Finanças
Contrato de socorro ao Master tinha regra que interrompia ajuda ao banco em caso de investigação da PF
Em maio do ano passado, Fundo Garantidor de Créditos emprestou R$ 4 bilhões para instituição saldar seus compromissos
O contrato de empréstimos emergenciais do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para o banco Master honrar o pagamento de seus Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) tinha uma cláusula de segurança que previa a suspensão do socorro, caso a instituição ou seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro, fossem alvo de investigação da Polícia Federal (PF) ou Ministério Público Federal (MPF).
A informação foi publicada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo EXTRA.
Esse tipo de cláusula é comum em contratos entre empresas e quando os valores envolvidos são elevados, diz o advogado Bruno Boris, especializado em recuperação judicial, setor bancário e empresas.
Em maio de 2025, o FGC emprestou R$ 4 bilhões ao banco para saldar seus compromissos, já que o Master apresentava problemas de liquidez por não fazer novas captações desde março. No mesmo mês, o Banco Regional de Brasília (BRB) havia anunciado a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master por R$ 2 bilhões. Mas o negócio ainda teria que ser analisado pelo Banco Central — e acabou sendo reprovado pela autoridade monetária.
Recursos insuficientes
Como os recursos do FGC eram insuficientes para saldar os compromissos, o Master começou a buscar alternativas. Daniel Vorcaro vendeu ativos pessoais, como participações em empresas, imóveis e direitos creditórios ao banco BTG, e obteve R$ 1,5 bilhão. Também vendeu a seguradora Kvor, que fazia parte do grupo, a sócios minoritários.
Em setembro passado, a Kvor acabou sendo adquirida pela J&F, holding da família Batista, dona da JBS. O Master também ofereceu ao mercado o Will Bank, uma instituição digital que faz parte do grupo. O fundo árabe Mubadala mostrou interesse, mas o negócio não se concretizou.
Balanço
Segundo um balanço divulgado em abril de 2025, o Master tinha passivos de R$ 7,6 bilhões apenas no primeiro semestre do ano passado. Até o final do ano, os compromissos a serem pagos chegavam a R$ 16 bilhões. Portanto, o Master precisava de mais recursos e continuava tentando se desfazer de ativos para engordar seu caixa.
Ao mesmo tempo negociava uma nova linha de crédito com o FGC, que poderia chegar a R$ 10 bilhões, segundo se comentava no mercado. O empréstimo inicial de R$ 4 bilhões venceu no início de outubro passado e acabou sendo rolado pelo FGC.
Mas quase na mesma data, o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. Simultaneamente, a Polícia Federal abriu inquérito com base nos documentos que fizeram o BC brecar o negócio para apurar fraudes na venda de carteiras de crédito para o BRB. A PF investiga suspeitas de fraude contra o sistema financeiro, falsidade documental e eventuais prejuízos a instituições públicas.
Sem o novo socorro do FGC, e sem outras fontes de recursos, a situação Master ficou insustentável e o BC decretou sua liquidação no último dia 18 de novembro. O dono do Banco Master foi preso de forma preventiva no mesmo dia pela PF, quando tentava embarcar em um avião no Aeroporto de Guarulhos para deixar o país. Ele acabou sendo solto no dia 29 de novembro e passou a usar tornozeleira eletrônica.
Partes não se manifestam
Procurado, o FGC informou que não comenta sobre associados. O Master também não comentou.
A advogada Daniela Poli Vlavianos, especialista em execuções do escritório Arman Advocacia, diz que essa cláusula de segurança é amplamente usada em contratos de crédito que envolvem risco elevado, especialmente em operações com instituições financeiras.
— Trata-se de uma cláusula de gestão de risco que permite ao credor suspender ou interromper a liberação de recursos quando ocorre um fato que altera de maneira significativa o perfil de risco avaliado no momento da contratação — explica ela, lembrando que esse tipo de regra reflete uma prática consolidada em operações de crédito sofisticadas, sobretudo em situações emergenciais.
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