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Do fictício ao prático: como a IA já está na política
Impactos e desafios do uso da inteligência artificial nas campanhas eleitorais
A Sputnik Brasil compilou o uso de inteligência artificial na política, tanto na criação de imagens e narrativas, até a organização de estratégias eleitorais e políticas públicas.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), junto com a Advocacia-Geral da União (AGU), anunciou uma cartilha sobre boas práticas no uso da inteligência artificial nas eleições, destacando, por exemplo, a necessidade de os conteúdos gerados por IA serem rotulados para que fique claro se tratar de material sintético.
Essa parceria acontece em meio ao medo do uso de deepfakes, sobretudo do vídeo de Jair Bolsonaro feito por IA na convenção do PL. No vídeo, a imagem do ex-presidente foi usada para pedir votos ao candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro. A Sputnik Brasil vai mostrar diferentes formas de uso de IA na política.
Jingles, sátiras e cenas fictícias
Até a pré-campanha presidencial brasileira já foi marcada pelo uso crescente da inteligência artificial. A tecnologia passou a ser empregada para criar jingles, músicas, vídeos promocionais, animações e clipes satíricos, permitindo que campanhas produzam conteúdos de maneira mais rápida e com menor custo.
Um dos casos de maior repercussão foi o do senador Flávio Bolsonaro, que divulgou vídeos gerados por IA em que aparece como piloto de caça, captura um ladrão de celulares e até contracena com uma versão sintética do pai, Jair Bolsonaro. Na convenção do PL, um vídeo produzido por IA simulou a imagem e a voz do ex-presidente para declarar apoio à candidatura do filho.
A tecnologia também tem sido utilizada por outros presidenciáveis. O governador Romeu Zema publicou um clipe em que aparece cantando uma música sobre Minas Gerais e, posteriormente, divulgou vídeos com personagens semelhantes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em tom crítico.
Ronaldo Caiado, por sua vez, recorreu a imagens sintéticas em peças sobre segurança pública e também apareceu como cantor e violonista em vídeos criados com IA. Até aliados de Lula utilizaram a ferramenta para produzir vídeos que reconstituem sua trajetória política e pessoal.
Além de baratear a produção de conteúdo, a tecnologia permite adaptar uma mesma mensagem para diferentes públicos, alterando voz, imagens, cenário e discurso em poucos minutos.
No entanto, o uso de conteúdos sintéticos em peças humorísticas ou de ataque pode ampliar a circulação de desinformação e reforçar narrativas enganosas, tornando mais difícil para o eleitor distinguir fatos de conteúdos manipulados.
Geração de candidatos e partidos por IA
Como forma de apresentar agendas pouco debatidas na política e testar novas formas de representação, diferentes iniciativas ao redor do mundo passaram a recorrer à inteligência artificial para criar candidatos virtuais ou até partidos políticos.
Em alguns casos, a IA funciona como uma interface capaz de dialogar com eleitores e formular propostas. Em outros, serve como um experimento para discutir os limites entre automação, representação democrática e responsabilidade política.
Na Colômbia, a Gaitana IA foi lançada como candidata virtual ao Senado, com foco em temas como transparência, combate à corrupção e participação cidadã. Apesar de não possuir personalidade jurídica nem disputar formalmente a eleição, a iniciativa buscou mostrar como ferramentas de IA poderiam auxiliar na elaboração de propostas e no diálogo com a população.
No Reino Unido, o empresário Steve Endacott concorreu ao Parlamento utilizando o AI Steve, um avatar alimentado por inteligência artificial que respondia às perguntas dos eleitores em tempo real. A promessa era utilizar as interações da IA para orientar suas decisões caso fosse eleito, apresentando o sistema como forma de ampliar a participação popular na formulação de políticas públicas.
