Finanças

Caso Master: BRB prepara fundo de investimento com imóveis entregues pelo governo do DF para reforçar capital

Corrida é para deixar tudo pronto para o dia 18, quando será realizada a Assembleia Geral do banco para a operação de aumento de capital, necessária para reenquadrar a instituição nas regras bancárias

Agência O Globo - 05/03/2026
Caso Master: BRB prepara fundo de investimento com imóveis entregues pelo governo do DF para reforçar capital
Liquidante do Master solicita ao governo acesso ao Siape para administrar consignados

Com a aprovação do projeto de lei que autoriza o governo do Distrito Federal a vender imóveis e fazer aporte no Banco de Brasília (BRB), o presidente da instituição, Nelson de Souza, afirma que a prioridade agora é estruturar o Fundo de Investimento Imobiliário (FII) para que as cotas possam ser vendidas e, com os recursos aportados, o banco equacione seu problema de capital.

Souza disse que a corrida é para deixar tudo pronto para o dia 18, quando será realizada na Assembleia Geral do banco para a operação de aumento de capital, necessária para reenquadrar a instituição nas regras bancárias. Um dado é considerado por Souza como o “Dia D” da instituição.

— Vamos aprovar nessa assembleia o modelo de capital para levarmos ao Banco Central. Nosso dia D é 18 — disse Souza ao GLOBO.

O FII será estruturado com novos imóveis que o governo do DF está entregando para o BRB após a aprovação dos deputados distritais. Ao colocá-los em um fundo e vender suas cotas, o banco transformará os imóveis em dinheiro, que servirá para comprar as ações novas a serem emitidas e, assim, efetivar o reenquadramento do banco de capital.

Segundo Souza, há três investidores interessados ​​em adquirir essas cotas. Para viabilizar a operação, o próprio banco aportará uma parcela do total de R$ 6,6 bilhões que se pretende captar, mas nas chamadas cotas subordinadas, que têm maior risco caso haja algum problema nos ativos colocados no fundo.

—Se nós captarmos os R$ 6,6 bilhões com o fundo de investimento, já resolvemos. Mas mesmo assim, vamos adicionar outras alternativas — destacou o presidente do BRB.

Ele não revelou quanto será colocado pelo banco, mas disse que, com a venda de cerca de R$ 5 bilhões em carteiras de crédito nos últimos dois meses, os problemas de liquidez foram equacionados e a entrada do BRB nas cotas subordinadas do fundo é plenamente possível.

— Vendemos algumas carteiras próprias e somos com liquidez bem melhor do que vimos no início da Operação Compliance Zero da (que investiga irregularidades nos negócios de , dono do Master e fraudes na compra de carteiras do Master pelo BRB).

Se tudo der certo, o banco estima que passará a operar até com folga nos principais indicadores de solidez.

O chamado índice de Basileia, que mede a saúde financeira de um banco, nas estimativas internacionais do BRB, passará de um patamar negativo nos últimos dois meses para uma faixa acima de 15% (o mínimo exigido nas regras prudenciais é de 10,5%, o que, grosso modo, significa que para cada 100 emprestadores o banco tem 10 de capital próprio).

A retirada da situação do BRB ocorreu por conta da compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito com falsas fraudes. Elas foram arrecadadas por R$ 10 bilhões em outros ativos que, segundo Souza, valeriam efetivamente R$ 21,9 bilhões. O banco, porém, está com dificuldade de vender esses bens.

Nas apurações, ficou constatado que mais de R$ 6 bilhões desses ativos são problemáticos e, por isso, exigiram um provisionamento que deverá ser incorporado ao balanço do fechamento do ano passado, que evidenciará um prejuízo de cerca de R$ 4 bilhões.

O balanço de 2025 está previsto para ser divulgado no fim do mês. Se o plano correr bem, também está previsto a publicação de demonstrativo financeiro preliminar do primeiro trimestre de 2026 no qual já constarão a operação de aumento de capital e o porte necessário, com os indicadores de solidez reenquadrados.

Segundo Souza, a opção pelo aumento de capital agora se deu pela percepção de que, embora os ativos adquiridos do Master, mesmo considerando as perdas de R$ 6 bilhões, tinham potencial para gerar os recursos necessários, o mercado estava exigindo um deságio muito alto.

— Por que nós não vendemos a carteira do Master? Porque queriam pagar barato, com um deságio muito alto — explicou Souza.

Dessa forma, passou-se para a estratégia de venda de carteiras próprias para sustentar a liquidez no curto prazo e acelerou o esforço para um transporte de capital do governo do DF priorizando a formatação do Fundo Imobiliário.

Mesmo assim, dada a necessidade de investidores adquirirem essas cotas, Souza diz que o banco tem alternativas na mesa, e que estão sendo negociadas, para fortalecer sua estrutura de capital e dar robustez ao banco.

A formatação de um Fundo de Investimento em Direito Creditório (FDIC) com os ativos do Master é uma delas. Outra é a venda de parte da BRB Financeira, uma parte integrante da instituição — conforme O GLOBO havia antecipado.

O presidente do BRB lista ainda a possibilidade de recompra de letras financeiras subordinadas vendidas pelo banco no passado e que estão no mercado. Haveria, segundo ele, interesse de plataformas de investimentos em emprestar para o banco fazer essa recompra. O ganho em termos de estrutura de capital se daria pela expectativa de que a aquisição fosse feita com deságio para os investidores, que teriam interesse em se fazer esse ativo de risco.

— Temos R$ 3,8 bilhões de letras financeiras subordinadas, que podemos recomprar com um pequeno deságio e isso também nos dá liquidez e nos dá capital — inspirado.

Curiosamente, aquela que era a primeira hipótese de reforço de capital foi para o fim da fila, Souza: o empréstimo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para que o governo do DF pudesse fazer o transporte de capital.

— Nós temos opções antes do empréstimo. Tem um fundo de investimento imobiliário, tem um fundo de investimento de direitos creditórios, tem uma venda da subsidiária se necessária e tem uma letra financeira subordinada. Então, o empréstimo é quito — listou Souza.

No esforço para colocar o banco de novo nos trilhos, o BRB aguarda uma decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Mestre no Supremo Tribunal Federal (STF) para que o liquidante do banco passe a transferir ao BRB o fluxo de pagamento das carteiras de crédito adquiridas no passado, considerada uma apropriação indevida e que teria impactos tanto de crédito como de capital. O fluxo retido estaria entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões.

A operação de aumento de capital que está sendo qualificada deve reduzir a parcela dos acionistas minoritários, que dificilmente compensarão um aporte da ordem de R$ 6,6 bilhões. Isso, em tese, impacta o volume de dividendos que os acionistas terão a receber no futuro, mas Souza ressalta que o plano e aprovação pela Câmara Legislativa do DF fez com que as ações se valorizassem 18%, mesmo com o noticiário negativo da nova fase da Operação Compliance Zero.