Finanças

Quase dois meses após liquidação do Master, investidores vivem apreensão enquanto aguardam ressarcimentos do FGC

Fundo Garantidor de Crédito não garante data para pagamento de saldos de até R$ 250 mil

Agência O Globo - 09/01/2026
Quase dois meses após liquidação do Master, investidores vivem apreensão enquanto aguardam ressarcimentos do FGC
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os clientes do que investiram em aplicações cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCDs), aguardam há mais de 50 dias o reembolso de seus ativos, a contar de 18 de novembro, quando o decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira.

Na ocasião, o FGC informou que haver 1,6 milhão de investidores elegíveis à reposição — ou seja, que terão direito a restituição de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ —, o que totaliza cerca de R$ 41 bilhões em indenizações. Embora não haja prazo legal definido para a restituição, investidores ouvidos pelo GLOBO se sentem apreensivos com a possibilidade de idas e vindas no processo de liquidação, além de se queixarem de que o dinheiro não será corrigido na devolução, nem mesmo pela inflação.

O advogado Eduardo Rossini, 37, que mora em São Paulo, conta que investiu R$ 190 mil ao longo dos últimos anos em títulos do banco e possui cerca de R$ 230 mil a receber do FGC. Ele afirma que, com a demora da restituição, vai pensar duas vezes antes de aplicar em bancos que considera menos conhecidos no mercado.

– Investi no Master confiando no FGC. Eu já recebi pelo FGC, nas liquidações do Banco BRK e da Portocred, em um período menor do que o atual. Achei que desta vez também seria rápido – ele afirma. – Com essa situação, vou acabar diversificando mais, ou investindo em ativos que talvez não tenham tanto retorno, mas que sejam de um banco mais consolidado, que dificilmente vai ser liquidado – conclui.

Procurado, o FGC enviou a seguinte nota:

"Aguardamos as informações do Banco Master, Banco Master de Investimento e Banco Letsbank, que estão sendo consolidadas pelo Liquidante, com o apoio do FGC, para iniciar o pagamento da garantia aos credores tão logo quanto possível".

Já a liquidante, a empresa EFB Regimes Especiais de Empresas, enviou uma nota ao jornal Valor Econômico, no fim do mês passado, dizendo que a relação estava em fase de consolidação. “Tal processo envolve análises técnicas e cruzamento de informações decorrentes do modelo operacional das mencionadas instituições sob regime especial, com vistas à realização de pagamentos pelo referido Fundo”, afirmou o liquidante do Master.

Enquanto os devedores não quitam os débitos, os credores enfrentam certa ansiedade devido ao processo moroso e se queixam de que os investimentos, neste período, deixam de ter qualquer rendimento, conforme definido pelas regras do mercado financeiro.

– Temos cerca de R$ 30 mil para receber, e esse dinheiro está parado, sem render nem um centavo. Eu poderia usá-lo em outra coisa ou reinvesti-lo. Ver o dinheiro parado não é nada agradável, mas espero que possamos recebê-lo em breve – afirma a arquiteta paulistana Tainá Sato, 32, que começou a investir no Master em 2020 com o marido, o consultor Idineu Spadari, 39.

Já o engenheiro Felipe Miras, também de São Paulo, tem outra preocupação: a de que a liquidação do Master seja revertida, em um cenário visto por analistas hoje como improvável. Mesmo assim, para Miras, que possui R$ 10 mil em títulos da instituição fundada por Daniel Vorcaro, os quase dois meses sem correção representam uma perda financeira.

– Eu poderia estar ganhando esse rendimento. Quando o fundo fizer o ressarcimento, procurarei outro CDB ou aplicarei no Tesouro, que é onde eu tenho a maior parte do meu dinheiro aplicado — ele conta.

Outro cliente do Master, o aposentado Marcelo Atique, de Brasília, é um dos diversos investidores que têm buscado o site Reclame Aqui para registrar queixas pelo que considera uma demora na devolução dos recursos. Com R$ 109 mil aplicados em diversos CDBs nos últimos dois anos, ele foi atraído pelos rendimentos superiores do Master, que chegavam a até 140% do CDI (atualmente fixado em cerca de 15% ao ano).

– O que mais me atraiu foram as ofertas de 115% do CDI . Em março, quando começamos ao ouvir os "zunzunzuns" do Master, pensei em fazer o saque, mas como eles estavam pagando normalmente (os rendimentos mensais) e o valor é coberto pelo FGC, eu fui deixando. Hoje, o dinheiro está fazendo falta, pois é uma renda que complementa a minha aposentadoria – afirma Atique.

O advogado Gustavo Kloh, professor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas no Rio e especialista em direito do consumidor, afirma que essa não é a primeira vez que o FGC demanda um processo mais alongado para ressarcir clientes de bancos liquidados e acredita que os credores do Master serão reembolsados em breve.

– A liquidação de uma instituição financeira é um pouco diferente de uma falência normal. Ela tem uma lei própria, tem regras próprias. Quem nomeia o liquidante é o Banco Central e é ele quem vai ranquear os créditos. O consumidor, que é o cotista, entra no fim da fila. Nesse caso, cito a teoria do "bolo de aniversário". A primeira fatia é grossa, depois o bolo vai ficando menor e quem chegar por último pega as fatias mais finas, se ainda houver bolo– afirma Kloh.