Finanças
Offshores, fundos de investimentos e fintechs: entenda a rede de ocultação de ativos da Refit
Estado americano, que oferece anonimato e ausência de tributação, serviu de base para ao menos 15 offshores ligadas ao grupo investigado
Empresas sediadas no exterior foram fundamentais para que a Refit ocultasse patrimônio proveniente de um esquema de fraude e sonegação fiscal, alvo da megaoperação da Receita Federal realizada nesta quinta-feira (27). De acordo com os investigadores, companhias registradas nos Estados Unidos figuravam como proprietárias de fundos de investimento que recebiam valores ilícitos dos suspeitos.
Os recursos obtidos pelo esquema eram redirecionados por meio de uma complexa rede de empresas laranjas, principalmente via holdings, offshores, instituições de pagamento e fundos de investimento.
Segundo a Receita Federal, já foram identificados 17 fundos ligados ao grupo, com um patrimônio total de R$ 8 bilhões. Em geral, esses fundos possuem apenas um cotista, que, por sua vez, é outro fundo de investimento. Essa estrutura cria várias “camadas de ocultação”, dificultando o rastreamento do fluxo financeiro.
Fundos em Delaware
A análise desses fundos levou os investigadores a entidades estrangeiras estabelecidas em Delaware, nos Estados Unidos. O estado é conhecido por oferecer condições favoráveis para empresas, como alto grau de anonimato e ausência de tributação local, desde que não gerem renda em solo americano.
“Tal prática é comumente associada a estratégias voltadas à lavagem de dinheiro ou blindagem patrimonial dos envolvidos”, informou a Receita Federal, acrescentando: “Já foram identificadas mais de 15 offshores nos EUA, que remetem recursos para aquisição de participações e imóveis no Brasil, totalizando cerca de R$ 1 bilhão”.
De acordo com o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo, diversas empresas ligadas ao grupo atuavam como “interpostas pessoas” (laranjas) para evitar o pagamento de ICMS:
“As ações criminosas se dão através da reincidência no descumprimento fiscal, da utilização de empresas com vínculos societários e operacionais e da simulação de operações interestaduais com combustíveis”, diz nota do comitê.
Importadoras e movimentação financeira
Importadoras, também utilizadas como laranjas, eram responsáveis por adquirir nafta, hidrocarbonetos e diesel do exterior, utilizando recursos de formuladoras e distribuidoras do grupo. Entre 2020 e 2025, cerca de R$ 32 bilhões em combustíveis foram importados pelos investigados, que, segundo a Receita Federal, sonegavam reiteradamente tributos em suas operações.
O dinheiro era centralizado em empresas financeiras do próprio grupo. Entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025, mais de R$ 72 bilhões passaram por esse núcleo, comandado por uma empresa financeira “mãe” que controlava subsidiárias menores. O grupo também utilizou as chamadas “contas-bolsões”, explorando brechas regulatórias para dificultar o rastreamento das movimentações.
Estratégias semelhantes foram identificadas na Operação Carbono Oculto, que investigou o uso do mercado de combustíveis para lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). De acordo com a Receita Federal, o grupo alvo da operação desta quinta-feira mantém vínculos financeiros com empresas e pessoas já investigadas naquela primeira ação.
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