Finanças
Governo considera acordo Mercosul-UE resposta ao avanço do unilateralismo de Trump
Assinatura do acordo está prevista para os próximos dias
Diante do avanço de medidas unilaterais adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente as tarifas comerciais, o governo brasileiro avalia que a confirmação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia ganha relevância estratégica como defesa concreta do multilateralismo. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o entendimento entre os dois blocos ocorre em um momento considerado especialmente adverso para a ordem internacional baseada em regras.
A semana foi marcada por sucessivos episódios que fragilizaram mecanismos multilaterais, com ações e ameaças que se estenderam da América Latina à Europa. Nesse contexto, o avanço do acordo comercial é visto como um "sopro positivo", ao demonstrar que ainda existe espaço para soluções negociadas entre blocos, mesmo em um ambiente internacional pressionado por iniciativas unilaterais e pelo enfraquecimento de instituições globais.
Integrantes do governo brasileiro ressaltam que o acordo não deve gerar efeitos imediatos sobre o fluxo comercial, pois envolve cronogramas longos de desgravação tarifária, que podem se estender por dez a quinze anos. O impacto mais relevante, no curto prazo, é político: reafirmar o multilateralismo e fortalecer institucionalmente o compromisso entre os blocos.
Esses interlocutores minimizam as resistências de alguns países europeus, como França, Irlanda, Áustria, Hungria e Polônia, além da abstenção da Bélgica. Argumentam que esses países não possuem peso populacional suficiente para barrar o avanço do acordo no âmbito da União Europeia. A oposição, acrescentam, está concentrada em setores agrícolas e em debates internos de difícil reversão política.
Para o Planalto, além de fortalecer o multilateralismo, o acordo contribui para diversificar parcerias internacionais e reduzir a dependência de relações consideradas instáveis ou imprevisíveis. "Hoje, no mundo, todos buscam diminuir a dependência de parceiros que não são confiáveis", afirmou um embaixador, destacando o peso econômico e o histórico de investimentos europeus no Brasil.
Nesse cenário, o governo brasileiro enxerga o avanço do acordo como uma sinalização de que ainda é possível preservar regras, negociações e compromissos coletivos, mesmo em um ambiente internacional descrito como hostil à cooperação e cada vez mais pressionado por iniciativas unilaterais.
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