Finanças
Acordo Mercosul-UE: Quem perde e quem ganha com o tratado? Entenda o impacto por setores econômicos
Enquanto acordo deve favorecer a indústria europeia, agronegócio deve ser o principal beneficiado do lado sul-americano
A deu sinal verde ao acordo comercial com o , abrindo caminho para a formação da . A assinatura está prevista para 17 de janeiro, no Paraguai, que atualmente ocupa a presidência temporária do bloco sul-americano. Costurado ao longo de mais de duas décadas, o tratado deve ter ganhos assimétricos entre os setores da economia.
Acordo Mercosul-UE é aprovado:
Do Planalto:
Enquanto o tratado deve favorecer a indústria europeia, o agronegócio deve ser o principal beneficiado do lado sul-americano. O impacto sobre empregos e o bolso do consumidor, porém, deve ser gradual.
Afinal, quem ganha e quem perde? Veja a seguir:
Dados da Secretaria de Comércio Exterior ajudam a dimensionar a relevância do tratado. Entre janeiro e dezembro de 2025, só as exportações brasileiras para a UE somaram US$ 49,8 bilhões, alta de 3,2% em relação ao ano anterior. No mesmo período, as importações atingiram US$ 50,3 bilhões, crescimento de 6,4%.
Especialista:
No comércio com a União Europeia, a pauta brasileira de exportações é focada em produtos básicos. No ano passado, o principal item vendido pelo Brasil ao bloco europeu foram os óleos brutos de petróleo, seguidos pelo café não torrado, farelo de soja, minérios de cobre e soja em grão.
Do lado das importações, a UE fornece principalmente produtos industrializados e de maior valor agregado. Os medicamentos lideraram as compras brasileiras, seguidos por outros medicamentos, incluindo os de uso veterinário. Também se destacam partes e acessórios de veículos e motores e máquinas não elétricos, além de instrumentos e aparelhos de medição.
Na indústria, Europa se sai melhor
A União Europeia tende a colher os maiores ganhos no setor industrial. Segundo estimativas da Comissão Europeia citadas pelo jornal El País, o acordo pode ampliar o potencial de exportações do bloco em € 84 bilhões e gerar 756 mil empregos.
O setor automotivo aparece entre os principais beneficiados, especialmente em um momento de forte concorrência com veículos elétricos chineses, além das indústrias química e farmacêutica. A Comissão Europeia também aponta ganhos para o setor agroalimentar do bloco, com a redução (em alguns casos, até extinção) das tarifas hoje cobradas pelo Mercosul sobre produtos como queijos, vinhos e bebidas destiladas, que atualmente podem chegar a 28%, 27% e 35%, respectivamente.
Na França:
A associação da indústria automobilística alemã, a VDA, classificou a aprovação do acordo como “uma notícia muito positiva".
— O acordo UE-Mercosul abre oportunidades consideráveis para a indústria automotiva — afirmou a presidente da entidade, Hildegard Müller.
Atualmente, peças automotivas exportadas para países do Mercosul estão sujeitas a tarifas de até 18%, enquanto automóveis de passeio enfrentam tarifas de até 35%, segundo ela.
A federação da indústria química alemã, a VCI, também comemorou.
— A UE está enviando um sinal forte em tempos difíceis: a Europa quer ajudar a moldar o futuro, e não apenas ficar assistindo — afirmou o presidente da entidade, Wolfgang Große Entrup.
Na agricultura, Brasil e demais países do Mercosul 'ganham'
No campo, o Brasil e os demais países do Mercosul concentram os maiores ganhos relativos, apesar da resistência política na Europa, sobretudo na França, onde sindicatos agrícolas reagiram com forte oposição ao acordo.
Alckmin:
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o acordo não altera o sistema atual de cotas para carne de frango entre Brasil e UE, que segue em vigor. A novidade que o acordo cria é um contingente tarifário adicional, no âmbito do Mercosul, de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa, dividido igualmente entre produtos com e sem osso e implementado de forma gradual ao longo de seis anos.
Para a carne suína, o tratado cria, pela primeira vez, uma cota preferencial específica para o Mercosul de 25 mil toneladas anuais, com tarifa intracota de 83 euros por tonelada, inferior à aplicada fora da cota.
No segmento de ovos, o acordo ainda estabelece cotas isentas de tarifa para ovos processados e albuminas, o que abre espaço para exportações brasileiras de maior valor agregado, de acordo com a entidade.
Veja valores:
Para Leandro Gilio, professor pesquisador do Insper Agro Global, os ganhos do Mercosul estão concentrados na agricultura. Ele projeta que os maiores ganhos para o bloco sul-americano devem ocorrer em carnes, etanol e açúcar, com aumento estimado entre 2% e 7% no comércio total com a UE, considerando apenas reduções tarifárias e quotas.
— Apesar das cotas ainda bastante restritivas, é no setor agrícola que temos maior competitividade.
Já a União Europeia deve se beneficiar da exportação de produtos de maior valor agregado, diz.
— No caso deles, o ganho está em veículos e autopeças, cosméticos, bebidas, azeites e outros produtos industrializados, com crescimento estimado entre 10% e 15% das exportações.
Master:
Um ponto a ser ponderado, lembra Gilio, é que os produtos que o Brasil mais exporta estão limitados por quotas, o que no longo prazo pode limitar o crescimento das exportações. Já os produtos europeus enfrentam menos limitações, o que pode favorecer mais o bloco europeu caso haja aumento da demanda.
E para o brasileiro, o que muda?
Para o consumidor brasileiro, os efeitos devem ser sentidos apenas no longo prazo.
— Creio que seja mais o efeito simbólico, do que um efeito realmente prático. O acordo é faseado e a diminuição tarifária é feita a longo prazo. Para alguns produtos passa de 5 anos, chegando a 15 ou até 30 anos em alguns casos — afirma Gilio, do Insper. — Não é um efeito que deve ser sentido no bolso do consumidor ainda em 2026, mas gradualmente. No entanto, com a assinatura em um momento geopolítico complicado, quando o mundo está cada vez mais protecionista, tem uma simbologia positiva.
Lia Valls, pesquisadora do FGV Ibre, tem avaliação semelhante. Ela explica que, enquanto a UE prevê livre comércio total em até dez anos para a maioria dos produtos, o cronograma brasileiro é mais longo, especialmente em setores sensíveis, como o automotivo, incluindo veículos elétricos.
— Não é algo como “o vinho vai ficar baratíssimo”. Os prazos variam por produto, e muitos levam cinco, dez anos ou mais para sentir os efeitos.
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