petróleo desafiam previsões para a economia brasileira
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Assim como aconteceu com o choque das tarifas em 2025, o ano já começou com uma ameaça para a economia global com o conflito no Oriente Médio, o que desafia cenários. Os ataques ampliaram o temor com uma crise de abastecimento de petróleo, fazendo o barril do tipo Brent, padrão internacional, ultrapassar pela primeira vez a barreira dos US$ 100 desde a invasão na Ucrânia, em 2022.

Sob pressão do petróleo,

Rumores 2026:

Além da imprevisibilidade no cenário externo, as incertezas em relação às contas públicas tornam as perspectivas para a economia brasileira mais nebulosas. O país tem um encontro marcado com o ajuste fiscal em 2027, o que é fundamental para uma redução sustentada dos juros.

Isso mexe com toda a engenharia para a economia brasileira, quando já se esperava o relaxamento da política monetária e a queda da taxa básica de juros, a Selic, no dia 18, na próxima reunião do Copom.

— A gente vai acabar sofrendo alguma pressão inflacionária de curto prazo, que piora os índices anuais e pode piorar as expectativas também — afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Rumores 2026:

Ele aponta que a defasagem nos preços da Petrobras já é enorme, e é muito difícil para o estatal não repassar alguma coisa para o consumidor. Segundo o economista, a inflação ainda está resiliente em 4,5%, longe da meta.

— Um dia antes de eclodir a guerra, o IPCA-15 (prévia da inflação) trouxe alguns números relativamente frágeis — diz ele.

Oportunidade para o Brasil

A reviravolta com a crise pode, por outro lado, beneficiar o Brasil, por ser um grande exportador, favorecendo a balança comercial. Mas uma ideia de cautela ganha força. Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, ressalta que uma surpresa com o novo cenário de risco foi o comportamento estável da taxa de câmbio.

— Talvez a tese dominante ainda seja que o aumento dos preços do petróleo seja temporário. Vamos ter que esperar o Banco Central, que ainda deve começar o ciclo de corte de juros.

Antes do início do conflito, as expectativas eram mais benéficas, com o país entrando no atual ciclo eleitoral surfando em um bom momento na economia. No desemprego, por exemplo, são alguns dos indicadores mais positivos.

No trimestre encerrado em dezembro passado, caiu para 5,1%, nível mais baixo da série histórica. A taxa anual recuou para 5,6%. A bolsa vinha batendo recordes, com o ingresso de recursos de investidores internacionais buscando diversificar seus portfólios, tendo o Brasil como um dos destinos preferidos.

O PIB está há cinco anos em território positivo, apesar da política monetária restritiva. Subiu 0,1% no último trimestre de 2025 e fechou o ano com alta de 2,3%, divulgou o IBGE.

Foco do Boletim:

Houve uma “desaceleração muito forte no final do ano passado”, ressalva Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais da FGV Ibre e um dos autores do Monitor do PIB-FGV. Ele contava em 2026 com um aumento em torno de até 2,5%. Para 2027, o principal problema continua sendo a taxa de investimento, que permanece muito baixa, segundo ele.

A economia se mostrou resiliente em 2025. O tarifaço do governo Trump atrapalhou as exportações, mas o país foi eficiente para mudar de mercados, diz a economista da FGV Ibre.

— A gente teve sorte com a confusão dos EUA. Ela foi ruim para o mundo, mas para o mercado emergente foi positiva. Teve essa desvalorização do dólar, que contribuiu muito com a queda da inflação aqui e nos outros países emergentes — avalia Mansueto.

Isso levou a uma rotação de carteiras de fundos de investimentos que beneficiaram o Brasil. Mansueto cita dados do Instituto de Finanças Internacionais que apontaram a China e o Brasil, respectivamente, como os países que mais captaram recursos para a renda fixa e variável em janeiro de 2026.

canhoto:

A consequência no curto prazo é que isso abriu uma janela de oportunidades para aberturas de capital (IPOs), ou que não se contava mais neste ano.

— Houve uma surpresa. Ninguém esperava que a bolsa em fevereiro de 2026 passasse de 190 mil pontos. Ultrapassou e reabriu uma janela de IPOs para algumas grandes empresas. Talvez já no primeiro semestre de 2026 a gente tenha algumas operações. Os fundos de investimento no mundo estão específicos em colocar dinheiro fora de tecnologia e dos EUA.

Desafio das contas

O grande desafio é enfrentar o desequilíbrio nas contas públicas, que será determinante para o Brasil garantir a continuidade da expansão em 2027.

— É o grande calcanhar de Aquiles — alerta Marcus Pestana, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI). — O Brasil tem uma trajetória ascendente de dívida bruta em todo o setor público. O filme é de restrição. Para estancar o crescimento da dívida estimamos que é preciso produzir um superávit de mais de 2% do PIB.

Aumento da.

Para Pestana, o facto de o governo mirar não o centro da meta fiscal, mas o limite inferior da margem de tolerância, fragilizou o arcabouço fiscal. A dívida está em uma trajetória insustentável, concorda Mansueto.

— Vamos terminar este governo com crescimento médio do PIB de 2,5%, 2,6%. E a dívida vai crescer pelo menos 10 pontos percentuais do PIB. Vai terminar, calculamos, em 82% do PIB — disse, dizendo que, no ambiente atual, “é impossível o Brasil recuperar o grau de investimento”.

Manoel Pires:

A crise piora conforme as expectativas. Para Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, ela obteve uma melhoria ilusória das contas, pois aumentou a receita com royalties. Vai ajudar a fechar as contas primárias de 2026. Por outro lado, haverá impacto na inflação no exterior, o que pode levar o Fed (o banco central dos EUA) a desacelerar a queda dos juros:

— O ganho de receita com receitas de petróleo será mais que compensado por despesas mais altas com juros — diz, destacando que pode haver, também, desvalorização do real, com impacto sobre a inflação. — Em cenário extremo, o petróleo permanece acima de US$ 100 por muito tempo, o estrago é grande.

Ainda assim, o ano havia começado com avanços em reformas há muito esperados. É o caso da implantação, ainda em fase de testes, da reforma tributária, que levou décadas de discussão. Apesar disso, os efeitos ainda vão demorar.