Finanças

Governo considera acordo Mercosul-UE resposta ao avanço do unilateralismo de Trump

Assinatura do acordo está prevista para os próximos dias

Agência O Globo - 09/01/2026
Governo considera acordo Mercosul-UE resposta ao avanço do unilateralismo de Trump
Donaldo Trump - Foto: © telegram SputnikBrasil / Acessar o banco de imagens

Diante do avanço de medidas unilaterais adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente as tarifas comerciais, o governo brasileiro avalia que a confirmação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia ganha relevância estratégica como defesa concreta do multilateralismo. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o entendimento entre os dois blocos ocorre em um momento considerado especialmente adverso para a ordem internacional baseada em regras.

A semana foi marcada por sucessivos episódios que fragilizaram mecanismos multilaterais, com ações e ameaças que se estenderam da América Latina à Europa. Nesse contexto, o avanço do acordo comercial é visto como um "sopro positivo", ao demonstrar que ainda existe espaço para soluções negociadas entre blocos, mesmo em um ambiente internacional pressionado por iniciativas unilaterais e pelo enfraquecimento de instituições globais.

Integrantes do governo brasileiro ressaltam que o acordo não deve gerar efeitos imediatos sobre o fluxo comercial, pois envolve cronogramas longos de desgravação tarifária, que podem se estender por dez a quinze anos. O impacto mais relevante, no curto prazo, é político: reafirmar o multilateralismo e fortalecer institucionalmente o compromisso entre os blocos.

Esses interlocutores minimizam as resistências de alguns países europeus, como França, Irlanda, Áustria, Hungria e Polônia, além da abstenção da Bélgica. Argumentam que esses países não possuem peso populacional suficiente para barrar o avanço do acordo no âmbito da União Europeia. A oposição, acrescentam, está concentrada em setores agrícolas e em debates internos de difícil reversão política.

Para o Planalto, além de fortalecer o multilateralismo, o acordo contribui para diversificar parcerias internacionais e reduzir a dependência de relações consideradas instáveis ou imprevisíveis. "Hoje, no mundo, todos buscam diminuir a dependência de parceiros que não são confiáveis", afirmou um embaixador, destacando o peso econômico e o histórico de investimentos europeus no Brasil.

Nesse cenário, o governo brasileiro enxerga o avanço do acordo como uma sinalização de que ainda é possível preservar regras, negociações e compromissos coletivos, mesmo em um ambiente internacional descrito como hostil à cooperação e cada vez mais pressionado por iniciativas unilaterais.