Finanças

Minerais críticos: governo Lula evita pacto dos EUA e deve assinar acordo com a Índia

Governo prioriza acordos bilaterais e evita “camisa de força”

Agência O Globo - 06/02/2026
Minerais críticos: governo Lula evita pacto dos EUA e deve assinar acordo com a Índia
Minerais críticos: governo Lula evita pacto dos EUA e deve assinar acordo com a Índia - Foto: Reprodução

Convidado pelos Estados Unidos, ao lado de mais de 50 países, a aderir a uma coalizão internacional voltada ao fornecimento, à mineração e ao refino de minerais críticos, com o objetivo de reduzir a dependência da China, o governo Lula pode recusar o convite. Segundo interlocutores familiarizados com o tema, o governo brasileiro está disposto a discutir o assunto, mas prefere fazê-lo de forma bilateral, sem aderir a pactos que possam impor restrições à sua autonomia.

Já existem conversas em andamento com a União Europeia, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar um acordo sobre minerais críticos com a Índia durante a viagem que fará ao país após o Carnaval. Nas palavras de um importante integrante do governo, não há interesse em “entrar em camisa de força”, numa referência a iniciativas recentes lideradas pelos EUA.

A expectativa é que o tema seja levantado no encontro entre Lula e o presidente americano, Donald Trump, previsto para o mês que vem, em Washington. O mandatário brasileiro deve deixar claro que o país não tem interesse em se tornar apenas um fornecedor de matéria-prima nem em funcionar como uma espécie de reserva estratégica a ser acionada conforme a conveniência do governo americano. Qualquer negociação, segundo interlocutores, terá como objetivo ampliar a capacidade brasileira de processar minerais críticos, agregando valor à produção e fortalecendo a indústria nacional.

Integrantes do governo ressaltam que, enquanto os EUA buscam ampliar o acesso a insumos como lítio, grafita, cobre, níquel e terras raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo para dar previsibilidade ao mercado e reduzir a volatilidade, o Brasil não abrirá mão de alguns princípios: universalidade de parceiros, preservação da autonomia nacional e foco no processamento interno.

Nesse contexto, explicam, o Brasil não é parte de nenhum compromisso internacional sobre exploração ou fornecimento de minerais críticos. A diretriz atual é a universalidade: o país está disposto a conversar com Estados Unidos, China, União Europeia, Índia ou qualquer outro interessado.

Um ponto de atenção, segundo esses interlocutores, é evitar a repetição de práticas históricas em que o Brasil exportou matérias-primas sem processamento e depois importou produtos industrializados. O objetivo é dominar o ciclo do processamento, reconhecendo que, em setores como petróleo ou minério de ferro, o país já avançou parcialmente, mas ainda exporta muito mais do que transforma internamente.

A avaliação dentro do governo é que o Brasil possui grande potencial em minerais críticos, inclusive em áreas ainda pouco prospectadas, e há referências recorrentes de entidades internacionais que apontam o país como detentor de uma das maiores reservas do mundo. Justamente por isso, afirmam auxiliares de Lula, não interessa ao Brasil aderir a pactos desenhados para atender prioritariamente aos interesses de outros países.

Segundo esses auxiliares, o tema dos minerais críticos ganhou relevância ao longo do atual mandato, à medida que o governo passou a ter maior clareza sobre agendas e compromissos herdados de gestões anteriores. Diferentemente de outras commodities, como café ou petróleo — que já tiveram ou ainda têm algum tipo de governança internacional —, não existe hoje um regime global consolidado para esses minerais, o que abriu espaço para propostas distintas, inclusive de caráter geopolítico, envolvendo também terras raras e inteligência artificial.

Em reunião realizada em Washington, na última quinta-feira, que deveria ter caráter ministerial no Departamento de Estado americano, o Brasil foi representado por um diplomata de nível técnico, que acompanhou as discussões sem assinar qualquer documento ou assumir compromissos.

Os Estados Unidos, segundo auxiliares de Lula, convidaram um grande número de países e já vêm firmando acordos bilaterais, muitos deles de caráter confidencial, cujos termos não são tornados públicos. Não há informações detalhadas sobre o que foi negociado com países como Índia, Indonésia e Vietnã.

A avaliação é que esses entendimentos tendem a incluir cláusulas relacionadas a minerais críticos, muitas vezes com exigências consideradas restritivas, como compromissos de fornecimento preferencial ou exclusivo, com o objetivo de impedir o acesso de concorrentes estratégicos a esses recursos — um modelo que não interessa ao Brasil.

Os minerais críticos e as terras raras são insumos essenciais para a economia contemporânea, por sustentarem cadeias industriais estratégicas ligadas à transição energética, à digitalização e à segurança nacional. Eles são utilizados na produção de baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, chips e semicondutores, ímãs de alta potência, além de equipamentos de telecomunicações, sistemas de defesa e tecnologias associadas à inteligência artificial.

Chamados de “críticos” não pela raridade geológica, mas pela importância econômica e pelo risco de abastecimento, esses minerais ganharam centralidade na disputa geopolítica global à medida que poucos países concentram a extração, o refino e o processamento desses materiais.