Finanças
Apoio da Itália e nova pressão geopolítica podem destravar acordo UE-Mercosul, avaliam especialistas
Mudança de postura do governo italiano pode acelerar tratativas entre União Europeia e Mercosul, segundo analistas
A recente mudança de posição da Itália é vista como fator que pode acelerar a conclusão do acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul, especialmente diante do cenário de instabilidade geopolítica global.
De acordo com especialistas, a postura mais assertiva dos Estados Unidos em relação à América do Sul — exemplificada pelo ataque do governo de Donald Trump à Venezuela — aumenta a pressão para que o bloco europeu avance nas negociações com o Mercosul.
Consultores em comércio exterior e direito internacional ressaltam que, em tempos de incertezas globais, a atuação mais agressiva dos EUA aproxima europeus e sul-americanos na busca por parceiros mais previsíveis.
O acordo também tem relevância comercial, pois deve ampliar a presença da UE em uma região onde a China é atualmente grande fornecedora industrial e compradora de commodities.
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio da consultoria BMJ, o apoio da Itália reflete pressões internas dentro da própria UE, que vinha cobrando uma definição após o pedido de prorrogação liderado por Roma.
— É também um sinal claro de que a União Europeia está perdendo espaço, especialmente na América Latina, e que interessa ao bloco, mais do que nunca, avançar no acordo com o Mercosul. O ataque à Venezuela pode sim ter influenciado esse cálculo — afirma Barral.
UE busca preservar influência global
Se firmado, o tratado tende a ajudar a UE a preservar influência e espaço em regiões historicamente ligadas ao bloco, em um mundo cada vez mais fragmentado e marcado pela disputa por áreas de influência e busca de aliados estratégicos, avalia Marcos Jank, professor e pesquisador sênior de agronegócio global no Insper.
Segundo Jank, a postura dos EUA em relação à América Latina, incluindo o discurso recente de Trump que tratou a região como área de influência de Washington, tende a aproximar a Europa do Mercosul.
— Existe um componente geopolítico. E a forma como os Estados Unidos estão se posicionando em relação à América Latina, que tem toda uma história com a Europa, pode ser um elemento importante para sinalizar que, tanto do lado de cá como do lado europeu, as relações vão se aprofundar por meio de um acordo comercial — analisa Jank.
Ele acrescenta que, diferentemente da relação com a China, que envolve uma disputa hegemônica explícita com os EUA, o acordo Mercosul-UE é mais previsível e está em negociação há mais de duas décadas.
“Muito vantajoso para a Europa”
Para Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na Alemanha, a instabilidade do sistema internacional já pressionava a Europa a buscar parceiros mais confiáveis, e a ofensiva americana contra a Venezuela apenas reforçou essa necessidade.
Jaguaribe acredita que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sempre reconheceu a importância do acordo para o país, mas, por razões internas, postergou a mudança de posição. A resistência inicial buscava apaziguar setores internos contrários ao tratado e maximizar benefícios políticos e orçamentários dentro da própria UE.
— Ela está disposta a avançar no entendimento com o Mercosul porque é muito vantajoso para a Europa. É um dos poucos pontos em que o bloco terá vantagem efetiva sobre dois grandes competidores, Estados Unidos e China, que não têm acesso ao mercado do Mercosul nas mesmas condições — destaca.
Jaguaribe conclui:
— Vejo esse movimento com naturalidade e espero que ele permita que a sensatez prevaleça, pois a Europa tem demonstrado fragilidade, inclusive dificuldade em sustentar posições tradicionais no campo do direito internacional.
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