Já nos Estados Unidos, o projeto VIC (Virtual Integrated Citizen) tentou registrar uma candidatura ao Senado pelo estado de Wyoming em 2026. A proposta previa que a IA atuasse como a principal responsável pela campanha e pelas posições políticas, enquanto seu idealizador serviria como representante legal. O registro, porém, foi rejeitado pelas autoridades eleitorais, que afirmaram que apenas pessoas físicas podem concorrer a cargos eletivos.
Além de candidatos virtuais, a IA também chegou ao nível partidário. Na Dinamarca, o Synthetic Party foi criado em 2022 como iniciativa artística e política. Seu programa é elaborado por um modelo de inteligência artificial treinado com propostas de pequenos partidos que nunca conseguiram representação parlamentar, buscando reunir demandas historicamente ignoradas pelo sistema político tradicional. O partido utiliza a IA para interagir com eleitores e formular posicionamentos, mas, assim como nos demais casos, candidatos humanos continuam sendo necessários para disputar eleições.
Simulação de cenários eleitorais e microssegmentação de eleitorado
Além da produção de imagens e vídeos, a inteligência artificial vem transformando a estratégia das campanhas eleitorais ao permitir a simulação de cenários e a personalização de mensagens para grupos específicos de eleitores.
Com base em grandes volumes de dados — como pesquisas de opinião, comportamento nas redes sociais, indicadores econômicos e resultados de eleições anteriores —, algoritmos conseguem estimar o impacto de diferentes propostas, testar discursos e indicar quais temas têm maior potencial de mobilizar determinados segmentos da população.
Na prática, isso significa que uma campanha pode avaliar como uma proposta de redução de impostos repercute entre pequenos empresários, enquanto outra mensagem voltada à segurança pública é direcionada a eleitores de grandes centros urbanos.
Essa estratégia, conhecida como microssegmentação, ganhou notoriedade no escândalo da Cambridge Analytica durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016 e no referendo do Brexit, quando dados de milhões de usuários do Facebook foram usados para direcionar propaganda política altamente personalizada.
Desde então, campanhas em diversos países passaram a empregar ferramentas semelhantes — ainda que dentro de regras mais rígidas de proteção de dados — para identificar nichos de eleitores, prever tendências de voto e otimizar recursos.
No entanto, a hiperpersonalização também pode criar "bolhas" de informação, nas quais diferentes grupos recebem mensagens distintas, dificultando o debate público e reduzindo a transparência sobre o que cada candidato promete a diferentes parcelas do eleitorado.
Formulação de políticas públicas e legislação
A inteligência artificial também vem ganhando espaço na formulação de políticas públicas e na atividade legislativa. Governos e parlamentos utilizam algoritmos para analisar grandes volumes de dados, identificar tendências e simular os efeitos de diferentes medidas antes de sua implementação.
A tecnologia pode cruzar informações sobre saúde, segurança, educação, mobilidade e orçamento para apontar prioridades, estimar custos e prever impactos econômicos e sociais de determinadas políticas.
No Poder Legislativo, a IA tem sido empregada para agilizar tarefas como a elaboração de minutas de projetos de lei, o resumo de textos legislativos, a comparação entre diferentes versões de propostas e a análise de milhares de emendas. Ferramentas do tipo também auxiliam gabinetes parlamentares a responder demandas de cidadãos, organizar consultas públicas e identificar temas que despertam maior interesse da população.
Alguns países já incorporaram essas soluções ao processo legislativo. No Brasil, iniciativas como a ferramenta Ulysses, da Câmara dos Deputados, visam usar IA para apoiar a elaboração de pareceres e pesquisas legislativas. Nos Emirados Árabes Unidos, o governo anunciou em 2025 o uso de inteligência artificial para ajudar na redação e revisão de leis, com a proposta de analisar automaticamente como novas normas podem afetar a legislação existente e sugerir alterações.
Essas tecnologias têm o potencial de tornar a administração pública mais eficiente e baseada em evidências, porém, tais decisões políticas envolvem valores, prioridades e escolhas que não podem ser delegadas a algoritmos, além de levantarem preocupações sobre transparência, vieses e responsabilização.
Por Sputnik Brasil
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