Finanças
Contrato de empréstimo de R$ 468,8 milhões do Master a empresa de técnico de time da Índia previa aporte de 90% em fundo da Reag
Transações são investigadas pelas autoridades; treinador nega ter firma no Brasil
O contrato de empréstimo de R$ 468,8 milhões firmado entre o Banco Master e uma empresa ligada a um técnico espanhol de um time indiano de futebol previa que ao menos 90% do valor fosse depositado em um fundo administrado pela Reag, segundo documentos obtidos pelo GLOBO.
A empresa assinou o contrato e, na sequência, fez aportes em um fundo gerido pela Reag, alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF). O treinador, porém, nega ter uma firma no Brasil.
As apurações indicam que o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, logo depois, repassavam quase a totalidade dos recursos a fundos administrados pela Reag, compostos por papéis de baixo valor.
A empresa em questão é a BMQ Mirage, registrada em São Paulo como atacadista de produtos alimentícios. Com capital social de R$ 900 mil, a companhia recebeu R$ 468,8 milhões do Banco Master e, em seguida, aportou R$ 444 milhões no fundo Bravo, ligado à Reag, que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).
A BMQ Mirage tem como sócio o espanhol Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United, clube da Super League indiana. Ele nega ter uma empresa no Brasil e disse desconhecer pessoas relacionadas ao negócio.
Na ficha cadastral da empresa consta que Juan Pedro é espanhol, o que ele confirma, e que mora em Abu Dhabi. O técnico diz já ter residido nos Emirados Árabes Unidos. Além disso, consta um CPF registrado em seu nome, com a data de nascimento correta, mas ele diz desconhecer o documento.
— Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol — disse.
O GLOBO teve acesso a documentos que mostravam que o contrato foi assinado em junho de 2024, e que o aporte milionário ao fundo Bravo foi feito em agosto. Um distrato do contrato de empréstimo foi feito em dezembro do mesmo ano. O contrato da empresa com o Master também previa como garantia adicional a alienação de bens relacionados ao projeto, que era a construção de dois frigoríficos, ou as próprias cotas que a BMQ aplicou no fundo.
Nos dados da empresa, consta que o contador João Fernando Machado de Miranda foi procurador do técnico de futebol em 2012, na época da constituição da firma. Procurado, Miranda afirmou que deixou a empresa em 2013, conforme registros.
Disse ainda que atuou com o aporte enviado por Juan Pedro, de R$ 500 mil, e que chegou a ter contato com ele na época. A empresa, segundo ele, foi fundada para atuar com cana de açúcar, mas o negócio não deu certo.
O GLOBO obteve a procuração e questionou o técnico espanhol sobre o documento. Juan Pedro reconheceu que a assinatura é sua e se mostrou surpreso:
— Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo.
O advogado Pedro Jaguaribe, que defende a empresa, afirmou inicialmente que o empréstimo com o Banco Master havia sido liquidado. Posteriormente, disse que a operação não se concretizou e que o contrato foi desfeito. Sobre o aporte no fundo da Reag, ele classificou o registro como uma “questão contábil” e afirmou que não houve investimento de fato, o que está em linha com a investigação do MPF.
Questionado sobre a participação do técnico espanhol no negócio, o advogado afirmou que Juan Pedro é um sócio investidor estrangeiro e disse ter se surpreendido com o fato de ele negar a sociedade.
— Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro — afirmou.
Caminho do dinheiro
De acordo com as investigações da Compliance Zero, o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, posteriormente, reaplicavam recursos em fundos de investimento da Reag.
O caminho do dinheiro mostra que milhões de reais eram transferidos de um fundo a outro por meio de uma série de transações-relâmpago em um curto período. Os fundos eram compostos por papéis de baixa liquidez.
Ao longo dessa cadeia de transações, os títulos presentes nos fundos passavam por reavaliação, o que resultava em um valor inflado, muito superior ao seu preço de fato. Em uma das transações investigadas, revelada pelo GLOBO, isso resultou em valorização de 10.502.205%, um percentual que não encontra respaldo em qualquer parâmetro de mercado.
No fim, os recursos voltavam ao Master por meio da compra de CDBs (um título de investimento).
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